Onze Minutos
Paulo Coelho

DEDICATRIA
No dia 29 de maio de 2002, horas antes de colocar um ponto final neste livro, fui at a
Gruta de Lourdes, na Frana, encher alguns gales de gua milagrosa na fonte que ali se
encontra. J dentro do terreno da catedral, um senhor de aproximadamente setenta anos me
disse: "Sabe que voc parece com o Paulo Coelho?" Eu respondi que era o prprio. O
homem me abraou, e me apresentou sua esposa e sua neta. Falou da importncia de meus
livros em sua vida, concluindo: "Eles me fazem sonhar."
J escutei essa frase vrias vezes, e ela sempre me deixa contente. Naquele momento,
entretanto, fiquei muito assustado porque sabia que Onze minutos falava de um assunto
delicado, contundente, chocante. Caminhei at a fonte, enchi os gales, voltei, perguntei
onde morava o homem (no Norte da Frana, perto da Blgica) e anotei o seu nome.
Este livro  dedicado a voc, Maurice Gravelines. Tenho uma obrigao para com
voc, sua mulher, sua neta, e comigo: falar daquilo que me preocupa, e no do que todos
gostariam de escutar. Alguns livros nos fazem sonhar, outros nos trazem a realidade, mas
nenhum pode fugir daquilo que  mais importante para um autor: a honestidade com o que
escreve.

Porque eu sou a primeira e a ltima Eu sou a venerada e a desprezada Eu sou a
prostituta e a santa Eu sou a esposa e a virgem Eu sou a me e a filha Eu sou os braos de
minha me Eu sou a estril, e numerosos so meus filhos Eu sou a bem-casada e a solteira
Eu sou a que d  luz e a que jamais procriou Eu sou a consolao das dores do parto Eu
sou a esposa e o esposo E foi meu homem quem me criou Eu sou a me do meu pai Sou a
irm de meu marido E ele  o meu filho rejeitado Respeitem- me sempre Porque eu sou a
escandalosa e a magnfica
Hino a sis, sculo III ou IV (?), descoberto em Nag Hammadi
Apareceu certa mulher, conhecida na cidade como pecadora. Ela, sabendo que Jesus
estava  mesa na casa do fariseu, levou um frasco de alabastro com perfume. A mulher se
colocou por trs, chorando aos ps de Jesus; com as lgrimas comeou a banhar- lhe os ps.
Em seguida, os enxugava com os cabelos, cobria-os de beijos e os ungia com perfume.
Vendo isso, o fariseu que havia convidado Jesus ficou pensando: "Se esse homem fosse
mesmo um profeta, saberia que tipo de mulher est tocando nele, porque ela  pecadora."
Jesus disse ento ao fariseu: "Simo, tenho uma coisa para dizer a voc."
Simo respondeu: "Fale, mestre."
"Certo credor tinha dois devedores. Um lhe devia quinhentas moedas de prata, e outro
lhe devia cinqenta. Como no tivessem com que pagar, o homem perdoou os doas. Qual
deles o amar mais?"
Simo respondeu: "Acho que  aquele a quem ele perdoou mais."
Jesus lhe disse: "Voc julgou certo."
Ento Jesus voltou-se para a mulher, e disse a Simo:
"Est vendo esta mulher? Quando entrei em sua casa, voc no me ofereceu gua para
lavar- me os ps; ela, porm, banhou meus ps com lgrimas, e os enxugou com os cabelos.
Voc no me deu o beijo de saudao; ela porm, desde que entrei; no parou de beijar
meus ps. Voc no derramou leo na minha cabea; ela porm ungiu os meus ps com
perfume. Por isso eu declaro a voc que os muitos pecados que ela cometeu esto perdoados, porque ela amou muito. Aquele que foi perdoado de pouco, demonstra que
pouco amou.
Lucas, 7, 37-47
Era uma vez uma prostituta chamada Maria.
Um momento. "Era uma vez"  a melhor maneira de comear uma histria para
crianas, enquanto "prostituta"  assunto para adultos. Como posso escrever um livro com
esta aparente contradio inicial? Mas, enfim, como a cada instante de nossas vidas temos
um p no conto de fadas e o outro no abismo, vamos manter este incio:
Era uma vez uma prostituta chamada Maria.
Como todas as prostitutas, tinha nascido virgem e inocente, e durante a adolescncia
sonhara em encontrar o homem de sua vida (rico, bonito, inteligente), casar (vestida de
noiva), ter dois filhos (que seriam famosos quando crescessem), viver em uma linda casa
(com vista para o mar). Seu pai trabalhava como vendedor ambulante, sua me era
costureira, sua cidade no interior do Brasil tinha apenas um cinema, uma boate, uma
agncia bancria, e por causa disso Maria no deixava de esperar o dia em que seu prncipe
encantado chegaria sem aviso, arrebataria seu corao, e partiria com ela para conquistar o
mundo.
Enquanto o prncipe encantado no aparecia, s lhe restava sonhar. Apaixonou-se pela
primeira vez aos onze anos, enquanto ia a p de sua casa at a escola primria local. No
primeiro dia de aula, descobriu que no estava sozinha em seu trajeto: junto com ela
caminhava um garoto que vivia na vizinhana e freqentava aulas no mesmo horrio. Os
dois nunca trocaram uma s palavra, mas Maria comeou a notar que a parte do dia que
mais lhe agradava eram aqueles momentos na estrada cheia de poeira, sede, cansao, o sol a
pino, o menino andando rpido, enquanto ela se exauria no esforo para acompanhar- lhe os
passos.
A cena se repetiu por vrios meses. Maria, que detestava estudar e no tinha outra
distrao na vida exceto a televiso, passou a torcer para que o dia passasse rpido,
aguardando com ansiedade cada ida  escola e, ao contrrio de algumas meninas de sua
idade, achando aborrecidssimos os finais de semana. Como as horas demoram muito mais
a passar para uma criana que para um adulto, ela sofria muito, achava os dias longos
demais porque lhe davam apenas dez minutos com o amor de sua vida, e milhares de horas
para ficar pensando nele, imaginando como seria bom se pudessem conversar.
Ento aconteceu.
Certa manh, o garoto veio at ela, pedindo um lpis emprestado. Maria no
respondeu, demonstrou um certo ar de irritao por aquela abordagem ine sperada e
apressou o passo. Tinha ficado petrificada de medo ao v-lo andando em sua direo, tinha
pavor de que soubesse o quanto o amava, o quanto esperava por ele, como sonhava em
pegar sua mo, passar diante do porto da escola e seguir a estrada at o final, onde -
diziam se encontrava uma grande cidade, personagens de novela, artistas, carros, muitos
cinemas e um sem-fim de coisas boas.
Durante o resto do dia no conseguiu concentrar-se na aula, sofrendo com seu
comportamento absurdo, mas ao mesmo tempo sentia-se aliviada, porque sabia que o
menino tambm a havia notado, e o lpis no passava de um pretexto para iniciar uma
conversa, pois quando se aproximou ela percebera uma caneta em seu bolso. Ficou
aguardando a prxima vez, e durante aquela noite - e as noites que se seguiram - ela passou
a imaginar as muitas respostas que lhe daria, at encontrar a maneira certa de comear uma
histria que no terminasse jamais. Mas no houve uma prxima vez; embora continuassem a ir juntos para a escola, com
Maria s vezes alguns passos  frente segurando um lpis na mo direita, outras vezes
andando atrs para poder contempl- lo com ternura, ele nunca mais lhe dirigiu palavra, e
ela teve que contentar-se em amar e sofrer silenciosamente at o final do ano letivo.
Durante as interminveis frias que se seguiram, acordou certa manh com as pernas
banhadas em sangue, pensou que iria morrer; decidiu deixar uma carta para o menino
dizendo que ele havia sido o grande amor da sua vida, e planejou embrenhar-se no serto
para ser devorada por um daqueles animais selvagens que aterrorizavam os camponeses da
regio: o lobisomem ou a mula-sem-cabea. S assim os seus pais no sofreriam com sua
morte, pois os pobres tm sempre a esperana apesar das tragdias que sempre lhes
acontecem. Assim, eles viveriam pensando que ela fora raptada por uma famlia rica e sem
filhos, mas que talvez voltasse um dia, no futuro, cheia de glria e dinheiro - enquanto o
atual (e eterno) amor de sua vida se lembraria dela para sempre, sofrendo a cada manh por
no ter voltado a lhe dirigir a palavra.
No chegou a escrever a carta, porque sua me entrou no quarto, viu os lenis
vermelhos, sorriu e disse:
- Agora voc  uma moa, minha filha.
Quis saber que relao havia entre o fato de ser moa e o sangue que corria, mas sua
me no soube explicar direito, apenas afirmou que era normal e que de agora em diante
teria que usar uma espcie de travesseiro de boneca entre as pernas, durante quatro ou cinco
dias por ms. Perguntou se os homens usavam algum tubo para evitar que o sangue
escorresse pelas calas, e soube que isso s acontecia com as mulheres.
Maria reclamou com Deus, mas terminou se acostumando com a menstruao.
Entretanto, no conseguia acostumar-se com a ausncia do menino, e no parava de
recriminar a si mesma pela atitude estpida de sair correndo daquilo que mais desejava. Um
dia antes de recomearem as aulas, ela foi at a nica igreja da cidade e jurou  imagem de
Santo Antnio que iria tomar a iniciativa de conversar com o garoto.
arrumou-se da melhor maneira possvel, usando um vestido que a me costurara
especialmente para a ocasio, e saiu - agradecendo a Deus por terem finalmente terminado
as frias. Mas o menino no apareceu. E assim se passou mais uma angustiante semana, at
que soube, por alguns colegas, que ele havia mudado de cidade.
- Foi para longe - disse algum.
Naquele momento, Maria aprendeu que certas coisas se perdem para sempre.
Aprendeu tambm que existia um lugar chamado "longe", que o mundo era vasto, sua
aldeia era pequena, e as pessoas mais interessantes sempre terminavam indo embora.
Gostaria tambm de poder partir, mas ainda era muito jovem; mesmo assim, olhando as
ruas empoeiradas da cidadezinha onde morava, decidiu que um dia seguiria os passos do
menino. Nas no ve sextas-feiras que se seguiram, conforme um costume de sua religio,
comungou e pediu  Virgem Maria que algum dia a tirasse dali.
Tambm sofreu por algum tempo, tentando inutilmente encontrar a pista do garoto,
mas ningum sabia para onde seus pais haviam se mudado. Maria ento comeou a achar o
mundo grande demais, o amor algo muito perigoso, e a Virgem uma santa que habitava um
cu distante, e no ligava para o que as crianas pediam.
No dia seguinte,
Trs anos se passaram, ela aprendeu geografia e matemtica, comeou a acompanhar
as novelas na TV, leu na escola suas primeiras revistas erticas, e passou a escrever um
dirio falando da sua vida montona, e da vontade que tinha de conhecer aquilo que lhe ensinavam - oceano, neve, homens de turbante, mulheres elegantes e cobertas
de jias. Mas
como ningum pode viver de vontades impossveis - principalmente quando a me 
costureira e o pai no pra em casa -, logo entendeu que precisava prestar mais ateno ao
que se passava a sua volta. Estudava para vencer, ao mesmo tempo em que procurava
algum com quem pudesse compartilhar seus sonhos de aventuras. Quando completou
quinze anos, apaixonou-se por um rapaz que conhecera em uma procisso na Semana
Santa.
No repetiu o erro da infncia: conversaram, ficaram amigos, passaram a ir ao cinema
e s festas juntos. Tambm notou que, assim como acontecera com o menino, o amor estava
mais associado  ausncia que  presena da pessoa: vivia sentindo falta do rapaz, passava
horas imaginando sobre o que iam conversar no prximo encontro, e relembrava cada
segundo que estiveram juntos, procurando descobrir o que tinha feito de certo ou errado.
Gostava de ver a si mesma como uma moa experiente, que j deixara uma grande paixo
escapar, sabia a dor que isso causava - e agora estava decidida a lutar com todas as foras
por este homem, pelo casamento, que este seria o homem para o casamento, os filhos, a
casa em frente ao mar. Foi conversar com a me, que implorou:
- Ainda  muito cedo, minha filha.
- Mas a senhora casou-se com meu pai quando tinha dezesseis anos.
A me no queria explicar que fora por causa de uma gravidez inesperada, de modo
que usou o argumento "os tempos so outros", encerrando o assunto.
No dia seguinte, os dois foram caminhar por um campo nos arredores da cidade.
Conversavam um pouco, Maria perguntou se ele no tinha vontade de viajar, mas em vez
de responder, ele a agarrou em seus braos e lhe deu um beijo.
O primeiro beijo de sua vida! Como sonhara com aquele momento! E a paisagem era
especial - as garas voando, o prdo-sol, a regio semi-rida com sua beleza agressiva, o
som de uma msica ao longe. Maria fingiu reagir contra o avano, mas logo o abraou e
repetiu aquilo que vira tantas vezes no cinema, nas revistas e na TV: esfregou com alguma
violnc ia os seus lbios nos dele, mexendo a cabea de um lado para o outro, em um
movimento meio ritmado, meio descontrolado. Sentiu que, de vez em quando, a lngua do
rapaz tocava os seus dentes, e achou aquilo delicioso.
Mas ele parou de beij-la de repente.
- Voc no quer? - perguntou.
Que devia responder? Que queria? Claro que queria! Mas uma mulher no deve
expor-se desta maneira, principalmente para o seu futuro marido, ou ele ficar o resto da
vida desconfiado de que ela aceita tudo com muita facilidade. Preferiu no dizer nada.
Ele abraou-a de novo, repetindo o gesto, desta vez com menos entusiasmo. Tornou a
parar, vermelho - e Maria sabia que algo estava muito errado, mas tinha medo de perguntar.
Pegou-o pelas mos e caminharam at a cidade, conversando sobre outros assuntos,
como se nada tivesse acontecido.
Naquela noite, escolhendo algumas palavras difceis, porque achava que um dia tudo
o que escrevesse seria lido, e certa de que algo muito grave se passara, anotou no seu
dirio:
Quando nos encontramos com algum e nos apaixonamos, temos a impresso de que
todo o universo est de acordo; hoje eu vi isso acontecer no pr-do-sol. Entretanto, se algo
d errado, no sobra nada! Nem as garas, nem a msica ao longe, nem o sabor dos lbios
dele. Como  que pode desaparecer to rpido a beleza que ali estava fazia poucos minutos?
A vida  muito rpida; faz a gente ir do cu ao inferno em questo de segundos. No dia seguinte foi conversar com as amigas. Todas viram quando ela sara para
passear com seu futuro "namorado" - afinal, no basta ter um grande amor,  preciso
tambm fazer com que todos saibam que voc  uma pessoa muito desejada. Estavam
curiosssimas para saber o que tinha acontecido, e Maria, cheia de si, disse que a melhor
parte foi a lngua que tocava nos seus dentes. Uma das garotas riu.
- Voc no abriu a boca?
De repente, tudo ficava claro - a pergunta, a decepo.
- Para qu?
- Para deixar que a lngua entrasse.
- E qual  a diferena?
- No tem explicao.  assim que se beija.
Risinhos escondidos, ares de suposta piedade, vingana comemorada entre as meninas
que jamais tiveram um rapaz apaixonado. Maria fingiu que no dava importncia, riu
tambm - embora sua alma chorasse. Secretamente blasfemou contra o cinema, onde
aprendera a fechar os olhos, segurar a cabea do outro com a mo, mover o rosto um pouco
para a esquerda, um pouco para a direita, mas que no mostrava o essencial, o mais
importante. Elaborou uma explicao perfeita (eu no quis entregar- me logo, porque no
estava convencida, mas agora descobri que voc  o homem da minha vida) e aguardou a
prxima oportunidade.
Mas s viu o rapaz trs dias depois, em uma festa no clube da cidade, segurando a
mo de uma amiga sua - a mesma que lhe havia perguntado sobre o beijo. Ela de novo
fingiu que no tinha importncia, agentou at o final da noite conversando com as
companheiras sobre artistas e outros rapazes da cidade, fingindo ignorar alguns olhares
piedosos que de vez em quando uma delas lhe lanava. Ao chegar em casa, porm, deixou
que seu universo desabasse, chorou a noite inteira, sofreu por oito meses seguidos e
concluiu que o amor no fora feito para ela, nem ela para o amor. A partir da, passou a
considerar a possibilidade de transformar-se em religiosa, dedicando o resto da vida a um
tipo de amor que no fere e no deixa marcas dolorosas no corao o amor a Jesus. Na
escola falavam de missionrios que iam para a frica, e ela decidiu que ali estava a sada de
sua vida sem emoes. Fez planos para entrar no convento, aprendeu primeiros socorros (j
que, segundo alguns professores, muita gente morria na frica), dedicou-se com mais
afinco s aulas de religio e comeou a imaginar-se como santa dos tempos modernos,
salvando vidas e conhecendo as florestas onde habitavam tigres e lees.
Entretanto, o ano do seu dcimo quinto aniversrio no lhe reservara apenas a
descoberta de que o beijo se d com a boca aberta, ou de que o amor  sobretudo uma fonte
de sofrimento. Descobriu uma terceira coisa: a masturbao. Foi quase por acaso brincando
com seu sexo enquanto esperava a me voltar para casa. Costumava fazer isso quando era
criana, e gostava muito da sensao agradvel - at que um dia seu pai a viu e lhe deu uma
surra, sem explicar o motivo. Jamais esqueceu as pancadas, e aprendeu que no devia ficar
tocando-se na frente dos outros; como no podia fazer isso no meio da rua, e como em sua
casa no havia um quarto s para ela, esqueceu-se da sensao agradvel.
At aquela tarde, quase seis meses depois do beijo. A me demorou, ela no tinha o
que fazer, o pai havia acabado de sair com um amigo, e na falta de um programa
interessante na televiso, comeou a examinar seu corpo - na esperana de encontrar alguns
cabelos indesejados, que logo seriam arrancados com uma pina. Para sua surpresa, notou
um pequeno caroo na parte superior da vagina; comeou a brincar com ele, e j no
conseguia mais parar; era cada vez mais gostoso, mais intenso, e todo o seu corpo -
principalmente a parte que estava tocando - ia ficando rgido. Aos poucos comeou a entrar em uma espcie de paraso, a sensao foi aumentando de intensidade, ela
notou que j no
enxergava ou escutava direito, tudo parecia ter ficado amarelo, at que gemeu de prazer e
teve seu primeiro orgasmo.
Orgasmo! Gozo!
Foi como se tivesse subido at o cu e agora descesse de pra-quedas, lentamente,
para a terra. Seu corpo estava encharcado de suor, mas ela sentia-se completa, realizada,
cheia de energia. Ento era aquilo o sexo! Que maravilha! Nada de revistas pornogrficas,
com todo mundo falando de prazer, mas fazendo cara de dor. Nada de precisar de homens,
que gostavam do corpo mas desprezavam o corao de uma mulher. Podia fazer tudo
sozinha! Repetiu uma segunda vez, agora imaginando que era um ator famoso que a tocava,
e de novo foi at o paraso e desceu de pra-quedas, ainda mais cheia de energia. Quando ia
comear pela terceira vez, a me chegou.
Maria foi conversar com as amigas sobre sua nova descoberta, desta vez evitando
dizer que tivera sua primeira experincia poucas horas atrs. Todas - com exceo de duas -
sabiam do que se tratava, mas nenhuma delas havia ousado falar sobre o tema. Foi o
momento de Maria sentir-se revolucionria, lder do grupo, e inventando um absurdo "jogo
de confisses secretas", pediu a cada uma que contasse a maneira preferida de masturbarse.
Aprendeu vrias tcnicas diferentes, como ficar debaixo do cobertor em pleno vero
(porque, dizia uma delas, o suor ajudava), usar uma pena de ganso para tocar o local (ela
no sabia o nome do local), deixar que um rapaz fizesse aquilo (para Maria isso parecia
desnecessrio), usar o chuveiro do bid (no possua um em sua casa, mas assim que
visitasse uma das amigas ricas, iria experimentar).
De qualquer maneira, ao descobrir a masturbao, e depois de usar algumas das
tcnicas que tinham sido sugeridas pelas amigas, desistiu para sempre da vida religiosa.
Aquilo lhe dava muito prazer - e pelo que insinuavam na igreja, o sexo era o maior dos
pecados. Atravs das mesmas amigas, comeou a ouvir lendas a respeito: a masturbao
enchia o rosto de espinhas, podia levar  loucura, ou  gravidez. Correndo todos estes
riscos, continuou a se dar prazer pelo menos uma vez por semana, geralmente s quartasfeiras,
quando seu pai saa para jogar baralho com os amigos.
Ao mesmo tempo, ficava cada vez mais insegura na sua relao com os homens - e
com mais vontade de ir embora do lugar onde vivia. Apaixonou-se uma terceira, quarta vez,
j sabia beijar, tocava e deixava-se tocar quando estava sozinha com os namorados - mas
sempre algo acontecia de errado, e a relao terminava exatamente no momento em que
estava finalmente convencida de que aquela era a pessoa exata para ficar com ela o resto da
vida. Depois de muito tempo, terminou concluindo que os homens apenas traziam dor,
frustrao, sofrimento, e a sensao de que os dias se arrastavam. Certa tarde, quando
estava no parque olhando uma me brincar com o filho de dois anos, decidiu que podia at
pensar em marido, filhos e casa com vista para o mar, mas jamais tornaria a se apaixonar
novamente - porque a paixo estragava tudo.
Do dirio de Maria, quando tinha 17 anos:
assim se passaram os anos da adolescncia de Maria. Foi ficando cada vez mais
bonita, por causa do seu ar misterioso e triste, e muitos homens se apresentaram. Saiu com
um, com outro, sonhou e sofreu - apesar da promessa que havia feito de jamais se apaixonar
de novo. Em um destes encontros, perdeu a virgindade no banco de trs de um carro; ela e
seu namorado estavam se tocando com mais ardor do que de costume, o rapaz se
entusiasmou, e ela - cansada de ser a ltima virgem do seu grupo de amigas - permitiu que ele a penetrasse. Ao contrrio da masturbao, que a levava ao cu, aquilo
apenas deixou-a
dolorida, com um fio de sangue que manchou a saia e custou a sair. No teve a sensao
mgica do primeiro beijo - as garas voando, o pr-do-sol, a msica... no, ela no queria
mais lembrar aquilo.
Fez amor com o mesmo rapaz algumas outras vezes, depois de amea- lo, dizendo
que seu pai era capaz de mat- lo se descobrisse que haviam violentado sua filha.
Transformou-o em um instrumento de aprendizado, procurando de todas as maneiras
entender onde estava o prazer do sexo com um parceiro.
No entendeu; a masturbao dava muito menos trabalho, e muito mais recompensas.
Mas todas as revistas, programas de TV, livros, amigas, tudo, ABSOLUTAMENTE TUDO
dizia que um homem era importante. Maria comeou a achar que devia ter algum problema
sexual inconfessvel, concentrou-se ainda mais nos estudos e esqueceu por uns tempos essa
coisa maravilhosa e assassina chamada Amor.
Meu objetivo  compreender o amor. Sei que estava viva quando amei; e sei que tudo
que tenho agora, por mais interessante que possa parecer, no me entusiasma.
Mas o amor  terrivel.- tenho vasto minhas amigas sofrer, e no quero que isso me
acontea. Elas, que antes riam de mim e da minha inocncia, agora me perguntam como 
que consigo dominar os homens to bem. Sorrio e fico calada, porque sei que o remdio 
pior do que a prpria dor: simplesmente no me apai- xono. A cada dia que passa, vejo com
mais claridade como os homens so frgeis, inconstantes, inseguros, surpreendentes...
alguns pais destas amigas j me fizeram algumas propostas, eu recusei. Antes, ficava
chocada, agora acho que  parte da natureza masculina.
Embora meu objetivo seja compreender o amor, e embora sofra por causa das pessoas
a quem entreguei meu corao, vejo que aqueles que me tocaram a alma no conseguiram
despertar meu corpo, e aqueles que tocaram meu corpo no conseguiram atingir minha
alma.
Comp letou dezenove anos, terminou o curso secundrio, encontrou um emprego em
uma loja de tecidos, e o chefe se apaixonou por ela - mas Maria quela altura sabia como
usar um homem, sem ser usada por ele. jamais deixou que a tocasse, embora sempre se
mostrasse insinuante, conhecendo o poder de sua beleza.
Poder da beleza: e como seria o mundo para as mulheres feias? Tinha algumas amigas
em quem ningum nas festas reparava, a quem ningum perguntava "como vai?". Por
incrvel que parea, essas meninas valorizavam muito mais o pouco amor que recebiam,
sofriam em silncio quando eram rejeitadas, e procuravam enfrentar o futuro buscando
outras coisas alm de enfeitar-se para algum. Eram mais independentes, mais dedicadas a
si mesmas, embora na imaginao de Maria o mundo devesse lhes parecer insuportvel.
Ela, porm, tinha conscincia da prpria beleza, e embora quase sempre esquecesse os
conselhos da me, pelo menos um deles no lhe saa da cabea: "Minha filha, a beleza no
dura." Por causa disso, continuou mantendo uma relao nem prxima nem distante com o
patro, o que significou um considervel aumento de salrio (no sabia at quando
conseguiria mant-lo apenas na esperana de um dia lev-la para a cama, mas enquanto isso
estava ganhando bem), alm de comisso por trabalhar horas extras (afinal de contas, o
homem gostava de t- la por perto, talvez temendo que, se sasse de noite, encontrasse um
grande amor). Trabalhou vinte e quatro meses sem parar, passou a dar uma mesada aos
pais, e finalmente conseguiu! Arranjou dinheiro suficiente para, nas frias, passar uma semana na cidade de seus sonhos, o lugar dos artistas, o carto-postal do
pas: Rio de
janeiro!
O chefe se ofereceu para acompanh- la e pagar todas as suas despesas, mas Maria
mentiu, dizendo que a nica condio que sua me lhe impusera fora dormir na casa de um
primo que lutava jiu-jtsu, j que ela estava indo para um dos lugares mais perigosos do
mundo.
- Alm do mais - continuou -, o senhor no pode deixar a loja assim, sem uma pessoa
de confiana tomando conta.
- No me chame de senhor - disse ele, e Maria reparou em seus olhos aquilo que j
conhecia: o fogo da paixo. Isso a surpreendeu, porque achava que aquele homem estava
apenas interessado em sexo; entretanto, seu olhar dizia exatamente o oposto : "Posso lhe dar
uma casa, uma famlia, e algum dinheiro para seus pais." Pensando no futuro, resolveu
alimentar a fogueira.
Disse que iria sentir muita falta daquele emprego que tanto amava, das pessoas com
quem adorava conviver (fez questo de no mencio nar ningum em particular, deixando no
ar o mistrio: ser que "as pessoas" se referia a ele?), e prometia tomar muito cuidado com
sua carteira e sua integridade. A verdade era outra: no queria que ningum, absolutamente
ningum, estragasse aquela que seria sua primeira semana de total liberdade. Gostaria de
fazer tudo - tomar banho de mar, conversar com estranhos, olhar vitrines de lojas, e estar
disponvel para que um prncipe encantado aparecesse e a raptasse para sempre.
- O que  uma semana, afinal? - disse com um sorriso sedutor, torcendo para que
estivesse errada. - Passa rpido, e em breve estarei de volta, cuidando de minhas
responsabilidades.
O chefe, desconsolado, lutou um pouco mas terminou aceitando, pois quela altura j
estava fazendo planos secretos de pedi-Ia em casamento assim que voltasse, e no queria
ser afoito demais e estragar tudo.
Maria viajou quarenta e oito horas de nibus, hospedou-se em um hotel de quinta
categoria em Copacabana (ah, Copacabana! Esta praia, este cu...), e antes mesmo de
desfazer as malas, agarrou um biquni que havia comprado, colocou-o, e mesmo com o
tempo nublado, foi para a praia. Olhou o mar, sentiu pavor, mas terminou entrando em suas
guas, morrendo de vergonha.
Ningum na praia notou que aquela menina estava tendo seu primeiro contato com o
oceano, a deusa Iemanj, as correntes martimas, a espuma das ondas, e a costa da frica
com seus lees, do outro lado do Atlntico. Quando saiu da gua, foi abordada por uma
mulher que vendia sanduches naturais, um belo negro que lhe perguntou se estava livre
para sair naquela noite, e um homem que no falava uma s palavra em portugus, mas que
fazia gestos e a convidava para tomar uma gua de coco.
Maria comprou o sanduche porque teve vergonha de dizer "no", mas evitou falar
com os outros dois estranhos. De um momento para o outro, ficou triste; afinal, agora que
tinha todas as possibilidades de fazer tudo o que queria, por que agia de maneira
absolutamente reprovvel? Na falta de uma boa explicao, sentou-se para esperar que o sol
surgisse por trs das nuvens, ainda surpresa com sua prpria coragem, e com a temperatura
da gua, to fria em pleno vero.
O homem que no falava portugus, entretanto, apareceu ao seu lado com um coco, e
lhe ofereceu. Contente de no ser obrigada a conversar com ele, ela bebeu a gua do coco,
sorriu, e ele sorriu de volta. Por algum tempo, ficaram naquela confortvel comunicao
que no quer dizer nada - sorriso para c, sorriso para l -, at que o homem tirou um pequeno dicionrio de capa vermelha do
bolso e disse, com um sotaque estranho: "bonita". Ela sorriu de novo; bem que gostaria de
encontrar o seu prncipe encantado, mas ele deveria falar sua lngua e ser um pouco mais
jovem.
O homem insistiu, folheando o livrinho:
-Jantar hoje?
E logo comentou:
- Sua!
Completando com palavras que soam como sinos do paraso, em qualquer lngua em
que sejam pronunciadas:
- Emprego! Dlar!
Maria no conhecia o restaurante Sua, mas ser que as coisas eram assim to fceis,
e os sonhos se realizavam to depressa? Melhor desconfiar: muito obrigada pelo convite,
estou ocupada, e tampouco estava interessada em comprar dlares.
O homem, que no entendeu uma s palavra de sua resposta, comeou a ficar
desesperado; depois de muitos sorrisos para c, sorrisos para l, deixou-a por alguns
minutos, voltando logo com um intrprete. Por intermdio dele, explicou que vinha da
Sua (no era um restaurante, era o pas), e que gostaria de jantar com ela, pois tinha uma
oferta de emprego. O intrprete, que se apresentara como assessor do estrangeiro e
segurana do hotel onde o homem estava hospedado, acrescentou por sua conta:
- Se fosse voc, aceitava. Este homem  um importante empresrio artstico, e veio
descobrir novos talentos para trabalhar na Europa. Se quiser, posso lhe apresentar outras
pessoas que aceitaram o convite, ficaram ricas, e hoje esto casadas e com filhos que no
precisam enfrentar assaltos ou problemas de desemprego.
E, completou, tentando impression- la com sua cultura internacional: relgios.
- Alm do mais, na Sua fazem excelentes chocolates e
A experincia artstica de Maria se resumia a representar uma vendedora de gua -
que entrava muda e saa calada - na pea sobre a Paixo de Cristo que a prefeitura sempre
encenava durante a Semana Santa. No tinha conseguido dormir direito no nibus, mas
estava excitada com o mar, cansada de comer sanduches naturais e antinaturais, e confusa
porque no conhecia ningum, e precisava encontrar logo um amigo. J passara por aquele
tipo de situao antes, quando um homem promete tudo e no cumpre nada - de modo que
sabia que esta histria de atriz era apenas uma maneira de tentar interess- la em algo que
fingia no querer.
Mas certa de que a Virgem lhe oferecera aquela chance, convencida de que tinha que
aproveitar cada segundo daquela sua semana de frias, e conhecer um bom restaurante
significava ter algo muito importante para contar quando voltasse  sua terra, resolveu
aceitar o convite - desde que o intrprete a acompanhasse, pois j estava ficando cansada de
sorrir e fingir que estava entendendo o que o estrangeiro dizia.
O nico problema era tambm o maior de todos: no tinha roupa adequada. Uma
mulher jamais confessa estas intimidades ( mais fcil aceitar que seu marido a traiu do que
confessar o estado do seu guarda-roupa), mas como no conhecia aqueles homens, e talvez
jamais tornasse a v-los, resolveu que no tinha nada a perder.
- Acabo de chegar do Nordeste, no tenho roupa para ir a um restaurante.
O homem, por intermdio do intrprete, pediu que no se preocupasse, e solicitou o
endereo do seu hotel. Naquela tarde, ela recebeu um vestido como jamais tinha visto em
toda a sua vida, acompanhado de um par de sapatos que devia ter custado tanto quanto o
que ela ganhava durante o ano. Sentiu que ali comeava o caminho pelo qual tanto ansiara durante a infncia e
adolescncia no serto brasileiro, convivendo com a seca, os rapazes sem futuro, a cidade
honesta mas pobre, a vida repetitiva e sem interesse: estava prestes a transformar-se na
princesa do universo! Um homem lhe oferecera emprego, dlar, um par de sapatos
carssimos e um vestido de conto de fadas! Faltava maquiagem, mas a balconista que
tomava conta do hotel, solidria, ajudou-a, no sem antes preveni-Ia de que nem todos os
estrangeiros so bons, e nem todos os cariocas so assaltantes.
Maria ignorou o aviso, vestiu-se com aquele presente dos cus, ficou horas diante do
espelho, arrependida de no ter trazido uma simples mquina fotogrfica para registrar o
momento, at que finalmente se deu conta de que j estava atrasada para o compromisso.
Saiu correndo, tal qual Cinderela, e foi at o hotel onde o suo se encontrava.
Para sua surpresa, o intrprete foi logo dizendo que no iria acompanh- los:
- No se preocupe com a lngua. O important e  ele sentirse bem ao seu lado.
- Mas como, se no vai entender o que eu estou dizendo?
- Justamente por isso. No precisam conversar,  uma questo de energia.
Maria no sabia o que significava uma "questo de energia". Na sua terra, as pessoas
precisavam trocar palavras, frases, perguntas, respostas, sempre que se encontravam. Mas
Malson assim se chamava o intrprete/segurana - garantiu que no Rio de janeiro, e no
resto do mundo, as coisas eram diferentes.
- No precisa entender, apenas procure faz-lo sentir-se bem. O homem  vivo, sem
filhos, dono de uma boate, e est procurando brasileiras que queiram apresentar-se no
exterior. Eu disse que voc no fazia o tipo, mas ele insistiu, dizendo que se apaixonara
assim que a vira sair da gua. Tambm achou o seu biquni lindo.
Fez uma pausa.
- Sinceramente, se quiser arranjar namorado aqui, precisa trocar o modelo de biquni;
afora este suo, acho que ningum mais no mundo ir gostar;  muito antiquado.
Maria fingiu que no ouvira. Mailson continuou.
- Acho que ele no deseja apenas uma aventura com voc; acha que tem talento
suficiente para transformar-se na principal atrao da boate. Claro que no a viu cantar,
nem danar, mas isso se pode aprender, enquanto a beleza  algo com que se nasce. Esses
europeus so mesmo assim: chegam por aqui, acham que todas as brasileiras so sensuais e
sabem sambar. Se ele for srio em suas intenes, aconselho que pea um contrato assinado
- e com firma reconhecida no consulado suo - antes de sair do pas. Amanh estarei na
praia, em frente ao hotel, procureme se tiver alguma dvida.
O suo, sorrindo, pegou-a pelo brao e mostrou o txi que os esperava.
- Se entretanto a inteno dele for outra, e a sua tambm, o
preo normal de uma noite  de trezentos dlares. No deixe
por menos. -
Antes que pudesse responder, j estava a caminho do restaurante, com o homem
ensaiando as palavras que desejava dizer. A conversa foi muito simples:
- Trabalhar? Dlar? Estrela brasileira?
Maria, entretanto, ainda pensava no comentrio do segurana/intrprete: trezentos
dlares por uma noite! Que fortuna!
No precisava sofrer por amor, podia seduzi- lo como fizera com o dono da loja de
tecidos, casar, ter filhos e dar uma vida confortvel aos pais. O que tinha a perder? Ele era
velho, talvez no demorasse muito a morrer, e ela ia ficar rica - afinal, parecia que os suos
tinham muito dinheiro e poucas mulheres em sua terra. Jantaram sem conversar muito - sorriso para c, sorriso para l, Maria entendendo aos
poucos o que era "energia" -, e o homem lhe mostrou um lbum com vrias coisas escritas
em uma lngua que no conhecia; fotos de mulheres de biquni (sem dvida, melhores e
mais ousados do que o que estava usando aquela tarde), recortes de jornais, folhetos
espalhafatosos em que tudo que entendia era a palavra "Brazil", escrita errado (afinal, na
escola no lhe ensinaram que se escrevia com "S"?). Bebeu muito, com medo de que o
suo lhe fizesse uma proposta (afinal, embora jamais tivesse feito isso na vida, ningum
pode desprezar trezentos dlares, e com um pouco de lcool as coisas ficam muito mais
simples, principalmente se ningum de sua cidade est por perto). Mas o homem
comportou-se como um cavalheiro, inclusive puxando a cadeira na hora em que ela se
sentou e levantou. No final, disse que estava cansada e marcou um encontro na praia no dia
seguinte (apontar o relgio, mostrar a hora, fazer com as mos o movimento das ondas do
mar, dizer "a-ma- nh" bem devagar).
Ele pareceu satisfeito, olhou tambm para o relgio (possivelmente suo) e
concordou com a hora.
No dormiu direito. Sonhou que tudo era um sonho. Acordou e viu que no era: havia
um vestido na cadeira do quarto modesto, um belo par de sapatos, e um encontro na praia.
Do dirio de Maria, no dia em que conheceu o suo:
Tudo me diz que estou prestes a tomar uma deciso errada, mas os erros so uma
maneira de agir. O que o mundo quer de mim? Que no corra meus riscos? Que volte de
onde vim, sem coragem de dizer "sim" para a vida?
J agi errado quando tinha onze anos, e um menino veio me pedir um lpis
emprestado; desde ento, entendi que s vezes no existe uma segunda oportunidade, 
melhor aceitar os presentes que o mundo oferece. Claro que  arriscado, mas ser que o
risco  maior do que um acidente no nibus que levou quarenta e oito horas para me trazer
at aqui? Se tenho que ser fiel a algum ou a alguma coisa, em primeiro lugar tenho que ser
fiel a mim mesma. Se busco o amor verdadeiro, antes preciso ficar cansada dos amores
medocres que encontrei. A pouca experincia de vida me ensinou que ningum  dono de
nada, tudo  uma iluso - e isso vai dos bens materiais aos bens espirituais. Quem j perdeu
alguma coisa que tinha como garantida (algo que j me aconteceu tantas vezes) termina por
aprender que nada lhe pertence.
E se nada me pertence, tampouco preciso gastar meu tempo cuidando das coisas que
no so minhas; melhor viver como se hoje fosse o primeiro (ou o ltimo) dia da minha
vida.
Xo dia seguinte, junto com Malson, o intrprete/segurana, agora se dizendo seu
empresrio, disse que aceitava o convite, desde que tivesse um documento fornecido pelo
consulado suo. O suo, que parecia acostumado a tal tipo de exigncia, afirmou que
aquilo tambm era desejo seu, j que, para trabalhar na sua terra, uma estrangeira deveria
provar que tinha uma ocupao que nenhuma nativa pudesse exercer. No seria difcil
conseguir isso, j que as suas no tinham grande aptido para o samba. Foram juntos at o
centro da cidade. O segurana/intrprete/empresrio exigiu um adiantamento em dinheiro
vivo assim que assinaram o contrato, e ficou com 30% dos quinhentos dlares recebidos.
- Isso  uma semana de adiantamento. Uma semana, voc entende? Ir ganhar
quinhentos dlares por semana, limpos, porque s recebo comisso no primeiro pagamento!
At aquele momento, as viagens, a idia de ir para longe, tudo parecia um sonho - e
sonhar  muito confortvel, desde que no sejamos obrigados a fazer aquilo que
planejamos. Assim, no passamos por riscos, frustraes, momentos difceis, e quando ficarmos velhos, poderemos sempre culpar os outros nossos pais, de preferncia,
ou nossos
maridos, ou nossos filhos - por no termos realizado aquilo que desejvamos.
De repente, ali estava a chance que Maria tanto esperava, mas que torcia para que no
chegasse nunca! Como enfrentar os desafios e perigos de uma vida que ela no conhecia?
Como abandonar tudo aquilo a que estava acostumada? Por que a Virgem decidira ir to
longe?
Maria consolou-se com o fato de que podia mudar de idia a qualquer momento, tudo
no passava de uma brincadeira irresponsvel - algo diferente para contar quando voltasse a
sua terra. Afinal de contas, morava a mais de mil quilmetros dali, tinha agora trezentos e
cinqenta dlares na carteira, e se amanh resolvesse fazer as malas e fugir, eles jamais
conseguiriam saber onde havia se escondido.
Na tarde em que foram ao consulado, ela resolveu passear sozinha pela beira do mar,
olhando as crianas, os jogadores de vlei, os mendigos, os bbados, os vendedores de
artesanato tpico brasileiro (fabricado na China), os que corriam e faziam exerccios para
afugentar a velhice, os turistas estrangeiros, as mes com seus filhos, os aposentados
jogando baralho no final da orla. Tinha vindo ao Rio de janeiro, conhecera um restaurante
de primeirssima classe, um consulado, um estrangeiro, arrumara um empresrio, ganhara
de presente um vestido e um par de sapatos que ningum -absolutamente ningum - em sua
terra poderia comprar.
E agora?
Olhou para o outro lado do mar: sua lio de geografia afirmava que, se seguisse em
linha reta, iria chegar  frica, com seus lees e suas selvas cheias de gorilas. Entretanto, se
andasse um pouco para o norte, terminaria colocando os ps no reino encantado chamado
Europa, onde existia a torre Eiffel, a Disneylndia europia, e a torre inclinada de Pisa. O
que tinha a perder? Como qualquer brasileira, aprendera a sambar antes mesmo de dizer
"mame"; poderia voltar se no gostasse, e j aprendera que as oportunidades so feitas
para serem aproveitadas.
Passara grande parte do seu tempo dizendo "no" a coisas a que gostaria de dizer
"sim", decidida a viver apenas as experincias que sabia controlar -como certas aventuras
com homens, por exemplo. Agora estava diante do desconhecido, to desconhecido como
este mar fora uma vez para os navegadores que o cruzaram, assim lhe haviam ensinado na
aula de histria. Podia dizer sempre "no", mas ser que iria passar o resto da vida
lamentando-se, como ainda fazia com a imagem do menino que uma vez lhe pedira um
lpis e desaparecera com seu primeiro amor? Sempre poderia dizer "no", mas por que
desta vez no ensaiar um "sim"?
Por uma razo muito simples: era uma moa do interior, sem qualquer experincia na
vida alm de um bom colgio, uma grande cultura de novelas de televiso, e a certeza de
que era bela. Isso no bastava para enfrentar o mundo.
Viu um grupo de pessoas rindo e olhando o mar, com medo de se aproximarem. Dois
dias antes, ela sentira a mesma coisa, mas agora no tinha medo, entrava na gua sempre
que desejava, como se tivesse nascido ali. Ser que no iria acontecer a mesma coisa na
Europa?
Fez uma prece silenciosa, pediu de novo os conselhos da Virgem Maria, e segundos
depois parecia  vontade com sua deciso de seguir adiante, porque se sentia protegida.
Sempre poderia voltar, mas nem sempre teria a chance de ir to longe. Valia a pena correr o
risco, desde que o sonho conseguisse resistir s quarenta e oito horas de volta no nibus
sem ar refrigerado, e desde que o suo no mudasse de idia. Estava to animada que, quando ele a convidou para jantar novamente, quis ensaiar
um ar sensual, e pegou a mo dele, mas o homem logo a retirou. Maria entendeu - com
certo medo, e com certo alvio - que ele realmente estava falando srio.
- Estrela samba! - dizia o homem. - Linda estrela samba brasileiro! Viagem semana
prxima!
Tudo era uma maravilha, mas "viagem semana prxima" estava absolutamente fora
de cogitao. Maria explicou que no podia tomar uma deciso sem consultar sua famlia.
O suo, furioso, mostrou uma cpia do documento assinado, e pela primeira vez ela sentiu
medo.
- Contrato! - dizia ele.
Mesmo decidida a viajar, resolveu consultar Malson, seu empresrio - afinal de
contas, ele estava sendo pago para assessor- la.
Malson, entretanto, parecia agora mais preocupado em seduzir uma turista alem que
acabara de chegar ao hotel e estava fazendo topless na areia, certa de que o Brasil  o pas
mais liberal do mundo (sem dar-se conta de que era a nica pessoa com os seios expostos e
que todos os demais a olhavam com um certo desconforto). Foi uma dificuldade conseguir
que prestasse ateno no que estava dizendo.
- E se eu mudar de idia? - insistia Maria.
- No sei o que est escrito no contrato, mas talvez ele mande prend- la.
- No ir me achar nunca!
- Tem razo. Portanto, no se preocupe.
O suo, porm, que j gastara quinhentos dlares, um par de sapatos, um vestido,
dois jantares e os custos de cartrio no consulado, estava comeando a ficar preocupado, de
modo que, como Maria insistia na necessidade de falar com sua famlia, resolveu comprar
duas passagens de avio e acompanh - la at o lugar onde nascera - desde que tudo se
resolvesse em quarenta e oito horas e pudessem viajar na semana seguinte, conforme o
combinado. Com sorrisos para c, sorrisos para l, ela comeava a entender que isso
constava do documento, e que no se deve brincar muito com a seduo, os sentimentos, e
os contratos.
Foi uma surpresa, e um orgulho para a pequena cidade, ver sua bela filha Maria
chegar acompanhada de um estrangeiro, que desejava convid- la para ser uma grande
estrela na Europa. Toda a vizinhana soube, e as amigas de colgio perguntavam: "Mas
como foi?"
"Eu tenho sorte."
Elas queriam saber se isso sempre acontecia no Rio de janeiro, porque tinham visto
novelas na televiso com episdios semelhantes. Maria no disse sim nem no, para
valorizar sua experincia e convencer suas amigas de que ela era uma pessoa especial.
Foram at sua casa, onde o homem mostrou de novo os folhetos, o Brazil (com Z), o
contrato, enquanto Maria explicava que agora tinha um empresrio e pretendia seguir uma
carreira artstica. A me, olhando o tamanho do biquni das moas nas fotos que o
estrangeiro lhe apresentava, devolveu-as imediatamente e no quis fazer perguntas - tudo
que lhe importava  que sua filha fosse feliz e rica, ou infeliz - mas rica.
- Como  o nome dele?
- Roger.
- Rogrio! Eu tinha um primo com esse nome!
O homem sorriu, bateu palmas, e todos se deram conta de que ele no tinha entendido
a pergunta. O pai comentou com Maria:
- Mas ele tem a minha idade. A me pediu que ele no interferisse na felicidade da filha. Como todas as costureiras
conversam muito com suas clientes, e terminam ganhando uma grande experincia em
matria de casamento e amor, ela aconselhou:
- Minha adorada, melhor ser infeliz com um homem rico, que ser feliz com um
homem pobre, e l longe voc tem muito mais chance de ser uma rica infeliz. Alm do
mais, se nada der certo, voc toma um nibus e volta para casa.
Maria, uma moa do interior, mas com uma inteligncia maior do que sua me ou seu
futuro marido imaginavam, insistiu apenas para provocar:
- Mame, no existe nibus da Europa para o Brasil. Alm do mais, quero ter uma
carreira artstica, no estou procurando casamento.
A me olhou para a filha com um ar quase desesperado:
- Se d para voc chegar l, tambm d para sair. As carreiras artsticas so muito
boas para moas jovens, mas s duram enquanto voc for bela, e isso termina mais ou
menos aos trinta anos. Portanto aproveite, encontre algum que seja honesto, apaixonado, e
por favor se case. No precisa pensar muito em amor, no incio eu no amava seu pai, mas
o dinheiro compra tudo, at amor verdadeiro. E olha que seu pai nem rico !
Era um pssimo conselho de amiga, mas um excelente conselho de me. Quarenta e
oito horas depois Maria estava de volta ao Rio, no sem antes ter passado - sozinha - pelo
seu antigo emprego, pedido demisso e escutado do dono da loja de tecidos:
- Soube que um grande empresrio francs resolveu lev - la para Paris. No posso
impedi- la de perseguir sua felicidade, mas quero que, antes de ir embora, saiba de uma
coisa.
Tirou do bolso um cordo com uma medalha.
- Trata-se da Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graas. Sua igreja fica em
Paris, de modo que v at l e pea proteo a ela. Veja o que est escrito aqui.
Maria viu que, em torno da Virgem, havia algumas palavras: "Oh, Maria, concebida
sem pecado, rogai por ns que recorremos a Vs. Amm."
- No deixe de dizer esta frase pelo menos uma vez por dia. E... - Ele hesitou, mas
agora era tarde. - ... se algum dia voc voltar, saiba que a estarei esperando. Perdi a
oportunidade de dizer uma coisa to simples: "eu te amo". Talvez seja tarde, mas gostaria
que soubesse disso.
"Perder a oportunidade", ela havia aprendido muito cedo o que isso significava. "Eu
te amo", porm, era uma frase que havia escutado muitas vezes ao longo de seus vinte e
dois anos, e parecia que j no tinha mais nenhum sentido - porque nunca resultara em algo
srio, profundo, que se traduzisse em uma relao duradoura. Maria agradeceu as palavras,
anotou-as em seu subconsciente (nunca se sabe o que a vida nos preparou, e  sempre bom
saber onde se encontra a sada de emergncia), deu um casto beijo no rosto do ex-patro e
partiu sem olhar para trs.
Voltaram para o Rio, e em apenas um dia ela conseguiu seu passaporte (o Brasil
realmente havia mudado, comentara Roger com algumas palavras em portugus e muitos
sinais, que Maria traduziu como "antigamente demorava muito"). Aos poucos, com a ajuda
de Malson, o intrprete/segurana/empresrio, as providncias restantes foram tomadas
(roupas, sapatos, maquiagem, tudo que uma mulher como ela podia sonhar). Roger a viu
danar em uma boate que visitaram na vspera da viagem para a Europa, e ficou
entusiasmado com sua escolha -realmente estava diante de uma grande estrela para o cabar
Cologny, a bela morena de olhos claros e cabelos negros como as asas da grana (um
pssaro brasileiro, com que os escritores da terra costumam comparar os cabelos negros). A
certido de trabalho do consulado suo ficou pronta, fizeram as malas, e no dia seguinte estavam viajando para a terra do chocolate, do relgio e do queijo, com
Maria secretamente
planejando fazer aquele homem apaixonar-se por ela - afinal de contas ele no era to
velho, nem feio, nem pobre. Que mais desejar?
Chegou exausta e, ainda no aeroporto, seu corao apertou de medo: descobriu que
estava completamente dependente do homem ao seu lado - no conhecia a terra, a lngua, o
frio. O comportamento de Roger ia mudando  medida que as horas se passavam; j no
tentava ser agradvel, e embora jamais tentasse beij-la ou tocar seus seios, seu olhar tinha
se tornado o mais distante possvel. Colocou-a em um pequeno hotel, apresentandoa a outra
brasileira, uma mulher jovem e triste chamada Vivian, que se encarregaria de prepar-la
para o trabalho.
Vivian a olhou de cima a baixo, sem a menor cerimnia ou o menor carinho por quem
est tendo sua primeira experincia no exterior. Em vez de perguntar como se sentia, foi
direto ao assunto.
- No tenha iluses. Ele vai ao Brasil sempre que alguma de suas danarinas se casa, e
pelo visto isso est acontecendo com muita freqncia. Ele sabe o que quer, e acredito que
voc tambm saiba, deve ter vindo em busca de uma das trs coisas: aventur a, dinheiro ou
marido.
Como  que ela podia imaginar? Ser que todo mundo buscava a mesma coisa? Ou
ser que Vivian podia ler os pensamentos alheios?
- Todas as meninas aqui buscam uma destas trs coisas continuou Vivian, e Maria
convenceu-se de que estava lendo seu pensamento. - Quanto  aventura, est muito frio
para qualquer coisa, e alm do mais o dinheiro no sobra para viagens. Quanto ao dinheiro,
voc ter que trabalhar quase um ano para pagar sua passagem de volta, alm dos descontos
da hospedagem e da comida.
- Mas...
- J sei: no foi isso o combinado. Na verdade, foi voc quem se esqueceu de
perguntar, como alis todo mundo esquece. Se tivesse mais cuidado, se lesse o contrato que
assinou, saberia exatamente onde se meteu, porque os suos no mentem, embora usem o
silncio para ajudar a si mesmos.
O cho fugia dos ps de Maria.
- Finalmente, quanto ao marido, cada menina que se casa significa um grande prejuzo
econmico para Roger, de modo que estamos proibidas de conversar com os clientes. Se
quiser alguma coisa neste sentido, ter que correr grandes riscos. Isso daqui no  um lugar
onde as pessoas se encontram, como na Rue de Berne.
Rue de Berne?
- Os homens vm aqui com suas mulheres, e os poucos turistas, assim que se do
conta do ambiente fa miliar, vo em busca de mulheres em outros lugares. Saiba danar; se
souber tambm cantar, seu salrio aumentar, e a inveja das outras tambm, de modo que
sugiro que no tente cantar.
"Sobretudo, no use o telefone. Vai gastar tudo que ainda tem por ganhar, e que ser
muito pouco."
- Mas ele me prometeu quinhentos dlares por semana!
- Voc ver.
Do dirio de Maria, em sua segunda semana na Sua:
Fui at a boate, encontrei um "diretor de danas" de um pas chamado Marrocos, e
tive que aprender cada passo daquilo que ele - que jamais pisou no Brasil -acredita ser
"samba". No tive nem tempo de descansar da longa viagem de avio; era sorrir e danar -
logo na primeira noite. Somos seis meninas, nenhuma delas est feliz, e nenhuma sabe o que est fazendo aqui. Os clientes bebem e batem palmas, jogam beijos e fazem
gestos
pornogrficos escondidos, mas no passa disso.
O salrio foi pago ontem, apenas um dcimo do que havamos combinado - o resto,
segundo o tal contrato, ser usado para pagar minha passagem e minha estada. Pelos
clculos de Vivian, isso deve demorar um ano - ou seja, durante este perodo no tenho para
onde fugir.
Mas ser que vale a pena fugir? Acabei de chegar, ainda no conheo nada. Qual o
problema de danar durante sete noites por semana? Antes eu fazia isso por prazer, agora
fao por dinheiro e fama; as pernas no reclamam, a nica coisa difcil  manter o sorriso
nos lbios.
Posso escolher entre ser uma vtima do mundo, ou uma aventureira em busca do seu
tesouro. Tudo  uma questo de como vou encarar minha vida.
Maria escolheu ser uma aventureira em busca do tesouro deixou de lado os seus
sentimentos, parou de chorar toda noite, esqueceu-se de quem era; descobriu que tinha
fora de vontade suficiente para fingir que tinha acabado de nascer, e portanto no
precisava sentir saudades de ningum. Os sentimentos podiam esperar, agora era preciso
ganhar dinheiro, conhecer o pas, e voltar vitoriosa para sua terra.
De resto, tudo a sua volta parecia o Brasil em geral, e sua cidade em particular: as
mulheres falavam portugus, queixavam-se dos homens, conversavam alto, reclamavam
dos horrios, chegavam atrasadas  boate, desafiavam o patro, achavamse as mais belas do
mundo e contavam histrias dos seus prncipes encantados - que geralmente estavam muito
longe, ou eram casados, ou no tinham dinheiro e viviam do trabalho delas. O ambiente, ao
contrrio do que tinha imaginado ao ver os folhetos de propaganda que Roger trazia
consigo, era exatamente como Vivian descrevera: familiar. As meninas no podiam aceitar
convites ou sair com fregueses, porque estavam registradas como "danarinas de samba"
nas respectivas carteiras de trabalho. Se fossem flagradas recebendo um papel com
telefone, ficavam quinze dias sem trabalhar. Maria, que esperava algo muito ma is
movimentado e emocionante, foi aos poucos deixando-se dominar pela tristeza e pelo tdio.
Nos primeiros quinze dias, ela pouco deixou a penso onde morava - principalmente
quando descobriu que ningum falava sua lngua, mesmo que ela pronunciasse DE-VAGAR
cada frase. Tambm ficou surpresa ao saber que, ao contrrio do que acontecia em
seu pas, a cidade onde estava agora tinha dois nomes diferentes - Genve para os que
viviam ali, e Genebra para as brasileiras.
Finalmente, durante as longas horas de tdio em seu pequeno quarto sem televiso,
ela concluiu:
a) nunca chegaria a encontrar o que estava procurando, se no soubesse dizer o que
pensava. Para isso, precisava aprender a lngua local;
b) como todas as suas companheiras estavam tambm procurando a mesma coisa, ela
precisava ser diferente. Para isso ainda no tinha uma soluo ou um mtodo.
Do dirio de Maria, quatro semanas depois de desembarcar em Genve/Genebra:
J estou aqui h uma eternidade, no falo a lngua, passo o dia escutando msica no
rdio, olhando o quarto, pensando no Brasil, torcendo para que chegue a hora de trabalhar e
- quando estou trabalhando - torcendo para que chegue a hora de voltar para a penso. Ou
seja, estou vivendo o futuro em vez do presente.
Um dia, num futuro remoto, terei minha passagem, poderei voltar para o Brasil, casarme
com o dono da loja de tecidos, escutar os comentrios maldosos das amigas que nunca
arriscaram e por isso s conseguem enxergar a derrota dos outros. No, no posso voltar
assim; prefiro atirar-me do avio quando ele estiver cruzando o oceano. Como as janelas do avio no abrem (alis, isso foi algo que nunca esperava; que
pena no poder sentir o ar puro!), morro aqui mesmo. Mas antes de morrer, quero lutar pela
vida. Se eu puder andar sozinha, vou at onde quero.
No dia seguinte matriculou-se imediatamente em um curso matutino de francs, onde
conheceu gente de todos os credos, crenas e idades, homens com roupas coloridas e muitas
correntes de ouro nos braos, mulheres sempre com um vu na cabea, crianas que
aprendiam mais rpido que os adultos - quando justamente devia ser o contrrio, pois os
adultos tm mais experincia. Ficava orgulhosa ao saber que todos conheciam seu pas, o
carnaval, o samba, o futebol, e a pessoa mais famosa do mundo, chamada Pel. No incio
ela quis ser simptica e procurou corrigir a pronncia ( Pel! Pel! ! !), mas depois de
algum tempo desistiu, j que tambm a chamavam de Mari, essa mania que os estrangeiros
tm de mudar todos os nomes e ainda achar que esto certos.
Durante a tarde, para praticar o idioma, ensaiou seus primeiros passos por aquela
cidade de dois nomes, descobriu um chocolate delicioso, um queijo que jamais havia
comido, um gigantesco chafariz no meio do lago, a neve que os ps de nenhum dos
habitantes de sua cidade tinham tocado, as cegonhas, os restaurantes com lareira (embora
jamais tenha entrado em algum, via o fogo l dentro, e aquilo lhe dava uma agradvel
sensao de bem-estar). Tambm ficou surpresa ao descobrir que nem todos os letreiros
tinham propaganda de relgios, havia tambm bancos - embora no conseguisse entender
por que existiam tantos bancos para to poucos habitantes, e pudesse reparar que raramente
via algum no interior das agncias, mas resolveu no perguntar nada.
Depois de trs meses de autocontrole no trabalho, seu sangue brasileiro - sensual e
sexual como todos no mundo pensavam - falou mais alto; ela se apaixonou por um rabe
que estudava francs no mesmo curso. O caso durou trs semanas at que, uma noite, ela
resolveu deixar tudo de lado e visitar uma montanha perto de Genve. Quando chegou ao
trabalho na tarde seguinte, Roger mandou que fosse ao seu escritrio.
Assim que abriu a porta, foi sumariamente demitida, por dar mau exemplo s outras
meninas que ali trabalhavam. Roger, histrico, disse que mais uma vez se decepcionava,
que as mulheres brasileiras no eram confiveis (ah, meu Deus, esta mania de generalizar
tudo). De nada adiantou afirmar que tudo no passara de uma febre muito alta por causa da
diferena de temperatura, o homem no se convenceu, e ainda reclamou que precisava
voltar de novo ao Brasil para arranjar uma substituta, e que melhor teria sido fazer um show
com msica e bailarinas iugoslavas, que eram muito mais bonitas e mais responsveis.
Maria, embora ainda jovem, no tinha nada de boba - principalmente depois que seu
amante rabe lhe disse que na Sua as leis trabalhistas so muito severas, e ela podia alegar
que estava sendo usada para trabalho escravo, j que a boate ficava com grande parte do
seu salrio.
Voltou ao escritrio de Roger, desta vez falando um francs razovel, que inclua em
seu vocabulrio a palavra "advogado". Saiu dali com alguns xingamentos, e cinco mil
dlares de indenizao - um dinheiro com que jamais havia sonhado, tudo por caus a
daquela palavra mgica, "advogado". Agora podia namorar livremente o rabe, comprar
alguns presentes, tirar umas fotos na neve, e voltar para casa com a vitria to sonhada.
A primeira coisa que fez foi telefonar para uma vizinha da me e dizer que estava
feliz, tinha uma linda carreira pela frente e ningum em sua casa precisava ficar
preocupado. Em seguida, como tinha um prazo para deixar o quarto de penso que Roger
lhe havia alugado, faltava apenas ir at o rabe; fazer juras de amor eterno, converter-se  sua religio, casar-se com ele - mesmo sendo obrigada a usar um daqueles
lenos estranhos
na cabea; afinal de contas, todos ali sabiam que os rabes eram muito ricos, e isso bastava.
Mas o rabe, quela altura, j estava longe - possivelmente na Arbia, um pas que
Maria no conhecia - e no fundo ela deu graas  Virgem Maria, porque no fora obrigada a
trair sua religio. Agora, j falando francs o suficiente, com dinheiro para a passagem de
volta, carteira de trabalho que a classificava como "danarina de samba", um visto de
permanncia que ainda tinha validade, e sabendo que em ltimo caso podia casar-se com
um comerciante de tecidos, Maria resolveu fazer o que sabia que era capaz: ganhar dinheiro
com sua beleza.
Ainda no Brasil, lera um livro sobre um pastor que, na busca de seu tesouro, encontrase
com vrias dificuldades, e estas dificuldades o ajudam a conseguir o que deseja; era
exatamente esse o seu caso. Tinha agora plena conscincia de que fora despedida para
encontrar-se com o seu verdadeiro destino - modelo e manequim.
Alugou um pequeno quarto (que no tinha televiso, pois era preciso economizar o
mximo, at que conseguisse realmente ganhar muito dinheiro), e no dia seguinte comeou
a visitar agncias. Em todas soube que precisava deixar fotos profissionais, mas, afinal de
contas, era um investimento em sua carreira -todo sonho custa caro. Gastou uma
considervel parte do dinheiro com um excelente fotgrafo, que conversava pouco e exigia
muito: tinha um gigantesco guarda-roupa no seu estdio,
e ela posou com vestidos sbrios, extravagantes, e at mesmo com um biquni do qual
seu nico conhecido no Rio de janeiro, intrprete/segurana e ex-empresrio Malson, iria
morrer de orgulho. Pediu uma srie de cpias extras, escreveu uma carta dizendo como
estava feliz na Sua, e enviou-a para a sua famlia. Iam achar que estava rica, com um
guarda-roupa invejvel, e que se havia transformado na filha mais ilustre de sua pequena
cidade. Se tudo desse certo como pensava (j havia lido muitos livros de "pensamento
positivo" e no tinha a menor dvida de sua vitria), seria recebida com banda de msica na
volta, e daria um jeito de convencer o prefeito a inaugurar uma praa com o seu nome.
Comprou um telefone mvel, daqueles que utilizam carto pr-pago (j que no tinha
domiclio fixo) e, nos dias que se seguiram, ficou aguardando as chamadas para o trabalho.
Comia em restaurantes chineses (os mais baratos) e, para passar o tempo, estudava como
uma louca.
Mas o tempo custava a passar, e o telefone no tocava. Para sua surpresa, ningum
mexia com ela quando passeava  beira do lago, exceto alguns traficantes de drogas que
ficavam sempre no mesmo lugar, debaixo de uma das pontes que uniam o belo jardim
antigo  parte mais nova da cidade. Comeou a duvidar de sua beleza, at que uma das excompanheiras
de trabalho, com quem se encontrara por acaso em um caf, disse que a culpa
no era dela, mas dos suos, que no gostam de incomodar ningum, e dos estrangeiros,
que tm medo de serem presos por "assdio sexual" - algo que tinham inventado para fazer
as mulheres de todo o mundo se sentirem pssimas.
Do dirio de Maria, numa noite em que no tinha coragem de sair, de viver, de
continuar esperando pelo telefonema que no vinha:
Hoje passei diante de um parque de diverses. Como no posso ficar gastando
dinheiro  toa, achei melhor observar as pessoas. Fiquei muito tempo parada diante da
montanha-russa: via que a maioria das pessoas entrava ali em busca de emoo, mas
quando comeavam a andar, morriam de medo e pediam para que parassem os carros. O que elas querem? Se escolheram a aventura, no deviam estar preparadas para ir
at
o final? Ou acham que seria mais inteligente no passar por estes sobe-e-desce, e ficar o
tempo todo em um carrossel, girando no mesmo lugar?
No momento estou sozinha demais para pensarem amor, mas preciso me convencer
de que isso vai passar, conseguirei meu emprego, e estou aqui porque escolhi este destino.
A montanha-russa  a minha vida, a vida  um jogo forte e alucinante, a vida  lanar-se de
praquedas,  arriscar-se, cair e voltar a levantar-se,  alpinismo,  querer subir ao topo de
si mesmo, e ficar insatisfeita e angustiada quando no se consegue.
No  fcil estar longe da minha famlia, da lngua na qual posso expressar todas as
minhas emoes e sentimentos, mas a partir de hoje, quando ficar deprimida, vou me
lembrar daquele parque de diverses. Se eu tivesse dormido e acordado de repente em uma
montanha-russa, o que iria sentir?
Bem, a primeira sensao  a de estar prisioneira,
ficar apavorada com as curvas, querer vomitar e sair dali. Entretanto, se confiar que os
trilhos so o meu destino, que Deus est governando a mquina, este pesadelo se
transforma em excitao. Ela passa a ser exatamente o que , uma montanha -russa, um
brinquedo seguro e confivel, que vai chegar ao final, mas que, enquanto a viagem dura,
me obriga a olhar a paisagem ao redor, gritar de excitao.
Mesmo sendo capaz de escrever coisas que julgava muito sbias, ela no conseguia
seguir seus prprios conselhos; os momentos de depresso tornaram-se cada vez mais
freqentes, e o telefone continuava sem tocar. Maria, para distrair-se e exercitar o idioma
francs nas horas vagas, comeou a comprar revistas de artistas famosos, mas logo
descobriu que gastava muito dinheiro com isso e foi procurar a biblioteca mais prxima. A
senhora encarregada de emprestar livros disse que ali no alugavam revistas, mas podia lhe
sugerir alguns ttulos que a ajudariam a dominar o francs cada vez mais.
- No tenho tempo para ler livros.
- Como no tem tempo? O que est fazendo?
- Muitas coisas: estudando francs, escrevendo um dirio e... - E o qu?
Ia dizendo, "esperando que o telefone toque", mas achou melhor ficar calada.
- Minha filha, voc  jovem, tem a vida pela frente. Leia. Esquea o que lhe disseram
sobre livros, e leia.
- J li muito.
De repente, Maria lembrou-se daquilo que o segurana Malson descrevera certa vez
como "energia". A bibliotecria  sua frente parecia algum sensvel, doce, algum que
poderia ajud-la se tudo o mais falhasse. Precisava conquist- la, sua intuio dizia que ali
podia estar uma possvel amiga. Rapidamente mudou de opinio:
- Mas quero ler mais. Por favor me ajude a escolher os livros.
A mulher trouxe O pequeno prncipe. Naquela noite ela comeou a folhe-lo, viu os
desenhos do incio, onde aparecia um chapu - mas o autor dizia que na verdade, para as
crianas, aquilo era uma cobra com um elefante dentro. "Acho que nunca fui criana",
pensou consigo mesma. "Para mim, isso parece mais um chapu." Na ausncia da televiso,
ela comeou a acompanhar o principezinho em suas viagens, embora ficasse triste sempre
que o tema "amor" aparecia - havia proibido a si mesma de pensar no assunto, pois se
arriscava ao suicdio. Afora as dolorosas cenas romnticas entre um prncipe, uma raposa e
uma rosa, o livra era muito interessante, e ela no ficou a cada cinco minutos verificando se
a bateria do celular estava carregada (morria de medo de que sua chance maior passasse por
causa de um descuido). Maria passou a freqentar a biblioteca, conversar com a mulher que parecia to
sozinha como ela, pedir sugestes, comentar sobre a vida e os autores - at que seu dinheiro
chegou quase ao fim; mais duas semanas e j no teria nem o suficiente para comprar a
passagem de volta.
E como a vida sempre espera situaes crticas para ento mostrar o seu lado
brilhante, finalmente o telefone tocou.
Trs meses depois de ter descoberto a palavra "advogado", e dois meses depois de
estar vivendo da indenizao recebida, uma agncia de modelos perguntou se a Sra. Maria
ainda se encontrava naquele nmero. A resposta foi um "sim" frio, ensaiado durante muito
tempo, para no demonstrar nenhuma ansiedade. Soube ento que um rabe, profissional da
moda em seu pas, gostara muito de suas fotos, e queria convid-la a participar de um
desfile. Maria lembrou-se da decepo recente, mas tambm do dinheiro de que precisava
desesperadamente.
Marcaram o encontro em um restaurante muito chique. Encontrou um senhor
elegante, mais encantador e maduro que sua experincia anterior, que lhe perguntou:
- Sabe de quem  aquele quadro ali? De Joan Mir. Sabe quem  Joan Mir?
Maria ficava calada, como se estivesse concentrada na comida, bastante diferente dos
restaurantes chineses. Por outro lado, fazia anotaes mentais: devia pedir um livro sobre
Mir em sua prxima visita  biblioteca.
Mas o rabe insistia:
- Aquela mesa ali era a preferida de Federico Fellini. O que voc acha dos filmes de
Fellini?
Ela respondeu que adorava. O rabe quis entrarem detalhes e Maria, percebendo que
sua cultura no passaria pelo teste, resolveu ir direto ao assunto:
- No vou ficar aqui representando para o senhor. Tudo que eu sei  a diferena entre
uma Coca-cola e uma Pepsi. O senhor no deseja conversar sobre um desfile de modas?
A franqueza da moa pareceu impression-lo bem.
- Faremos isso quando formos tomar um drink, depois do jantar.
Houve uma pausa, enquanto os dois se olhavam e imaginavam o que o outro estava
pensando.
- Voc  muito bonita - insistiu o rabe. - Se resolver tomar um drink comigo em meu
hotel, lhe dou mil francos.
Maria imediatamente entendeu. Era culpa da agncia de modelos? Era culpa sua, que
devia ter perguntado melhor a respeito do jantar? No era culpa da agncia, nem dela, nem
do rabe: era assim mesmo que as coisas funcionavam. De repente, sentiu que precisava do
serto, do Brasil, do colo de sua me.
Lembrou-se do aviso de Malson, na praia, quando ele falara em trezentos dlares;
naquela poca julgara engraado, acima do que esperava receber por uma noite com um
homem. Entretanto, naquele momento, deu-se conta de que no tinha mais ningum,
absolutamente ningum no mundo com quem pudesse conversar; estava sozinha, em uma
cidade estranha, com vinte e dois anos relativamente bem vividos, mas inteis para ajud-la
a resolver qual seria a melhor resposta.
- Sirva- me mais vinho, por favor.
O rabe colocou mais vinho em seu copo, enquanto o pensamento viajava mais rpido
que o Pequeno Prncipe em seu passeio por diversos planetas. Viera em busca de aventura,
dinheiro, e talvez um marido, sabia que ia terminar recebendo propostas como essa, porque
no era inocente e j se acostumara com o comportamento dos homens. Mas ainda
acreditava em agncias de modelos, estrelato, um marido rico, famlia, filhos, netos, roupas, retorno vitorioso  cidade onde nascera. Sonhava em superar todas as
dificuldades apenas
com a sua inteligncia, seu charme, sua fora de vontade.
A realidade acabara de desabar em sua cabea. Para surpresa do rabe, ela comeou a
chorar. O homem, dividido entre o medo do escndalo e o instinto masculino de proteger a
moa, no sabia o que fazer. Fez sinal para o garom para pedir logo a conta, mas Maria o
interrompeu:
- No faa isso. Sirva- me mais vinho, e deixe- me chorar um pouco.
E Maria pensou no menino que lhe pedira um lpis, no rapaz que a beijara de boca
fechada, na alegria de conhecer o Rio de janeiro, nos homens que a tinham usado sem dar
nada em troca, nas paixes e nos amores perdidos ao longo de toda a sua caminhada. Sua
vida, apesar da aparente liberdade, era um sem- fim de horas esperando um milagre, um
amor verdadeiro, uma aventura com o mesmo final romntico que sempre vira nos filmes e
lera nos livros. Um autor escrevera que o tempo no transforma o homem, a sabedoria no
transforma o homem - a nica coisa que pode fazer algum mudar de idia  o amor. Que
tolice! Quem escreveu aquilo conhecia apenas um lado da moeda.
Realmente, o amor era a primeira coisa capaz de mudar totalmente a vida de uma
pessoa de um momento para o outro. Mas existia o outro lado da moeda, aquilo que fazia o
ser humano tomar um curso totalmente distinto do que havia planejado: chamava-se
desespero. Sim, talvez o amor fosse capaz de transformar algum; o desespero, no entanto,
transforma mais rpido. E agora, Maria? Devia sair correndo, voltar para o Brasil,
transformar-se em professora de francs, casar como dono da casa de tecidos? Devia ir um
pouco mais adiante, uma s noite, em uma cidade em que no conhecia ningum e ningum
a conhecia? Ser que uma s noite, e o dinheiro to fcil, a fariam continuar seguindo
adiante, at um ponto do caminho de onde no poderia mais voltar? O que estava
acontecendo naquele minuto: uma grande oportunidade, ou um teste da Virgem Maria?
Os olhos do rabe passeavam pelo quadro de Joan Mir, pelo lugar onde Fellini
comia, pela moa que guardava os casacos, pelos clientes que entravam e os que saam.
- Voc no sabia?
- Mais vinho, por favor - foi a resposta de Maria, ainda entre lgrimas.
Rezava para que o garom no se aproximasse e descobrisse o que estava
acontecendo - e o garom, que assistia a tudo a distncia com o rabo do olho, rezava para
que o homem com a garota pagasse logo a conta, porque o restaurante estava repleto e
havia gente esperando.
Finalmente, depois do que parecia ser uma eternidade, ela falou:
- Voc disse um drink por mil francos?
A prpria Maria estranhou o tom de sua voz.
- Sim - respondeu o rabe, j arrependido de ter feito a proposta. - Mas eu no quero
de maneira nenhuma...
- Pague a conta. Vamos tomar este drink no seu hotel.
De novo, parecia uma estranha para si mesma. At ento fora uma moa gentil,
educada, alegre, e jamais teria usado este tom de voz com um estranho. Mas parecia que
aquela moa havia morrido para sempre: diante dela estava uma outra existncia, onde os
drinks custavam mil francos, ou, em uma moeda mais universal, em torno de seiscentos
dlares.
E tudo ocorreu exatamente conforme o esperado: foi para o hotel com o rabe, bebeu
champanha, embriagou-se quase que completamente, abr iu as pernas, esperou que ele
tivesse um orgasmo (no lhe ocorreu fingir que tambm quisesse um), lavou-se no banheiro
de mrmore, pegou o dinheiro, e deu-se ao luxo de pagar um txi at em casa. Atirou-se na cama e dormiu uma noite sem sonhos.
Do dirio de Maria, no dia seguinte:
Lembro-me de tudo, menos do momento em que tomei a deciso. Curiosamente, no
tenho nenhum sentimento de culpa. Antes costumava ver as meninas que iam para a cama
por dinheiro como gente a quem a vida no tinha deixado nenhuma escolha - e agora vejo
que no  assim. Eu podia dizer "sim"; ou "no", ningum estava me forando a aceitar
nada.
Ando pelas ruas, olho as pessoas, ser que elas escolheram suas prprias vidas? Ou
ser que elas tambm, como eu, foram "escolhidas" pelo destino? A dona de casa que
sonhava em ser modelo, o executivo de banco que pensou em ser msico, o dentista que
tinha um livro escondido e gostaria de dedicar-se  literatura, a menina que adoraria
trabalhar na televiso, mas tudo que encontrou foi um emprego de caixa de supermercado.
No tenho a menor pena de mim mesma. Continuo no sendo uma vtima, porque
podia ter sado do restaurante com a minha dignidade intacta e a minha carteira vazia. Podia
ter dado lies de moral quele homem  minha frente, ou tentado faz- lo ver que diante de
seus olhos estava uma princesa, era melhor conquist-la que compr-la. Podia ter tomado
um sem-nmero de atitudes, entretanto - como a maioria dos seres humanos deixei que o
destino escolhesse que rumo tomar.
No sou a nica, embora o meu destino parea mais ilegal e marginal que o dos
outros. Mas, na busca da felicidade, estamos todos empatados: o executivo/ msico, o
dentista/escritor, a caixa/atriz, a dona de casa/modelo, nenhum de ns  feliz.
Ento  isso? Era fcil assim? Estava em uma cidade estranha, no conhecia ningum,
o que ontem era um suplcio hoje lhe dava uma imensa sensao de liberdade, no
precisava dar explicaes a ningum.
Resolveu que, pela primeira vez em muitos anos, ia dedicar o dia inteiro a pensar em
si mesma. At ento vivera sempre preocupada com os outros: a me, os colegas de escola,
o pai, os funcionrios da agncia de modelos, o professor de francs, o garom, a
bibliotecria, o que as pessoas na rua - que nunca tinha visto antes - estavam pensando. Na
verdade, ningum estava pensando em nada, muito menos nela, uma pobre estrangeira que,
se desaparecesse amanh, nem mesmo a polcia daria pela falta.
Bastava. Saiu cedo, tomou o caf da manh no lugar de sempre, caminhou um pouco
em torno do lago, viu uma manifestao de exilados. Urra mulher, com um pequeno
cachorro, comentou que eram curdos, e, mais uma vez, em vez de fingir que sabia a
resposta para mostrar que era mais culta e inteligente do que pensavam, ela perguntou:
- De onde vm os curdos?
A mulher, para sua surpresa, no soube responder.  assim o mundo: falam como se
conhecessem tudo, e se voc ousa perguntar, no sabem nada. Entrou em um cybercaf e
descobriu na internet que as curdos vinham do Curdisto, um pas inexistente, hoje dividido
entre a Turquia e o Iraque. Voltou para o lugar onde estava, tentando encontrar a mulher
com o cachorro, mas ela j havia partido, talvez porque o animal no tivera agentado ficar
meia hora vendo um bando de seres humanos com faixas, lenos, msicas, e gritos
estranhos.
"Isso sou eu. Ou melhor, isso era eu: uma pessoa que fingia saber tudo, escondida em
meu silncio, at que aquele rabe me irritou tanto que tive coragem de dizer que s sabia a
diferena entre refrigerantes. Ele ficou chocado? Mudou de id ia a meu respeito? Nada! Deve ter achado fantstica a minha espontaneidade. Sempre sa perdendo quando
quis
parecer mais esperta do que sou: chega!"
Lembrou-se da agncia de modelos. Ser que sabiam o que queria o rabe - e neste
caso mais uma vez Maria tinha bancado a ingnua - ou tinham realmente pensado que ele
era capaz de arranjar um trabalho em seu pas?
Fosse o que fosse, Maria se sentia menos s naquela manh cinzenta de Genve, com
a temperatura quase chegando prximo a zero, os curdos se manifestando, os bondes
chegando no horrio em cada parada, as lojas recolocando jias nas vitrines, os bancos
abrindo, os mendigos dormindo, os suos indo para o trabalho. Estava menos s porque ao
seu lado havia uma outra mulher, talvez invisvel para os que passavam. Jamais tinha
notado sua presena, mas ela estava ali.
Sorriu para a mulher invisvel ao seu lado, que se parecia com a Virgem Maria, a me
de Jesus. A mulher sorriu de volta, disse que tomasse cuidado, pois as coisas no eram to
simples como estava pensando. Maria no deu importncia ao conselho, respondeu que era
uma pessoa adulta, responsvel por suas decises, e no podia acreditar que havia uma
conspirao csmica contra ela. Aprendera que existe gente disposta a pagar mil francos
suos por uma noite, por meia hora entre suas pernas, e tudo que precisaria decidir, nos
prximos dias, era se pegava os mil francos suos que agora tinha em casa, comprava uma
passagem de avio e voltava para a cidade onde nascera. Ou se ficava mais um pouco, o
suficiente para comprar uma casa para os pais, belos vestidos e passagens para lugares que
sonhara visitar um dia.
A mulher invisvel ao seu lado tornou a insistir que as coisas no eram to simples
assim. Maria, embora contente com a companhia inesperada, pediu que no interrompesse
seus pensamentos, a vida era mesmo mais complexa do que pensava.
Voltou a analisar, desta vez com mais cuidado, a possibilidade de retornar ao Brasil.
Suas amigas de colgio, que nunca tinham sado de l, iriam logo comentar que fora
mandada embora do emprego, que jamais tivera talento para ser uma estrela internacional.
Sua me ficaria triste porque nunca tinha recebido a mesada prometida - embora Maria, em
suas cartas, afirmasse que o correio estava roubando o dinheiro. Seu pai a olharia o resto da
vida com aquela expresso de "eu sabia", ela voltaria a trabalhar na loja de tecidos, se
casaria com o dono, depois de ter viajado de avio, comido queijo suo na Sua,
aprendido francs e pisado na neve.
Por outro lado, existiam os drinks de mil francos suos. Talvez no durasse muito
tempo - afinal, a beleza muda rpido como o vento -, e em um ano tivesse dinheiro para
recuperar tudo e voltar ao mundo, desta vez ditando ela mesma as regras do jogo. Seu nico
problema concreto era que no sabia o que fazer, como comear. Em seus tempos na boate
familiar, uma mea mencionara um lugar chamado Rue de Berne - alis, fora um dos seus
primeiros comentrios, antes mesmo de mostrar onde devia deixar as malas.
Foi at um dos grandes painis em que se encontravam vrios lugares de Genve,
aquela cidade to gentil com os turistas, que no gostava de v-los perdidos - e, para evitar
isso, esses painis tinham anncios de um lado e mapas do outro.
Um homem estava ali, e ela perguntou se ele sabia onde ficava a Rue de Berne. Ele a
olhou intrigado, e perguntou se era exatamente isso que estava procurando, ou se queria
saber onde ficava a estrada que ia at Berne, a capital da Sua.
- No - respondeu Maria -, quero a tal rua que fica aqui mesmo.
O homem olhou-a de alto a baixo e afastou-se sem dizer uma palavra, certo de que
estava sendo filmado para um daqueles programas de TV, em que a grande alegria do pblico  ver como todos podem parecer ridculos. Maria ficou quinze minutos ali
parada -
afinal a cidade era pequena - e terminou encontrando o local.
Sua amiga invisvel, que tinha ficado calada enquanto ela se concentrava no mapa,
agora tentava argumentar; no era uma questo de moral, mas de entrar em um caminho
sem volta.
Maria respondeu que, se fosse capaz de ter dinheiro para voltar da Sua, seria capaz
de sair de qualquer situao. Alm do mais, nenhuma daquelas pessoas com as quais
cruzava no seu passeio tinha escolhido o que desejava fazer. Essa era a realidade da vida.
"Estamos em um vale de lgrimas", disse  amiga invisvel. "Podemos ter muitos
sonhos, mas a vida  dura, implacvel, triste. O que voc quer me dizer? Que iro me
condenar? Ningum saber, e isso ser apenas um perodo de minha vida."
Com um sorriso doce, mas triste, a amiga invisvel desapa
receu.
Foi at o parque de diverses, comprou uma entrada para a montanha-russa, gritou
como todos os outros, mas entendendo que no havia perigo, era apenas um brinquedo.
Comeu em um restaurante japons, mesmo sem entender direito o que comia sabia apenas
que era muito caro -, e agora estava disposta a se dar todos os luxos. Estava alegre, no
precisava esperar por um telefonema, ou contar os centavos que gastava.
No final do dia, ligou para a agncia, disse que o encontro fora muito bom, e que
estava agradecida. Se fossem srios, per
guntariam sobre as fotos. Se fossem agenciadores de mulheres, arranjariam novos
encontros.
Atravessou a ponte, voltou para o pequeno quarto, resolveu que no compraria de
jeito nenhum uma televiso, mesmo tendo dinheiro e muitos planos pela frente: precisava
pensar, usar todo o seu tempo para pensar.
Do dirio de Maria naquela noite (com uma anotao na margem dizendo: "no estou
muito convencida"):
Descobri por que um homem paga por uma mulher: ele quer ser feliz.
No vai pagar mil francos apenas para ter um orgasmo. Ele quer ser feliz. Eu tambm
quero, todo mundo quer, e ningum consegue. O que tenho a perder se resolver me
transformar por algum tempo em uma... a palavra  difcil de pensar e escrever... mas
vamos l... o que posso perder se resolver ser uma prostituta por algum tempo?
A honra. A dignidade. O respeito por mim. Pensando bem, nunca tive nenhuma destas
trs coisas. No pedi para nascer, no consegui algum que me amasse, sempre tomei as
decises erradas. Agora estou deixando que a vida decida por mim.
A agncia telefonou no dia seguinte, perguntou sobre as fotos e para quando seria o
desfile, j que ganhavam uma comisso sobre cada trabalho. Maria disse que o rabe devia
entrarem contato com eles, imediatamente deduzindo que no sabiam de nada.
Foi at a biblioteca e pediu livros sobre sexo. Se estava considerando seriamente a
possibilidade de trabalhar - por um ano apenas, ela havia prometido a si mesma - em algo
sobre o qual no conhecia nada, a primeira coisa que precisava aprender era como agir,
como dar prazer, e como receber dinheiro em troca.
Para sua decepo, a bibliotecria disse que tinham apenas uns poucos tratados
tcnicos, j que o lugar era uma instituio do governo. Maria leu o ndice de um dos
tratados tcnicos, e logo devolveu: no entendiam nada da felicidade, falavam apenas de
ereo, penetrao, impotncia, precaues, coisas sem o menor sabor. Por um dado
momento, chegou a considerar seriamente a possibilidade de levar "Consideraes psicolgicas sobre a frigidez da mulher", j que, no seu caso, s conseguia ter orgasmos
atravs da masturbao, embora fosse muito agradvel ser possuda e penetrada por um
homem.
Mas no estava ali em busca de prazer, e sim de trabalho. Agradeceu  bibliotecria,
passou em uma loja e fez seu primeiro investimento na possvel carreira que se delineava
no horizonte - roupas que considerava sexy o suficiente para despertar todo tipo de desejo.
Em seguida, foi ao lugar que havia descoberto no mapa. A Rue de Berne comeava em uma
igreja (coincidncia, perto do restaurante japons onde jantara no dia anterior!),
transformava-se em vitrines vendendo relgios baratos, at que, em seu final, ficavam as
boates de que havia escutado falar, todas fechadas quela hora do dia. Tornou a passear em
volta do lago, comprou - sem qualquer constrangimento - cinco revistas pornogrficas para
estudar o que eventualmente deveria fazer, esperou a noite, e dirigiu-se de novo ao lugar.
Ali, escolheu por acaso um bar com o sugestivo nome brasileiro de Copacabana.
No tinha decidido nada, dizia para si mesma. Era apenas uma experincia. Nunca se
sentira to bem e to livre em todo 0 tempo que passara na Sua.
- Est procurando emprego - disse o dono, que lavava copos detrs de um balco, sem
mesmo colocar um ponto de interrogao na frase. O lugar consistia em uma srie de
mesas, um canto com uma espcie de pista de dana e alguns sofs encostados nas paredes.
- Nada feito. Para trabalhar aqui, j que obedecemos  lei,  preciso ter pelo menos uma
carteira de trabalho.
Maria mostrou a sua, e o homem pareceu melhorar de humor.
- Tem experincia?
Ela no sabia o que dizer: se dissesse que sim, ele iria perguntar onde trabalhara antes.
Se negasse, ele seria capaz de recus- la.
- Estou escrevendo um livro.
A idia sara do nada, como se uma voz invisvel a estivesse ajudando naquele
momento. Notou que o homem sabia que era uma mentira, e fingia que acreditava.
- Antes de tomar qualquer deciso, fale com algumas das moas. Temos pelo me nos
seis brasileiras, e voc poder saber tudo o que a aguarda.
Maria quis dizer que no precisava de conselhos de ningum, que tampouco tinha
tomado uma deciso, mas o homem j se deslocara para o outro lado do bar, deixando-a
sozinha, sem lhe oferecer sequer um copo de gua.
As moas foram chegando, o dono identificou algumas brasileiras e pediu que
conversassem com a recm-chegada. Nenhuma delas parecia disposta a obedecer e Maria
deduziu que tinham medo da concorrncia. O som da boate foi ligado, e algumas canes
brasileiras comearam a tocar (afinal, o lugar chamava-se Copacabana). Entraram moas de
traos asiticos, outras que pareciam ter sado das montanhas nevadas e romnticas em
torno de Genve. Finalmente, depois de quase duas horas de espera, muita sede, alguns
cigarros, uma sensao cada vez mais profunda de que estava tomando uma deciso errada,
uma repetio mental infindvel da frase "o que estou fazendo aqui?", e uma irritao com
a total ausncia de interesse tanto do proprietrio como das meninas, uma das brasileiras
terminou se aproximando.
- Por que escolheu este lugar?
Maria podia voltar para a histria do livro, ou fazer o que fizera com relao aos
curdos e a Joan Mir: dizer a verdade.
- Pelo nome. No sei por onde comear, e tampouco sei se quero comear.
A moa pareceu ter ficado surpresa com o comentrio direto e franco. Bebeu um trago
de algo que parecia usque, escutou uma msica brasileira que tocava, fez comentrios sobre as saudades de sua terra, disse que o movimento ia ser fraco naquela
noite porque
tinham cancelado um grande congresso internacional que acontecia nas proximidades de
Genve. No final, quando notou que Maria no ia embora, disse:
-  muito simples, voc deve obedecer a trs regras. A primeira: no se apaixone por
ningum com quem trabalha ou com quem faz amor. A segunda: no acredite em
promessas, e cobre sempre adiantado. A terceira: no use drogas.
Fez uma pausa.
- E comece logo. Se voltar hoje para casa sem ter arranjado um homem, ir pensar
duas vezes, e no ter coragem de voltar.
Maria tinha ido preparada apenas para uma consulta, uma informao sobre suas
possibilidades de um trabalho provisrio, mas percebeu que estava diante daquele
sentimento que faz com que as pessoas tomem uma deciso rapidamente -desespero!
- Est bem. Comeo hoje.
No confessou que havia comeado ontem. A mulher foi at o dono do bar, a quem
chamou de Milan, e este veio conversar com Maria.
- Est com roupa de baixo bonita?
Ningum lhe fizera essa pergunta antes. Nem seus namorados, nem o rabe, nem suas
amigas, muito menos um estranho. Mas ento era assim a vida naquele lugar: direto ao
assunto.
- Estou com uma calcinha azul-clara.
"E sem suti", acrescentou, provocativa. Mas tudo que conseguiu foi uma reprimenda:
- Amanh, use calcinha preta, suti e meias compridas. Faz parte do ritual tirar o
mximo de roupas possvel.
Sem perder mais tempo, e agora com a certeza de que estava diante de uma iniciante,
Milan ensinou- lhe o resto do ritual: o Copacabana devia ser um lugar agradvel, e no um
prostbulo. Os homens entravam naquela boate querendo acreditar que iriam encontrar uma
mulher desacompanhada, sozinha. Se algum se aproximasse de sua mesa, e no fosse
interrompido no percurso (porque, alm de tudo, existia o conceito de "cliente exclusivo de
certas meninas"), com toda certeza convidaria: "Quer beber alguma coisa?"
Ao que Maria podia responder sim ou no. Era livre para decidir sua companhia,
embora fosse desaconselhvel dizer "no" mais de uma vez por noite. Caso respondesse
afirmativamente, pediria um coquetel de frutas, que (por casualidade) era a bebida mais
cara da lista. Nada de lcool, nada de deixar que o cliente escolhesse por ela.
Depois, devia aceitar um eventual convite para danar. A maioria dos freqentadores
era conhecida e, exceto pelos "clientes exclusivos", sobre os quais no entrou em detalhes,
ningum representava qualquer risco. A polcia e o Ministrio da Sade exigiam exames de
sangue mensais, para ver se no eram portadoras de doenas sexualmente transmissveis. O
uso do preservativo era obrigatrio, embora no tivessem como vigiar se esta norma estava
sendo ou no cumprida. No podiam jamais criar um escndalo - Milan era casado, pai de
famlia, preocupado com sua reputao e o bom nome de sua boate.
Continuou explicando o ritual: depois de danar, voltavam para a mesa, e o cliente,
como se estivesse dizendo algo inesperado, a convidava para ir a um hotel com ele. O preo
normal era trezentos e cinqenta francos, dos quais cinqenta francos ficariam para Milan,
a ttulo de aluguel da mesa (um artifcio legal para evitar, no futuro, complicaes jurdicas
e acusao de explorar o sexo com fins lucrativos).
Maria ainda tentou argumentar:
- Mas eu ganhei mil francos por...
O dono fez meno de afastar-se, mas a brasileira, que assistia  conversa, interferiu: - Ela est brincando.
E, virando-se para Maria, disse em bom e sonoro portugus:
- Este  o lugar mais caro de Genve (ali a cidade se chamava Genve, e no
Genebra). Nunca repita isso. Ele conhece o preo do mercado, e sabe que ningum vai para
a cama por mil francos, exceto, se tiver sorte e competncia, com os "clientes especiais".
Os olhos de Milan, que mais tarde Maria descobriria ser um iugoslavo que ali vivia
fazia vinte anos, no deixavam margem a qualq uer dvida:
- O preo  trezentos e cinqenta francos.
- Sim, o preo  este - repetiu uma humilhada Maria.
Primeiro, ele pergunta qual a cor de sua roupa de baixo. Em seguida, decide o preo
do seu corpo.
Mas no tinha tempo para pensar, o homem continuava dando instrues: no devia
aceitar convites para ir a casas ou a hotis que no fossem cinco estrelas. Se o cliente no
tivesse aonde lev-la, ela iria a um hotel localizado a cinco quadras dali, mas sempre de
txi, para evitar que outras mulheres de outras boates na Rue de Berne se acostumassem
com seu rosto. Maria no acreditou nisso, e pensou que a verdadeira razo fosse receber um
convite para trabalhar em melhores condies, em outra boate. Mas guardou seus
pensamentos para si mesma, j lhe bastava a discusso sobre o preo.
- Repito mais uma vez: assim como os policiais no cinema, jamais beba enquanto
trabalha. Vou deix- la, o movimento comea daqui a pouco.
- Agradea a ele - disse, em portugus, a brasileira.
Maria agradeceu. O homem sorriu, mas ainda no tinha terminado sua lista de
recomendaes:
- Esqueci algo: o tempo entre o pedido de bebida e o momento de sair no deve
ultrapassar, de maneira alguma, quarenta e cinco minutos. Na Sua, com relgios por todos
os lados, at iugoslavos e brasileiros aprendem a respeitar o horrio. Lembre-se de que eu
alimento meus filhos com sua comisso.
Estava lembrado.
Deu-lhe um copo de gua mineral com gs e limo - podia facilmente passar por gimtnica
- e pediu que aguardasse.
Aos poucos, a boate comeou a encher. Os homens entravam, olhavam em volta,
sentavam-se sozinhos, e logo aparecia algum da casa, como se fosse uma festa e todos se
conhecessem havia muito tempo, e agora estivessem aproveitando para divertir-se um
pouco depois de um longo dia de trabalho. A cada homem que arranjava uma companhia,
Maria suspirava, aliviada, embora j estivesse se sentindo muito melhor. Talvez porque
fosse a Sua, talvez porque, cedo ou tarde, encontraria aventura, dinheiro, ou um marido
como sempre sonhara. Talvez porque - agora se dava conta - era a primeira vez em muitas
semanas que saa de noite e ia para um lugar onde tocavam msica e onde podia, de vez em
quando, escutar algum falando portugus. Divertia-se com as meninas a sua volta, rindo,
tomando coquetel de frutas, conversando alegremente.
Nenhuma delas viera cumpriment- la ou desejar- lhe sucesso em sua nova profisso,
mas isso era normal, afinal de contas era uma concorrente, adversria, disputando o mesmo
trofu. Em vez de ficar deprimida, sentiu orgulho - estava lutando, combatendo, no era
uma pessoa desamparada. Podia, assim que quisesse, abrir a porta e ir embora para sempre,
mas iria sempre se lembrar que tivera coragem de chegar at ali, negociar e discutir sobre
coisas nas quais, em nenhum momento da sua vida, ousara pensar. No era uma vtima do
destino, repetia a cada minuto: estava correndo seus riscos, indo alm dos seus limites, vivendo coisas que um dia, no silncio do seu corao, nos momentos cheios
de tdio da
velhice, poderia lembrar com certa dose de saudade - por mais absurdo que isso pudesse
parecer.
Tinha certeza de que ningum ia se aproximar dela, e amanh tudo no passaria de
uma espcie de sonho louco, que ela jamais ousaria repetir. Acabara de se dar conta de que
mil francos por uma noite s acontece uma vez, e seria mais seguro comprar a passagem de
volta para o Brasil. Para que o tempo passasse mais rpido, comeou a calcular quanto
ganharia cada uma daquelas moas: se sassem trs vezes por dia, conseguiriam a cada
quatro horas de trabalho o equivalente a dois meses de seu salrio na loja de tecidos.
Tudo isso? Bem, ela ganhara mil francos em uma noite, mas talvez fosse sorte de
principiante. De qualquer maneira, os rendimentos de uma prostituta normal eram mais,
muito mais, do que poderia conseguir dando aulas de francs na sua terra. Tudo isso tendo
como nico esforo ficar em um bar durante algum tempo, danar, abrir as pernas, e ponto
final. Nem mesmo conversar era necessrio.
Dinheiro podia ser um bom motivo, continuou pensando. Mas era tudo? Ou as
pessoas que estavam ali, clientes e mulheres, conseguiam se divertir de alguma maneira?
Ser que o mundo era bem diferente do que lhe haviam contado na escola? Se usasse
preservativo, no haveria nenhum risco, nem mesmo o de ser reconhecida por algum de
sua terra. Ningum visita Genve, exceto - como lhe disseram uma vez no curso - os que
gostavam de freqentar bancos. Mas os brasileiros, em sua maioria, gostam mesmo  de
freqentar lojas, de preferncia em Miami ou Paris. Trezentos francos por dia, cinco dias
por semana.
Uma fortuna! O que aquelas meninas continuavam a fazer ali, se em um ms tinham
dinheiro suficiente para voltar para comprar uma casa para suas mes? Ser que estavam
trabalhando havia pouco tempo?
Ou - e Maria teve medo da prpria pergunta - ou ser que era bom?
De novo sentiu vontade de beber - o champanha ajudara muito no dia anterior.
- Aceita um drink?
Diante dela, um homem de aproximadamente trinta anos, uniforme de uma
companhia area.
O mundo entrou em cmara lenta, e Maria experimentou a sensao de sair do seu
corpo e observar-se do lado de fora. Morrendo de vergonha, mas lutando para controlar o
rubor de sua face, fez que sim com a cabea, sorriu, e entendeu que a partir daquele minuto
sua vida tinha mudado para sempre.
Coquetel de frutas, conversa, o que est fazendo aqui, est frio, no  verdade? Gosto
desta msica, pois eu prefiro Abba, os suos so frios, voc  do Brasil? Conte- me sobre a
sua terra. Tem carnaval. As brasileiras so lindas, voc sabia?
Sorrir e aceitar o elogio, fazer talvez um ar meio tmido. Danar de novo, mas
prestando ateno ao olhar de Milan, que s vezes coa a cabea e aponta para o relgio em
seu pulso. Cheiro de perfume do homem, entende rpido que precisa se acostumar com
cheiros. Pelo menos este  de perfume. Danam agarrados. Mais um coquetel de frutas, o
tempo est passando. Ele no tinha dito que eram quarenta e cinco minutos? Olha o relgio,
ele pergunta se est esperando algum, ela diz que dali a uma hora viro alguns amigos, ele
a convida para sair. Hotel, trezentos e cinqenta francos, ducha aps o sexo (o homem
comentou, intrigado, que ningum tinha feito isso antes). No  Maria,  alguma outra
pessoa que est em seu corpo, que no sente nada, apenas cumpre mecanicamente uma
espcie de ritual.  uma atriz. Milan tinha ensinado tudo, menos como se despedir do
cliente. Ela agradece, ele tambm est sem jeito, e com sono. Reluta, quer voltar para casa, mas deve ir  boate entregar os cinqenta francos, e
ento novo homem, novo coquetel, perguntas sobre o Brasil, hotel, ducha de novo (desta
vez sem comentrios). Retorna ao bar, o dono pega sua comisso, diz que pode ir embora, o
movimento est fraco naquele dia. No toma um txi, cruza toda a Rue de Berne a p,
olhando as outras boates, as vitrines com relgios, a igreja na esquina (fechada, sempre
fechada...). Ningum retorna o olhar - como sempre.
Caminha pelo frio. No sente a temperatura, no chora, no pensa no dinheiro que
ganhou, est em uma espcie de transe. Algumas pessoas nasceram para encarar a vida
sozinhas. Isso no  bom nem mau, apenas a vida. Maria  uma destas pessoas.
Comea a fazer fora para refletir sobre o que aconteceu. Comeou hoje e entretanto
j se considera uma profissional, parece que foi h muito tempo, que fez isso toda a sua
vida. Tem um estranho amor por si mesma, est contente por no ter fugido. Precisa agora
decidir se vai seguir adiante. Se seguir, ir ser a melhor - coisa que nunca foi, em momento
algum.
Mas a vida estava lhe ensinando - muito rpido - que s os fortes sobrevivem. Para ser
forte,  preciso ser mesmo o melhor; no h alternativa.
Do dirio de Maria, uma semana depois:
Eu no sou um corpo que tem uma alma, sou uma alma que tem uma parte visvel
chamada corpo. Durante todos estes dias, ao contrrio do que podia imaginar, esta alma
esteve muito mais presente. No me dizia nada, no me criticava, no sentia pena de mim:
apenas me observava.
Hoje eu me dei conta do motivo por que isso acontecia: h muito tempo no penso em
algo chamado amor. Parece que ele est fugindo de mim, como se no fosse mais
importante, e no se sentisse bem-vindo. Mas, se no pensar em amor, no serei nada.
Quando voltei ao Copacabana, no segundo dia, j era vista com muito mais respeito -
pelo que entendi; muitas garotas aparecem por uma noite e no agentam continuar. Quem
vai adiante passa a ser uma espcie de aliada, de companheira - porque pode entender as
dificuldades e as razes, ou melhor dizendo, a ausncia de razes de se ter escolhido este
tipo de vida.
Todas sonham com algum que chegue e as descubra como verdadeira mulher,
companheira, sensual, amiga. Mas todas sabem, desde o primeiro minuto de um novo
encontro, que nada disso ir acontecer.
Preciso escrever sobre o amor. Preciso pensar, pensar, escrever e escrever sobre o
amor - ou minha alma no suportar.
Mesmo pensando que o amor era algo to importante, Maria no se esqueceu do
conselho que recebera na primeira noite, e procurou viv-lo apenas nas pginas do seu
dirio. De resto, procurava desesperadamente um meio de ser a melhor, conseguir muito
dinheiro em pouco tempo, e encontrar uma boa razo para fazer aquilo que fazia.
Essa era a parte mais difcil: qual seria a verdadeira razo?
Fazia aquilo porque precisava. No era bem assim - todo mundo sempre precisa
ganhar dinheiro, e nem todos escolhem viver completamente  margem da sociedade. Fazia
porque estava querendo ter uma experincia nova. Ser? A cidade estava cheia de
experincias novas - como esquiar ou andar de barco no lago, por exemplo, e ela jamais
tivera qualquer curiosidade a respeito. Fazia porque j no tinha mais nada a perder, sua
vida era uma frustrao diria e constante. No, nenhuma das respostas era verdadeira, melhor esquecer o assunto e
simplesmente continuar vivendo o que estava em seu caminho. Tinha muita coisa em
comum com as outras prostitutas, e com as outras mulheres que conhecera em sua vida:
casar e ter uma vida segura era o maior de todos os sonhos. As que no pensavam nisso ou
tinham marido (quase a tera parte de suas companheiras era casada), ou vinham de uma
experincia recente de divrcio. Por causa disso, para entender a si mesma ela tentou -com
todo o cuidado -entender por que suas companheiras tinham escolhido aquela profisso.
No ouviu nenhuma novidade, e fez uma lista das respostas:
a) diziam que precisavam ajudar o marido em casa (e os cimes? E se aparecesse um
amigo do marido? Mas no teve coragem de ir to longe);
b) comprar uma casa para a me (desculpa igual a sua, que parecia nobre, mas era a
mais comum);
c) juntar dinheiro para a passagem de volta (colombianas, tailandesas, peruanas e
brasileiras adoravam este motivo, embora j tivessem ganho muitas vezes o dinheiro, e logo
se desfeito dele, com medo de realizar o sonho);
d) prazer (no combinava muito com o ambiente, soava falso);
e) no tinham conseguido fazer mais nada (tambm no era uma boa razo, a Sua
estava cheia de empregos de faxineira, motorista, cozinheira).
Enfim, no descobriu nenhum bom motivo, e parou de tentar explicar o universo ao
seu redor.
Viu que o proprietrio, Milan, tinha razo: nunca mais tinham lhe oferecido mil
francos suos para passar algumas horas com ela. Por outro lado, ningum reclamava
quando pedia trezentos e cinqenta francos, como se j soubessem, e perguntassem apenas
para humilhar - ou para no terem surpresas desagradveis.
Uma das meninas comentou:
- A prostituio  um negcio diferente dos outros: quem comea ganha mais, quem
tem experincia ganha menos. Finja sempre que  uma iniciante.
Ainda no sabia o que eram os "clientes especiais", assunto apenas mencionado na
primeira noite - ningum tocava neste assunto. Aos poucos foi aprendendo alguns dos
truques mais importantes da profisso, como nunca perguntar pela vida pessoal, sorrir e
falar o mnimo possvel, no marcar jamais encontros fora da boate. O conselho mais
importante veio de uma filipina chamada Nyah:
- Voc deve gemer na hora do orgasmo. Isso faz com que o cliente permanea fiel a
voc.
- Mas por qu? Eles esto pagando para se satisfazer.
- Voc est enganada. Um homem no prova que  macho quando tem uma ereo.
Ele  macho se  capaz de dar prazer a uma mulher. Se for capaz de dar prazer a uma
prostituta ento ele vai se julgar o melhor de todos.
Assim se passaram seis meses: Maria aprendeu todas as lies de que precisava -
como, por exemplo, o funcionamento do Copacabana. Sendo um dos lugares mais caros da
Rue de Berne, a clientela era composta em sua maioria de executivos, que tinham
permisso de chegar tarde em casa, j que estavam "jantando fora com clientes", mas o
limite para estes "jantares" no devia ultrapassar as 23:00h. A maioria das prostitutas tinha
entre dezoito e vinte e dois anos, e ficavam em mdia dois anos na casa, logo sendo
substitudas por outras recm-chegadas. Iam ento para o Non, logo para o Xenium e, 
medida que a idade da mulher aumentava, o preo descia, e as horas de trabalho se
evaporavam. Terminavam quase todas no Tropical Extasy, que aceitava mulheres com mais
de trinta anos. Uma vez ali, no entanto, a nica sada era sustentar-se arranjando o suficiente para o almoo e o aluguel com um ou dois estudantes por dia (mdia
de preo
por programa: o suficiente para comprar uma garrafa de vinho barato).
Foi para a cama com muitos homens. Jamais se importava com a idade, ou com as
roupas que usavam, mas o seu "sim" ou "no" dependia do cheiro que exalavam. Nada
tinha contra o cigarro, mas detestava os homens que usavam perfumes baratos, os que no
tomavam banho e os que tinham as roupas impregnadas de bebida. O Copacabana era um
lugar tranqilo, e a Sua talvez fosse o melhor pas do mundo para se trabalhar como
prostituta - desde que tivesse permisso de residncia e trabalho, papis em dia, e pagasse o
seguro social religiosamente; Milan vivia repetindo que no desejava que seus filhos o
vissem nas pginas de jornais sensacionalistas, e conseguia ser mais rgido que um policial
quando se tratava de verificar a situao de suas contratadas.
Enfim, uma vez vencida a barreira da primeira ou da segunda noite, era uma profisso
como qualquer outra, onde se trabalhava duro, lutava-se contra a concorrncia, esforava-se
para manter um padro de qualidade, cumpriam-se horrios, estressava-se um pouco,
reclamava-se do movimento e descansava-se aos domingos. A maior parte das prostitutas
tinha algum tipo de f e freqentava seus cultos, suas missas, fazia suas preces, e tinha seus
encontros com Deus.
Maria, porm, lutava com as pginas do seu dirio para no perder sua alma.
Descobriu, para sua surpresa, que um em cada cinco clientes no estava l para fazer amor,
mas para conversar um pouco. Pagavam o preo da tabela, o hotel, e na hora de tirar a
roupa diziam que no era necessrio. Queriam falar das presses do trabalho, da mulher que
os traa com algum, do fato de se sentirem sozinhos, sem ter com quem conversar (ela
conhecia bem esta situao).
No incio, achou muito estranho. At que um dia, quando ia para o hotel com um
importante francs, encarregado de caar talentos para altos cargos executivos (ele lhe
explicava isso como se fosse a coisa mais interessante do mundo), ouviu do seu cliente o
seguinte comentrio:
- Sabe quem  a pessoa mais solitria do mundo?  o executivo que tem uma carreira
bem-sucedida, ganha um altssimo salrio, recebe a confiana de quem est acima e abaixo
dele, tem uma famlia com quem passa as frias, filhos a quem ajuda nos deveres escolares,
e que num belo dia recebe a visita de um tipo como eu, com a seguinte proposta: "Voc
quer mudar de emprego, ganhando o dobro?"
"Esse homem, que tem tudo para sentir-se desejado e feliz, torna-se a pessoa mais
miservel do planeta. Por qu? Porque no tem com quem conversar. Est tentado a aceitar
minha proposta, e no pode coment-la com os colegas do trabalho, pois estes fariam de
tudo para convenc- lo a ficar onde est. No pode falar com a mulher, que durante anos
acompanhou sua carreira vitoriosa, entende muito de segurana, mas no entende de riscos.
No pode falar com ningum, e est diante da grande deciso da sua vida. Voc pode
imaginar o que sente este homem?"
No, no era essa a pessoa mais solitria do mundo, porque Maria conhecia a pessoa
mais sozinha da face da terra: ela mesma. Mesmo assim, concordou com seu cliente, na
esperana de uma boa gorjeta - que veio. E a partir daquele comentrio, entendeu que
precisava descobrir algo para liberar seus clientes da presso enorme que pareciam
carregar; isso significaria uma melhora na qualidade dos seus servios, e uma possibilidade
de dinheiro extra.
Quando entendeu que liberar a tenso da alma era to ou mais lucrativo do que liberar
a tenso do corpo, voltou a freqentar a biblioteca. Comeou a pedir livros sobre problemas
conjugais, psicologia, poltica, e a bibliotecria estava encantada - porque a menina pela qual tinha tanto carinho desistira de ficar pensando em sexo e agora se
concentrava em
coisas mais importantes. Passou a ler regularmente os jornais, acompanhando, sempre que
possvel, as pginas de economia - j que a maior parte dos seus clientes eram executivos.
Pediu livros de auto-ajuda - pois quase todos lhe pediam conselhos. Estudou tratados sobre
a emoo humana - uma vez que todos sofriam, por uma razo ou por outra. Maria era uma
prostituta respeitvel, diferente, e ao final de seis meses de trabalho, tinha uma clientela
seleta, grande, e fiel, e despertava a inveja, o cime, mas tambm a admirao das
companheiras.
Quanto ao sexo, at aquele momento nada tinha acrescentado a sua vida: era abrir as
pernas, exigir que colocassem um preservativo, gemer um pouco para aumentar a
possibilidade de uma gorjeta (graas  filipina Nyah ela descobrira que os gemidos podiam
render cinqenta francos a mais), e tomar uma ducha logo aps a relao, de modo que a
gua lavasse um pouco a sua alma. Nada de variaes. Nada de beijo - o beijo, para uma
prostituta, era mais sagrado que qualquer outra coisa. Nyah lhe ensinara que devia
conservar o beijo para o amado da sua vida, como no conto da Bela Adormecida; um beijo
que a faria despertar do sono e voltar ao mundo do conto de fadas, no qual a Sua se
transformava de novo no pas do chocolate, das vacas e dos relgios.
Tambm nada de orgasmos, prazer, ou coisas excitantes. Na busca para ser a melhor
de todas, Maria andara assistindo a algumas sesses de filmes pornogrficos, esperando
aprender algo que pud esse usar no seu trabalho. Tinha visto muita coisa interessante, mas
que no se animava a praticar com os seus clientes - demoravam muito, e Milan sempre
ficava contente quando as mulheres se encontravam com trs pessoas por noite.
No final do semestre, Maria tinha colocado sessenta mil francos no banco, passara a
comer em restaurantes mais caros, comprara uma TV (que nunca usava, mas que gostava de
ter perto) e agora considerava seriamente a possibilidade de mudar para um apartamento
melhor. J podia comprar livros, mas continuava a freqentar a biblioteca, que era sua
ponte para o mundo real, mais slido e mais duradouro. Gostava de conversar com a
bibliotecria, que estava feliz porque Maria finalmente arranjara um amor, e talvez um
emprego, embora no perguntasse nada, j que os suos so tmidos e discretos (verdadeira
mentira, porque no Copacabana e na cama eram desinibidos, alegres ou complexados como
qualquer outro povo do mundo).
Do dirio de Maria, em uma tarde morna de domingo:
Todos os homens, baixos ou altos, arrogantes ou tmidos, simpticos ou distantes, tm
uma caracterstica em comum: chegam  boate com medo. Os mais experientes escondem
seu pavor falando alto, os inibidos no conseguem disfarar e comeam a beber para ver se
a sensao vai embora. Mas no tenho dvida, com rarssimas excees - e estes so os
"clientes especiais", que Milan ainda no me apresentou - eles esto assustados.
Com medo de qu? Na verdade, sou eu quem devia estar tremendo. Sou eu quem sai,
vai para um lugar estranho, no tenho fora fsica, no carrego armas. Os homens so muito
estranhos, e no estou falando apenas daqueles que vm at o Copacabana, mas de todos
que conheci at hoje. Podem bater, podem gritar, podem ameaar, mas morrem de medo de
uma mulher. Talvez no daquela com quem se casaram, mas sempre existe uma que os
assusta e os submete a todos os seus caprichos. Nem que seja a prpria me.
86
A homens que conhecera desde que chegara em Genve faziam de tudo para
parecerem seguros de si, como se governassem o mundo e suas prprias vidas; Maria,
porm, via nos olhos de cada um o terror da esposa, o pnico de no conseguir ter uma ereo, de no serem machos o suficiente nem diante de uma simples prostituta,
a quem
estavam pagando. Se fossem a uma loja e no lhes agradasse o calado, seriam capazes de
voltar com o recibo na mo e exigir o reembolso. Entretanto, embora tambm estivessem
pagando por uma companhia, se no tivessem uma ereo, jamais voltariam  mesma boate,
porque achavam que a histria teria se espalhado entre todas as outras mulheres; seria uma
vergonha.
"Sou eu quem devia ter vergonha por no conseguir excitar um homem. Mas, na
verdade, so eles que tm."
Para evitar estes constrangimentos, Maria procurava deix-los sempre  vontade, e
quando algum deles parecia mais bbado ou mais frgil que o normal, evitava o sexo e
concentrava-se apenas em carcias e masturbao - o que os deixava muito contentes - por
mais absurdo que parecesse esta situao, j que podiam masturbar-se sozinhos.
minutos, e mesmo assim, se descontarmos tirar a roupa, ensaiar algum falso carinho,
conversar alguma coisa bvia, vestir a roupa, reduziremos este tempo para onze minutos de
sexo propriamente dito."
Era preciso sempre evitar que ficassem envergonhados. Aqueles homens, to
poderosos e arrogantes em seu trabalho, onde lidavam sem parar com empregados, clientes,
fornecedores, preconceitos, segredos, atitudes falsas, hipocrisia, medo, opresso,
terminavam o dia em uma boate, e no se importavam em pagar trezentos e cinqenta
francos suos para deixarem de ser eles mesmos durante a noite.
"Durante a noite? Ora, Maria, voc est exagerando. Na verdade, so quarenta e cinco
Onze minutos. O mundo girava em torno de algo que demorava apenas onze minutos.
E por causa destes onze minutos em um dia de vinte e quatro horas (se levssemos em
conta que todos fizessem amor com suas esposas, todos os dias, o que seria um absurdo e
uma inverdade completa), eles se casavam, sustentavam a famlia, agentavam o choro das
crianas, se desmanchavam em explicaes quando chegavam tarde em casa, olhavam
dezenas, centenas de outras mulheres com quem gostariam de passear em torno do lago de
Genve, compravam roupas caras para si mesmos, e roupas ainda mais caras para elas,
pagavam prostitutas para compensar o que estava faltando, sustentava uma gigantesca
indstria de cosmticos, dietas, ginstica, pornografia, poder - e quando se encontravam
com outros homens, ao contrrio do que dizia a lenda, jamais falavam de mulheres.
Conversavam sobre empregos, dinheiro e esporte.
Havia algo de muito errado com a civilizao; e no era o desmatamento da
Amaznia, a camada de oznio, a morte dos pandas, o cigarro, os alimentos cancergenos, a
situao nas penitencirias, como gritavam os jornais.
Era exatamente aquilo em que trabalhava: o sexo.
Entretanto, Maria no estava ali para salvar a humanidade, e sim para aumentar sua
conta bancria, sobreviver por mais seis meses  solido e  escolha que fizera, enviar
regularmente a mesada para a sua me (que ficou muito contente ao saber que a ausncia de
dinheiro devia-se apenas ao correio suo, que no funcionava to bem como o correio
brasileiro), comprar tudo que sempre sonhara e jamais tivera. Mudou-se para um
apartamento muito melhor, com calefao central (embora o vero j tivesse chegado), e da
sua janela podia ver uma igreja, um restaurante japons, um supermercado e um simptico
caf, que costumava freqentar para ler um pouco os jornais.
De resto, conforme prometera a si mesma, era s agentar mais meio ano na rotina de
sempre: Copacabana, aceita um drink, danar, o que acha do Brasil, hotel, cobrar adiantado,
conversar e saber tocar nos pontos exatos - tanto no corpo como na alma, principalmente na
alma -, ajudar nos problemas ntimos, ser amiga por meia hora, da qual onze minutos sero gastos em abre perna, fecha perna, gemidos fingindo prazer. Obrigada, espero
v -lo na
prxima semana, voc  realmente um homem, vou ouvir o resto da histria na prxima vez
que nos encontrarmos, excelente gorjeta, afinal no precisava porque tive muito prazer em
estar com voc.
E, sobretudo, jamais se apaixonar. Este era o mais importante, o mais sensato de todos
os conselhos que a brasileira lhe dera -antes de sumir, provavelmente porque se apaixonara.
Em dois meses de trabalho j tivera vrias propostas de casamento, e pelo menos trs eram
muito srias: o diretor de uma firma de contabilidade, o tal piloto com quem sara na
primeira noite, e o dono de uma loja especializada em canivetes e armas brancas. Os trs
lhe prometeram "tir- la daquela vida" e dar-lhe uma casa decente, um futuro, talvez filhos e
netos.
Tudo por apenas onze minutos por dia? No era possvel. Agora, depois de sua
experincia no Copacabana, sabia que no era a nica pessoa a sentir-se sozinha. E o ser
humano pode tolerar uma semana de sede, duas semanas de fome, muitos anos sem teto,
mas no pode tolerar a solido.  a pior de todas as torturas, de todos os sofrimentos.
Aqueles homens, e os muitos outros que queriam sua companhia, sofriam como ela este
sentimento destruidor - a sensao de que ningum nesta terra se importava com eles.
Para evitar tentaes do amor, seu corao estava apenas em seu dirio. Entrava no
Copacabana apenas com seu corpo e seu crebro, cada vez mais perceptivo, mais afiado.
Conseguira convencer-se de que chegara a Genve e terminara na Rue de Berne por alguma
razo maior, e cada vez que alugava um livro na biblioteca, confirmava: ningum escrevera
direito sobre estes onze minutos mais importantes do dia. Talvez fosse esse o seu destino,
por mais duro que pudesse parecer no momento: escrever um livro, contar sua histria, sua
aventura.
Isso, aventura. Embora fosse uma palavra proibida, que ningum ousava pronunciar,
que a maior parte preferia ver na televiso, em filmes que passavam e repassavam nas mais
diversas horas do dia, era isso que ela buscava. Combinava com desertos, com viagens para
lugares desconhecidos, com homens misteriosos puxando conversa em um barco no meio
do rio, com avies, estdios de cinema, tribos de ndio, geleiras, frica.
Gostou da idia do livro, e chegou a pensar no ttulo: Onze minutos.
Comeou a classificar os clientes em trs tipos: os Exterminadores (nome dado em
homenagem a um filme do qual gostara muito), que j entravam cheirando a bebida,
fingindo que no olhavam para ningum, mas achando que todos estavam olhando para
eles, danando pouco e indo direto ao assunto do hotel. Os Pretty Woman (tambm por
causa de um filme), que procuravam ser elegantes, gentis, carinhosos, como se o mundo
dependesse daquele tipo de bondade para voltar ao seu eixo, como se estivessem
caminhando pela rua e entrassem por acaso na boate; eram doces no incio, e inseguros
quando chegavam ao hotel, e por causa disso terminavam sendo mais exigentes que os
Exterminadores. Fina lmente, os Poderosos Chefes (tambm por causa de um filme), que
tratavam o corpo de uma mulher como se trata uma mercadoria. Eram os mais autnticos,
danavam, conversavam, no deixavam gorjeta, sabiam o que estavam comprando e quanto
valia, jamais se deixariam levar pela conversa de qualquer mulher que escolhessem. Esses
eram os nicos que, de uma maneira muito sutil, conheciam o significado da palavra
aventura.
Do dirio de Maria, em um dia em que estava menstruada e no podia trabalhar: Se eu tivesse que contar hoje minha vida para algum, poderia faz-lo de tal maneira
que iriam me achar uma mulher independente, corajosa e feliz. Nada disso: estou proibida
de mencionar a nica palavra que  muito mais importante que os onze minutos - amor.
Durante toda a minha vida, entendi o amor como uma espcie de escravido
consentida.  mentira: a liberdade s existe quando ele est presente. Quem se entrega
totalmente, quem se sente livre, ama o mximo.
E quem ama o mximo sente-se livre.
Por causa disso, apesar de tudo que posso viver, fazer, descobrir, nada tem sentido.
Espero que este tempo passe rpido, para que eu possa voltar  busca de mim mesma -
refletida em um homem que me entenda, que no me faa sofrer.
Mas que bobagem  essa que estou dizendo? No amor, ningum pode machucar
ningum; cada um de ns  responsvel por aquilo que sente, e no podemos culpar o outro
por isso.
J me senti ferida quando perdi os homens pelos quais me apaixonei. Hoje estou
convencida de que ningum perde ningum, porque ningum possui ningum.
Essa  a verdadeira experincia da liberdade: ter a coisa mais importante do mundo,
sem possu- la.
Mais trs meses se passaram, o outono chegou, chegou tambm finalmente a data
marcada no calendrio: noventa dias para a viagem de volta. Tudo passara to rpido e to
lentamente, pensou ela, descobrindo que o tempo corre em duas dimenses diferentes,
dependendo do seu estado de esprito, mas em ambos os casos a sua aventura estava
chegando ao final. Poderia continuar,  claro, mas no se esquecia do sorriso triste da
mulher invisvel que a acompanhara pelo passeio em volta do lago, dizendo que as coisas
no eram to simples assim. Por mais que estivesse tentada a continuar, por mais preparada
que estivesse para os desafios que tinham surgido em seu caminho, todos estes meses
convivendo apenas consigo mesma tinham lhe ensinado que existe um momento certo de
interromper tudo. Dali a noventa dias voltaria para o interior do Brasil, compraria uma
pequena fazenda (afinal, ganhara mais do que o esperado), algumas vacas (brasileiras, no
suas), convidaria seu pai e sua me para morarem com ela, contrataria dois empregados, e
colocaria a empresa para funcionar.
Embora achasse que o amor  a verdadeira experincia da liberdade, e que ningum
pode possuir outra pessoa, ainda alimentava seus secretos desejos de vingana, e deles fazia
parte seu retorno triunfal ao Brasil. Depois de montar sua fazenda, iria at a cidade, passaria
em frente ao banco onde trabalhava o menino que havia sado com sua melhor amiga, e
faria um grande depsito em dinheiro.
"Ol, como vai, voc no me reconhece?", ele perguntaria. Ela fingiria um grande
esforo de memria e terminaria dizendo que no, que passara um ano inteiro na EU-ROPA
(pronunciar bem devagar, para que todos os seus colegas escutem). Melhor dizendo, na
SU--A (ia soar mais extico e mais aventureiro do que Frana), onde existem os
melhores bancos do mundo.
Quem era ele? Ele mencionaria os tempos de colgio. Ela diria, "Ah...! acho que me
lembro", mas fazendo uma cara de quem no se lembrava. Pronto, a vingana estava
consumada. Agora era trabalhar mais, e quando o negcio j estivesse andando como
previa, ela poderia se dedicar quilo que mais lhe importava na vida: descobrir seu
verdadeiro amor, o homem que a esperara por todos aqueles anos, mas que ela ainda no
tivera a oportunidade de conhecer. Maria resolveu esquecer para sempre a idia de escrever um livro com o ttulo de
Onze minutos. Precisava agora se concentrar na fazenda, nos planos para o futuro, ou
terminaria adiando sua viagem, um risco fatal.
%%
Naquela tarde, saiu para encontrar-se com sua melhor - e nica - amiga, a
bibliotecria. Pediu um livro sobre pecuria e administrao de fazendas. A bibliotecria
lhe confessou:
- Sabe, h alguns meses, quando voc veio aqui em busca de ttulos sobre sexo, eu
cheguei a temer por seu destino. Afinal de contas, muitas moas bonitas se deixam levar
pela iluso do dinheiro fcil, e se esquecem de que um dia sero velhas, e j no tero
oportunidade de encontrar o homem de suas vidas.
- Voc est falando de prostituio?
- Uma palavra muito forte.
- Como j disse, trabalho em uma empresa de importao e exportao de carne.
Entretanto, se tivesse a oportunidade de me prostituir, as conseqncias seriam to graves
se parasse na hora certa? Afinal de contas, ser jovem tambm significa fazer coisas erradas.
- Todos os drogados dizem isso; basta saber a hora de parar. E ningum pra.
- A senhora deve ter sido uma mulher muito bonita, nascida em um pas que respeita
seus habitantes. Isso lhe bastou para que se sentisse feliz?
- Tenho orgulho de como superei meus obstculos.
Deveria continuar a histria? Bem, aquela menina precisava aprender algo sobre a
vida.
- Tive uma infncia feliz, estudei em uma das melhores escolas de Berne, vim
trabalhar em Genve, encontrei e casei- me com o homem que amava. Fiz tudo por ele, ele
tambm fez tudo por mim, o tempo passou, e veio a aposentadoria. Quando ficou livre para
usar o seu tempo com tudo que tinha vontade, seus olhos ficaram mais tristes - porque
talvez, em toda a sua vida, jamais pensou em si mesmo. Nunca brigamos seriamente, no
tivemos grandes emoes, ele jamais me traiu ou me desrespeitou em pblico. Vivemos
uma vida normal, mas to normal, que sem trabalho ele sentiu-se intil, sem importncia, e
morreu um ano depois, de cncer.
Estava falando a verdade, mas podia influenciar de maneira negativa a menina  sua
frente.
- Seja como for,  melhor uma vida sem surpresas - concluiu. - Talvez meu marido
tivesse morrido antes, se no fosse assim.
Maria saiu decidida a pesquisar sobre fazendas. Como tinha a tarde livre, resolveu
passear um pouco, e terminou notando, na parte alta da cidade, uma pequena placa amarela
com um sol e uma inscrio: "Caminho de Santiago." O que era aquilo? Como havia um
bar do outro lado da rua, e como havia aprendido a perguntar tudo o que no sabia, resolveu
entrar e informar-se.
- No tenho idia - disse a moa detrs do balco.
Era um lugar elegante, e o caf custava trs vezes mais do que o normal. Mas j que
tinha dinheiro, e j que estava ali, pediu um caf e resolveu dedicar as prximas horas a
aprender tudo sobre administrao de fazendas. Abriu o livro com entusiasmo, mas no
conseguiu concentrar-se na leitura - era aborrecidssima. Seria muito mais interessante
conversar com um dos seus fregueses a respeito do tema - eles sempre sabiam a melhor
maneira de administrar o dinheiro. Pagou o caf, levantou-se, agradeceu a moa que a
serviu, deixou uma boa gorjeta (havia criado uma superstio a respeito, se desse muito
receberia tambm muito), caminhou em direo  porta, e, sem dar-se conta da importncia
daquele momento, escutou a frase que mudaria para sempre os seus planos, seu futuro, sua fazenda, sua idia de felicidade, sua alma de mulher, sua atitude de homem,
seu lugar no
mundo.
- Espere um pouco.
Olhou surpreendida para o lado. Aquilo ali era um bar respeitvel, no era o
Copacabana, onde os homens tm direito de dizer isso, embora as mulheres possam
responder "vou sair, e voc no ir me impedir".
Preparava -se para ignorar o comentrio, mas sua curiosidade foi mais forte, e ela se
virou em direo  voz. O que viu foi uma cena estranha: um homem de aproximadamente
trinta anos (ou ser que devia pensar "um rapaz de aproximadamente trinta anos?" Seu
mundo tinha envelhecido muito rpido), de cabelos compridos, ajoelhado no cho, com
vrios pincis espalhados ao seu lado - desenhando um senhor, sentado em uma cadeira,
com um copo de anis ao seu lado. No os havia notado quando entrara.
- No v embora. Estou terminando este retrato, e gostaria de pint- la tambm.
Maria respondeu - e ao responder, criou o lao que faltava no universo.
- No estou interessada.
- Voc tem luz. Deixe- me pelo menos fazer um esboo.
O que era esboo? O que era "luz"? No deixava de ser uma mulher vaidosa, imagine
ter o seu retrato feito por algum que parecia srio! Comeou a delirar: e se fosse um pintor
famoso? Ela seria imortalizada para sempre em uma tela! Exposta em Paris, ou em
Salvador da Bahia! Um mito!
Por outro lado, o que fazia aquele homem, com toda aquela baguna a sua volta, em
um bar to caro e possivelmente bem freqentado?
Adivinhando seu pensamento, a moa que atendia os clientes disse baixinho:
- Ele  um artista muito conhecido.
Sua intuio no falhara. Maria procurou controlar-se e manter o sangue-frio.
- Vem aqui de vez em quando, e traz sempre um cliente importante. Diz que gosta do
ambiente, que fica inspirado. Est fazendo um painel com as pessoas que representam a
cidade, foi uma encomenda da prefeitura.
Maria olhou para o homem que estava sendo pintado. De novo a garonete leu seu
pensamento.
-  um qumico que fez uma descoberta revolucionria. Ganhou o prmio Nobel.
- No v embora - repetiu o pintor. - Vou terminar em cinco minutos. Pea o que
quiser e coloque na minha conta.
Como que hipnotizada pela ordem, ela sentou-se no bar, pediu um coquetel de anis
(como no costumava beber, a nica coisa que lhe ocorreu foi imitar o tal prmio Nobel), e
ficou olhando o homem trabalhar. "No represento a cidade, por isso ele deve estar
interessado em outra coisa. Mas no faz meu tipo", pensou automaticamente, repetindo o
que sempre dizia para si mesma desde que comeara a trabalhar no Copacabana; era sua
tbua de salvao e sua renncia voluntria s armadilh as do corao.
Uma vez isso bem claro, no custava esperar um pouco talvez a moa no balco
estivesse certa, e aquele homem pudesse abrir as portas de um mundo que no conhecia,
mas com o qual sempre sonhara: afinal de contas, no tinha pensado em seguir a carreira de
modelo?
Ficou observando a agilidade e a rapidez com que ele conclua o seu trabalho - pelo
visto era uma tela muito grande, mas estava completamente dobrada, e ela no podia ver os
outros rostos ali retratados. E se agora tivesse uma nova oportunidade?
O homem (resolvera que era "homem", e no "rapaz", porque seno iria comear a
sentir-se velha demais para sua idade) no parecia o tipo que faz aquela proposta apenas para passar uma noite com ela. Cinco minutos depois, conforme prometera,
ele havia
terminado seu trabalho, enquanto Maria se concentrava no Brasil, no seu futuro brilhante, e
na absoluta falta de interesse que tinha em conhecer pessoas novas que pudessem colocar
todos aqueles planos em risco.
- Obrigado, j pode mudar de posio - disse o pintor para o qumico, que pareceu
acordar de um sonho.
E, virando-se para Maria, disse sem rodeios:
- V para aquele canto e fique  vontade. A luz est tima.
Como se tudo j estivesse combinado pelo destino, como se fosse a coisa mais natural
do mundo, como se sempre em sua vida tivesse conhecido aquele homem, ou tivesse vivido
aquele momento em sonhos e agora soubesse o que fazer na vida real, Maria pegou seu
copo de anis, a bolsa, os livros sobre administrao de fazendas, e dirigiu-se ao lugar
indicado pelo homem uma mesa perto da janela. Ele trouxe os pincis, a tela grande, uma
srie de pequenos vidros cheios de tinta de diversas cores, um mao de cigarros, e ajoelhouse
aos seus ps.
- Fique sempre na mesma posio.
-  pedir muito; minha vida est sempre em movimento.
Era uma frase que considerava brilhante, mas o rapaz no deu maior ateno. Maria,
procurando manter a naturalidade, porque o olhar dele a deixava muito desconfortvel,
apontou para o lado de fora da janela, onde se via a rua e a placa:
- O que  "Caminho de Santiago"?
- Uma rota de peregrinao. Na Idade Mdia, gente de toda a Europa passava por esta
rua em direo a uma cidade na Espanha, Santiago de Compostela.
Ele dobrou uma parte da tela e preparou os pincis. Maria continuava sem saber
direito o que fazer.
- Quer dizer que, se eu seguir por esta rua, chego  Espanha?
- Dois ou trs meses depois. Mas posso lhe pedir um favor? Fique em silncio; isso
no demora mais que dez minutos. E tire o pacote da mesa.
- So livros - respondeu ela, com uma certa dose de irritao por causa do tom
autoritrio do pedido. Ele precisava saber que estava diante de uma mulher culta, que
gastava seu tempo em bibliotecas, no em lojas. Mas ele mesmo pegou o pacote e colocouo
no cho, sem nenhuma cerimnia.
No tinha conseguido impression-lo. Alis, no tinha a menor inteno de
impression- lo, estava fora do seu horrio de trabalho, guardaria a seduo para mais tarde,
com homens que pagavam bem pelo seu esforo. Por que tentar relacionar-se com aquele
pintor, que talvez no tivesse dinheiro nem para convid-la para um caf? Um homem de
trinta anos no deve usar cabelos longos, fica ridculo. Por que achava que no tinha
dinheiro? A moa do bar dissera que era uma pessoa conhecida - ou ser que o qumico 
que era famoso? Olhou a maneira como estava vestido, mas no adiantava muito; a vida
tinha lhe ensinado que homens vestidos displicentemente - que era o caso - pareciam
sempre ter mais dinheiro do que os que usavam terno e gravata.
"O que fao pensando neste homem? O que me interessa  o quadro."
Dez minutos no eram um preo muito grande a pagar pela chance de tornar-se
imortal em uma pintura. Viu que ele a estava pintando ao lado do tal qumico premiado, e
comeou a se perguntar se iria pedir algum tipo de pagamento no final. - Vire o rosto em direo  janela.
Mais uma vez ela obedeceu, sem perguntar nada - o que no era absolutamente do seu
feitio. Ficou olhando as pessoas que passavam, a placa sobre o tal caminho, imaginando
que aquela rua j estava ali havia muitos sculos, uma rota que sobrevivera ao progresso, s
mudanas do mundo, s prprias mudanas do homem. Talvez fosse um bom pressgio,
aquele quadro podia ter o mesmo destino, estar em um museu dali a quinhentos anos.
O homem comeou a desenhar e,  medida que o trabalho progredia, ela perdeu a
alegria inicial e comeou a sentir-se insignificante. Quando entrara naquele bar, era uma
mulher segura de si mesma, capaz de tomar uma deciso muito difcil - abandonar um
trabalho que lhe d dinheiro -para aceitar um desafio mais difcil ainda - dirigir uma
fazenda na sua terra. Agora, parecia ter voltado a sensao de insegurana diante do
mundo, coisa que uma prostituta jamais pode se dar ao luxo de sentir.
Terminou descobrindo a razo de seu desconforto: pela primeira vez em muitos
meses, algum no a olhava como um objeto, nem como uma mulher - mas como algo que
no conseguia entender, embora a definio mais prxima fosse "ele est vendo a minha
alma, meus medos, minha fragilidade, minha incapacidade de lutar com um mundo que eu
finjo dominar, mas do qual no sei nada".
Ridculo, continuava delirando.
- Eu gostaria que...
- Por favor, no fale - disse o homem. - Estou vendo sua luz.
Nunca ningum lhe dissera isso. "Estou vendo seus seios duros", "estou vendo suas
coxas bem torneadas", "estou vendo esta beleza extica dos trpicos", ou, no mximo,
"estou vendo que voc quer sair desta vida, por que no me d uma chance e monto um
apartamento para voc". Estes eram os comentrios que estava acostumada a escutar, mas...
sua luz? Ser que ele estava se referindo ao entardecer?
- Sua luz pessoal - ele completou, se dando conta de que ela no entendera nada.
Luz pessoal. Bem, ningum podia estar mais longe da realidade do que aquele
inocente pintor, que mesmo com seus possveis trinta anos no tinha aprendido nada da
vida. Como todos sabem, as mulheres amadurecem muito mais rpido que os homens, e
Maria - embora no passasse noites em claro pensando em seus conflitos filosficos - pelo
menos uma coisa sabia: no possua aquilo que o pintor chamava de "luz" e que ela
interpretava como "um brilho especial". Era uma pessoa como todas as outras, sofria sua
solido em silncio, tentava justificar tudo que fazia, fingia ser forte quando estava muito
fraca, fingia ser fraca quando se sentia forte, renunciara a qualquer paixo em nome de um
trabalho perigoso, mas agora j perto do final, tinha planos para o futuro e arrependimentos
no passado - e uma pessoa assim no tem nada de "brilho especial". Aquilo devia ser
apenas uma maneira de mant- la calada e satisfeita para ficar ali, imvel, fazendo papel de
boba.
"Luz pessoal. Podia ter escolhido outra coisa, como `o seu perfil  lindo'."
Como entra luz em uma casa? Se as janelas estiverem abertas. Como entra luz em
uma pessoa? Se a porta do amor estiver aberta. E, definitivamente, a sua no estava. Devia
ser um pssimo pintor, no entendia nada.
- Acabei - disse ele, e comeou a juntar seu material.
Maria no se mexeu. Tinha vontade de pedir para ver o quadro, mas ao mesmo tempo
isso podia significar uma falta de educao, no confiar no que o outro tinha feito. A
curiosidade, porm, falou mais alto. Ela pediu, ele concordou. Desenhara apenas seu rosto; parecia-se com ela, mas se algum dia tivesse visto aquele
quadro sem conhecer a modelo, diria que era algum muito mais forte, cheia de uma "luz"
que ela no conseguia ver refletida no espelho.
- Meu nome  Ralf Hart. Se quiser, posso pagar-lhe outro drink?
- No, obrigada.
Pelo visto, o encontro agora caminha da maneira tristemente prevista: o homem tenta
seduzir a mulher.
- Por favor, mais dois drinks de anis - pediu, sem dar importncia ao comentrio de
Maria.
O que tinha para fazer? Ler um aborrecido livro sobre administrao de fazendas.
Caminhar, como j fizera centenas de vezes, pela margem do lago. Ou conversar com
algum que vira nela uma luz que desconhecia, justamente na data marcada no calendrio
para o comeo do fim de sua "experincia".
- O que voc faz?
Esta era a pergunta que no queria ouvir, que a fizera evitar muitos encontros quando,
por uma razo ou por outra, algum se aproximava dela (o que acontecia raramente na
Sua, dada a natureza discreta dos seus habitantes). Qual seria a resposta possvel?
- Trabalho em uma boate.
Pronto. Um enorme peso saiu de suas costas - e ficou contente por tudo que aprendera
desde que chegara na Sua; perguntar (O que so os curdos? O que  o Caminho de
Santiago?) e responder (trabalho em uma boate) sem importar-se com o que esto
pensando.
- Acho que j a vi antes.
Maria sentiu que ele queria ir mais longe, e saboreou sua pequena vitria; o pintor que
minutos atrs lhe dava ordens, parecendo absolutamente seguro do que queria, agora
voltava a ser um homem como todos os outros, inseguro diante de uma mulher que n o
conhece.
- E esses livros?
Ela mostrou-os. Administrao de fazendas. O homem pareceu ficar mais inseguro
ainda.
- Trabalha com sexo?
Ele tinha arriscado. Ser que ela se vestia como uma prostituta? De qualquer maneira,
precisava ganhar tempo. Estava se examinando, aquilo comeava a ser um jogo
interessante, no tinha absolutamente nada a perder.
- Por que os homens s pensam nisso?
Ele tornou a colocar os livros na bolsa.
- Sexo e administrao de fazendas. Duas coisas muito aborrecidas.
O qu? De repente, ela se sentia desafiada. Como podia falar to mal de sua
profisso? Bem, ele ainda no sabia em que ela trabalhava, estava apenas arriscando um
palpite, mas no podia deix-lo sem resposta.
- Pois eu penso que no h nada mais aborrecido do que a pintur a. Uma coisa parada,
um movimento que foi interrompido, uma fotografia que jamais  fiel ao original. Uma
coisa morta, pela qual ningum se interessa mais, a no ser os pintores, gente que se julga
importante, culta, e que no evoluiu como o resto do mundo. J ouviu falar de Joan Mir?
Eu nunca ouvi, a no ser por um rabe em um restaurante, e isso no mudou absolutamente
nada em minha vida.
No sabia se tinha ido longe demais, porque os drinks chegaram e a conversa foi
interrompida. Os dois ficaram sem dizer palavra por algum tempo. Maria pensou que j estava na hora de ir, e talvez Ralf Hart tivesse pensado a mesma coisa. Mas
ali ainda
estavam dois copos cheios daquela bebida horrorosa, e isso era um pretexto para
continuarem juntos.
- Por que o livro sobre fazendas?
- O que voc quer dizer?
- J estive na Rue de Berne. Depois que voc me disse onde trabalhava, me lembrei
que j a vi antes: naquela boate cara. Entretanto, enquanto a pintava, no me dei conta: sua
"luz" estava muito forte.
Maria sentiu que o cho fugia dos seus ps. Pela primeira vez sentiu vergonha do que
fazia, embora no tivesse a menor razo para isso, trabalhava para sustentar a si mesma e a
sua famlia. Ele  quem devia sentir vergonha de ir  Rue de Berne; de um momento para o
outro, todo aquele possvel encanto havia desaparecido.
- Escute, Sr. Hart, embora eu seja brasileira, moro h nove meses na Sua. E aprendi
que os suos so discretos porque vivem em um pas muito pequeno, quase todos se
conhecem, como acabamos de ver, razo pe la qual ningum pergunta pela vida do outro.
Seu comentrio foi imprprio e muito indelicado, mas se seu objetivo foi me humilhar para
sentir-se mais  vontade, o senhor perdeu seu tempo. Obrigada pelo licor de anis, que 
horroroso, mas que vou tomar at o final. E vou fumar um cigarro depois. E finalmente,
vou levantar e irei embora. Mas o senhor pode sair neste momento, j que no  bom para
pintores famosos sentarem  mesma mesa com uma prostituta. Porque  isso que sou, sabe?
Uma prostituta. Sem nenhuma culpa, dos ps  cabea, de alto a baixo, uma prostituta. E
esta  a minha virtude: no enganar nem a mim, nem ao senhor. Porque no vale a pena, o
senhor no merece uma mentira. Imagine se o qumico famoso, ali no outro lado do
restaurante, descobrir quem sou?
Ela comeou a levantar a voz.
- Uma prostituta! E sabe o que mais? Isso me deixa livre, saber que vou embora desta
maldita terra daqui a exatos noventa dias, cheia de dinheiro, muito mais culta, capaz de
escolher um bom vinho, com a bolsa recheada de fotos que tirei na neve, e entendendo a
natureza dos homens!
A moa do bar escutava, assustada. O qumico parecia no prestar ateno. Mas
talvez fosse o lcool, talvez a sensao de que em breve seria de novo uma mulher do
interior, talvez a grande alegria de poder dizer em que trabalhava, e rir das reaes
chocadas, dos olhares de crtica, dos gestos de escndalo.
- Entendeu bem, Sr. Hart? De alto a baixo, dos ps  cabea, sou uma prostituta, e
essa  a minha qualidade, minha virtude!
Ele no disse nada. E no se moveu. Maria sentiu sua confiana voltando.
- E o senhor  um pintor que no entende de seus modelos. Talvez o qumico sentado
ali, distrado, dormindo, seja na verdade um ferrovirio. E todas as outras pessoas no seu
quadro sejam sempre aquilo que no so. Se no fosse assim, jamais diria que podia ver
uma "luz especial" em uma mulher que, como descobriu durante a pintura, NO PASSA
DE UMA PROS-TI-TU-TA!
As palavras finais foram pronunciadas lentamente, em voz alta. O qumico acordou, e
a moa do bar trouxe a conta.
- No tem nada a ver com a prostituta, mas com a mulher que voc . - Ralf ignorou a
conta, e respondeu tambm pausadamente, mas em voz baixa. - Tem brilho. A luz que vem
da fora de vontade, de algum que sacrifica coisas importantes, em nome de outras coisas
que julga mais importantes ainda. Os olhos, esta luz se manifesta nos olhos. Maria sentiu-se desarmada; ele no aceitara sua provocao. Quis acreditar que
desejava seduzi-Ia, nada mais. Estava proibida de pensar - pelo menos pelos prximos
noventa dias - que existem homens interessantes na face da terra.
- Voc est vendo este licor de anis diante de voc? - ele continuou. - Pois voc v
apenas um licor de anis. Eu, entretanto, como preciso entrar no que fao, vejo a planta de
onde nasceu, as tempestades que esta planta enfrentou, a mo que colheu os gros, a
viagem de navio de um outro continente at aqui, os cheiros e cores que esta planta, antes
de ser colocada no lcool, deixou que a tocassem e que fizessem parte dela. Se algum dia
eu pintasse esta cena, pintaria isso tudo, embora, ao ver o quadro, voc acreditasse que
estava diante de um simples copo de licor de anis.
"Da mesma maneira, enquanto voc olhava a rua e pensava - porque sei que pensava -
no Caminho de Santiago, eu pintei sua infncia, sua adolescncia, seus sonhos desfeitos no
passado, seus sonhos no futuro, sua vontade - que  o que mais me intriga. Quando voc
viu seu quadro..."
Maria abriu a guarda, sabendo que seria muito difcil fech- la adiante.
- Eu vi esta luz... embora ali estivesse apenas uma mulher parecida com voc.
De novo veio o silncio constrangedor. Maria olhou o relgio.
- Preciso ir dentro de poucos minutos. Por que voc disse que sexo  aborrecido?
- Voc deve saber melhor do que eu.
- Eu sei porque trabalho nisso. Ento fao a mesma coisa todos os dias. Mas voc 
um homem de trinta anos...
- Vinte e nove...
- ... Jovem, atraente, famoso, que devia ainda estar interessado nestas coisas, e no
precisava ir  Rue de Berne para arranjar companhia.
- Precisava sim. Fui para a cama com algumas de suas colegas, no porque tivesse
problemas para arranjar companhia. Meu problema  comigo mesmo.
Maria sentiu uma ponta de cime, e ficou apavorada. Entendia agora que realmente
precisava ir.
- Era minha ltima tentativa. Agora desisti - disse Ralf, comeando a juntar o material
espalhado pelo cho.
- Voc tem algum problema fsico?
- Nenhum. Apenas desinteresse.
No era possvel.
- Pague a conta. Vamos caminhar. Na verdade, acho que muita gente sente a mesma
coisa, e ningum diz;  bom conversar com algum to sincero.
Saram pelo Caminho de Santiago, era uma subida e uma descida que terminava no
rio, que terminava no lago, que terminava nas montanhas, que terminava em um remoto
lugar da Espanha. Passaram por gente que voltava do almoo, mes com seus carrinhos de
beb, turistas que tiravam fotos do belo jato de gua no meio do lago, mulheres
muulmanas com a cabea coberta por um leno, rapazes e moas fazendo jogging, todos
peregrinos em busca desta cidade mitolgica, Santiago de Compostela, que talvez nem
mesmo existisse, fosse uma lenda na qual as pessoas precisam acreditar para dar um sentido
a suas vidas. No caminho percorrido por tanta gente, h tanto tempo, tambm andavam
aquele homem de cabelos longos carregando uma pesada sacola cheia de pincis, tintas,
telas, lpis, e a moa um pouco mais jovem, com uma bolsa cheia de livros sobre
administrao de fazendas. A nenhum dos dois ocorreu perguntar por que faziam aquela
peregrinao juntos, era a coisa mais normal do mundo, ele sabia tudo sobre ela, embora ela
nada soubesse sobre ele. E por causa disso, resolveu perguntar - agora perguntava tudo. No comeo ele fez o
gnero modesto, mas ela sabia como conseguir qualquer coisa de um homem, e ele
terminou conta ndo que tinha sido casado duas vezes (recorde para vinte e nove anos!),
viajado muito, conhecido reis, atores famosos, festas inesquecveis. Nascera em Genve,
morara em Madri, Amsterdam, New York, e numa cidade no Sul da Frana, chamada
Tarbes, que no estava em nenhum circuito turstico importante, mas que ele adorava por
causa da proximidade das montanhas e do calor no corao de seus habitantes. Seu talento
fora descoberto quando tinha vinte anos, quando um grande negociante de arte fora comer,
por acaso, em um restaurante japons em sua cidade natal - decorado com seus trabalhos.
Ganhara muito dinheiro, era jovem e saudvel, podia fazer qualquer coisa, ir para qualquer
lugar, encontrar-se com quem desejasse, j vivera todos os prazeres que um homem pode
viver, fazia o que gostava, e, no entanto, apesar de tudo aquilo, fama, dinheiro, mulheres,
viagens, era um homem infeliz, que tinha apenas uma alegria na vida: o trabalho.
- As mulheres o fizeram sofrer? - perguntou ela, logo se dando conta de que era uma
pergunta idiota, provavelmente escrita em um manual sobre "Todas as coisas que as
mulheres devem saber para conquistar um homem".
- Nunca me fizeram sofrer. Fui muito feliz em cada um de meus casamentos. Fui
trado e tra como qualquer casal normal. Entretanto, depois de passado algum tempo, no
me interessava mais o sexo. Continuava amando, sentindo falta da companhia, mas o
sexo... por que estamos falando de sexo?
- Porque, como voc mesmo disse, eu sou uma prostituta.
- Minha vida no tem grande interesse. Um artista que conseguiu fazer sucesso ainda
jovem, o que  raro, e em pintura, o que  rarssimo. Que hoje em dia pode pintar qualquer
tipo de quadro, e valera .im bom dinheiro, embora os crticos fiquem furiosos, achando que
s eles sabem o que  "arte". Uma pessoa que todos acham ter resposta para tudo, e quanto
mais calado fico, mais inteligente me consideram.
Ele continuou a contar sua vida: todas as semanas era convidado para alguma coisa,
em algum lugar do mundo. Tinha uma agente que vivia em Ba rcelona - sabia onde era?
Sim, Maria sabia, era na Espanha. A tal agente se ocupava de tudo que se referia a dinheiro,
convites, exposies, mas jamais o pressionava para fazer o que no tivesse vontade, j que,
depois de muitos anos de trabalho, tinham conseguido uma certa estabilidade no mercado.
-  uma histria interessante? - sua voz denotava um pouco de insegurana.
- Eu diria que  uma histria muito diferente. Muita gente gostaria de estar na sua
pele.
Ralf quis saber de Maria.
- Eu sou trs, dependendo da pessoa que me procura. A Menina Ingnua, que fica
olhando o homem com admirao, e finge estar impressionada por suas histrias de poder e
de glria. A Mulher Fatal, que logo ataca aqueles que se sentem mais inseguros, e ao agir
assim, tomando o co ntrole da situao, os deixa mais  vontade, porque eles no precisam
se preocupar com mais nada.
"E, finalmente, a Me Compreensiva, que cuida dos que esto precisando de
conselhos e escuta, com um ar de quem compreende tudo, histrias que esto entrando por
um ouvido e saindo pelo outro. Qual das trs voc quer conhecer?"
- Voc.
Maria contou tudo, porque precisava contar - era a primeira vez que fazia isso, desde
que sara do Brasil. Ao final, descobriu que, mesmo com seu emprego no muito
convencional, nada acontecera de muito emocionante alm da semana no Rio, e do
primeiro ms na Sua. Era casa, trabalho, casa, trabalho e nada mais. Quando terminou, estavam de novo sentados em um bar desta vez do outro lado da
cidade, longe do Caminho de Santiago, cada qual pensando no que o destino havia
reservado para o outro.
- Est faltando alguma coisa? - perguntou ela.
- Como dizer "at logo".
Sim. Porque no tinha sido uma tarde como todas as outras. Ela sentia-se angustiada,
tensa, por ter aberto uma porta e n o saber como fech- la.
- Quando poderei ver a tela?
Ralf lhe estendeu o carto de sua agente em Barcelona.
- Telefone para ela daqui a seis meses, se ainda estiver na Europa. "As faces de
Genve", gente famosa e gente annima, ser exposta pela primeira ve z em uma galeria em
Berlim. Depois ir fazer um tour pela Europa.
Maria lembrou-se do calendrio, dos noventa dias que faltavam, de tudo que qualquer
relao, qualquer lao, poderia significar de perigoso.
"O que  mais importante nesta vida? Viver ou fingir que vivi? Arriscar agora, dizer
que foi a tarde mais bela que passei nesta cidade? Agradecer porque ele me escutou sem
crticas e sem comentrios? Ou simplesmente vestir a couraa da mulher com fora de
vontade, com luz especial, e partir sem nenhum comentrio?"
Enquanto andavam pelo Caminho de Santiago, e  medida que escutava a si mesma
contando sua vida, ela fora uma mulher feliz. Podia contentar-se com isso - j era um
grande presente da vida.
- Vou procur- la - disse Ralf Hart.
- No faa isso. Viajo em breve para o Brasil. No temos mais nada a acrescentar um
ao outro.
- Vou procur- la como um cliente.
- Isso ser uma humilhao para mim.
- Vou procur- la para que me salve.
Ele fizera aquele comentrio no incio, sobre o desinteresse por sexo. Quis dizer que
sentia a mesma coisa, mas controlou-se - tinha ido longe demais em suas negativas, era
mais inteligente ficar quieta.
Que coisa pattica. Mais uma vez estava ali com um menino, que desta vez no lhe
pedia um lpis, mas um pouco de companhia. Olho u para o seu passado e, pela primeira
vez, perdoou a si mesma: a culpa no fora dela, mas do garoto inseguro, que havia desistido
na primeira tentativa. Eram crianas, e as crianas agem assim - nem ela nem o menino
estavam errados, e isso lhe deu um grande alvio, sentiu-se melhor, no trara sua primeira
oportunidade na vida. Todos fazem isso,  parte da iniciao do ser humano em busca de
sua outra parte, coisas assim acontecem.
Entretanto, agora a situao era diferente. Por melhores que fossem as razes (vou
para o Brasil, trabalho em uma boate, no tivemos tempo de nos conhecer bem, no estou
interessada em sexo, no quero saber de amor, preciso aprender a administrar fazendas, no
entendo nada de pintura, vivemos em mundos diferentes), a vida lhe fazia um desafio. No
era mais criana, precisava escolher.
Preferiu no responder. Apertou a mo do pintor, como era o costume naquela terra, e
partiu em direo a sua casa. Se ele fosse mesmo o homem que gostaria que fosse, no se
deixaria intimidar por seu silncio.
Trecho do dirio de Maria, escrito naquele mesmo dia:
Hoje, enquanto andvamos em volta do lago, por este estranho Caminho de Santiago,
o homem que estava comigo - um pintor, uma vida diferente da manha jogou uma pedrinha na gua. No lugar onde a pedra caiu, apareceram pequenos crculos que foram
se
ampliando, expandindo, at atingirem um pato que passava por ali casualmente, e nada
tinha a ver com a pedra. Em vez de ficar assustado com a onda inesperada, ele resolveu
brincar com ela.
Algumas horas antes desta cena, eu entrei em um caf, escutei uma voz, e foi como se
Deus tivesse atirado uma pedrinha naquele lugar. As ondas de energia tocaram a mim e a
um homem que estava em um canto, pintando um quadro. Ele sentiu a vibrao da pedra,
eu tambm. E agora?
O pintor sabe quando encontra um modelo. O msico sabe quando o seu instrumento
est afinado. Aqui, neste meu dirio, eu tenho conscincia de que certas frases no so
escritas por mim, mas por uma mulher cheia de "luz"; que sou e me recuso a aceitar.
Posso continuar assam. Mas posso tambm, como 0 patinho no lago, divertir- me e
alegrar- me com a marola que chegou de repente e desequilibrou a gua.
Existe um nome para esta pedra: paixo. Ela pode descrever a beleza de um encontro
fulminante entre duas pessoas, mas no se limita a isso. Est na excitao do inesperado, na
vontade de fazer alguma coisa com fervor, na certeza de que se vai conseguir realizar um
sonho. A paixo nos d sinais que nos guiam a vida - e cabe a mira saber decifrar estes
sanais.
Gostaria de acreditar que estou apaixonada. Por algum que no conheo, e que no
estava nos meus planos. Todos estes meses de autocontrole, de recusado amor, resultaram
exatamente no oposto: deixar- me levar pela primeira pessoa que me deu uma ateno
diferente.
Ainda bem que no peguei seu telefone, que no sei onde mora, que posso perd-lo
sem me culpar por ter perdido a oportunidade.
E se for esse o caso, mesmo que j o tenha perdido, eu ganhei um dia feliz na minha
vida. Considerando o mundo como ele , um dia feliz  quase um milagre.
Quando entrou no Copacabana naquela noite, ele estava l, esperando. Era o nico
fregus. Milan, que acompanhava a vida daquela brasileira com uma certa curiosidade, viu
que a menina havia perdido a batalha. - Aceita um drink? - Preciso trabalhar. No posso
perder meu emprego. - Sou um cliente. Estou fazendo uma proposta profissional. Aquele
homem, que no caf durante a tarde parecia to seguro de si mesmo, que manejava bem o
pincel, encontrava grandes personagens, tinha uma agente em Barcelona, e devia ganhar
muito dinheiro, agora mostrava sua fragilidade, entrara no ambiente que no devia, no
estava mais em um romntico caf no Caminho de Santiago. O encanto da tarde
desapareceu.
- Ento, aceita o drink?
- Aceito outra hora. Hoje j tenho clientes que me esperam.
Milan escutou o final da frase; estava enganado, a menina no se deixara levar pela
armadilha das promessas de amor. Mesmo assim, no final de uma noite sem muito
movimento, ficou se perguntando por que ela havia preferido a companhia de um velho, de
um contador medocre e de um agente de seguros.
Bem, o problema era dela. Desde que pagasse a sua comisso, no cabia a ele decidir
com quem devia ou no ir para a cama.
Do dirio de Maria, aps a noite com o velho, o contador e o agente de seguros: O que este pintor quer de mim? No sabe que somos de pases, culturas, sexos
diferentes? Pensa que sei maus sobre o prazer do que ele, e quer aprender algo?
Por que no me disse nada alm de "sou um cliente"? Era to fcil dizer: "senti sua
falta", ou "adorei a tarde que passamos juntos". Eu responderia da mesma maneira (sou
uma profissional), mas ele tem obrigao de entender minhas inseguranas, porque sou
mulher, sou frgil, e naquele lugar sou uma outra pessoa.
Ele  um homem. E um artista: tem a obrigao de saber que o grande objetivo do ser
humano  compreender o amor total. O amor no est no outro, est dentro de ns mesmos;
ns o despertamos. Mas para este despertar, precisamos do outro. O universo s faz sentido
quando temos com quem dividir nossas emoes.
Ele est cansado de sexo? Eu tambm - e, no entanto, nem ele nem eu sabemos o que
 isso. Estamos deixando morrer uma das coisas mais importantes da vida -precisava ser
salva por ele, precisava salv- lo, mas ele no me deixou nenhuma escolha.
Estava apavorada. Comeava a perceber que, depois de tanto autocontrole, a presso,
o terremoto, o vulco de sua alma dava sinais de querer explodir, e a partir do momento em
que isso acontecesse, no teria mais como controlar seus sentimentos. Quem era aquela
droga de artista, que podia muito bem estar mentindo a respeito de sua vida, com quem
passara no mais que algumas horas, que no a tocara, no tentara seduzi- Ia podia haver
algo pior do que isso?
Por que seu corao dava sinais de alarme? Porque achava que ele sentia a mesma
coisa - mas, claro, estava muito enganada. Ralf Hart queria encontrar-se com a mulher
capaz de despertar o fogo que estava quase se apagando; queria transform- la em sua
grande deusa do sexo, com uma "luz especial" (e nisso ele fora sincero), pronta a pegar suas
mos e mostrar- lhe o caminho de volta  vida. No podia imaginar que Maria sentia o
mesmo desinteresse, tinha seus problemas (mesmo depois de tantos homens, no
conseguira seu orgasmo durante a penetrao), estivera fazendo planos aquela manh, e
organizara uma volta triunfante a sua terra.
Por que pensava nele? Por que pensava em algum que neste exato momento podia
estar pintando outra mulher, dizendo que tinha uma "luz" especial, que podia ser sua deusa
do sexo?
"Penso nele porque pude conversar."
Que ridculo! Pensava tambm na bibliotecria? No. Pensava em Nyah, a filipina,
nica de todas as mulheres do Copacabana com quem podia dividir um pouco de seus
sentimentos? No, no pensava. E eram pessoas com quem estivera muitas vezes, e com
quem se sentia  vontade.
Procurou desviar a ateno para o calor que estava fazendo, ou para o supermercado
que no conseguira visitar no dia anterior. Escreveu uma longa carta para seu pai, cheia de
detalhes a respeito do terreno que gostaria de comprar -isso deixaria sua famlia contente.
No marcou a data da volta, mas deu a entender que seria breve. Dormiu, acordou, dormiu
de novo, tornou a despertar. Descobriu que o livro sobre fazendas era muito bom para os
suos, mas no servia para os brasileiros - os mundos eram completamente distintos.
Durante a tarde, viu que o terremoto, o vulco, a presso diminua. Ficou mais
relaxada; este tipo de paixo sbita j tinha acontecido outras vezes, e terminava sempre no
dia seguinte - que bom, o seu universo continuava o mesmo. Tinha uma famlia que a
amava, um homem que a esperava, e que agora lhe escrevia com muita freqncia,
contando que a loja de tecidos estava crescendo. Mesmo que resolvesse pegar o avio
naquela noite, tinha dinheiro suficiente para pelo menos comprar um stio. Ultrapassara a
pior parte, a barreira da lngua, a solido, o primeiro dia no restaurante com o rabe, a maneira como convencera sua alma a no reclamar do que fazia com seu corpo.
Sabia
muito bem qual o seu sonho, e estava disposta a tudo por ele. E este sonho no inclua
homens, por sinal. Pelo menos, no inclua homens que no falassem sua lngua materna, e
que no vivessem em sua cidade.
Quando o terremoto acalmou, Maria entende u que parte da culpa era sua. Porque no
dissera, naquele momento: "Eu estou sozinha, sou to miservel quanto voc, ontem voc
viu minha `luz', e foi a primeira coisa bonita e sincera que um homem me disse desde que
cheguei aqui."
No rdio tocava uma velha cano: "Meus amores morrem antes mesmo de nascer."
Sim, este era o seu caso, seu destino.
Trecho do dirio de Maria, dois dias depois de tudo voltar ao normal:
A paixo faz a pessoa parar de comer, dormis trabalhar, estar em paz. Muita gente
fica assustada porque, quando aparece, derruba todas as coisas velhas que encontra.
Ningum quer desorganizar seu mundo. Por isso, muita gente consegue controlar esta
ameaa, e so capazes de manter de p uma casa ou uma estrutura que j est podre. So os
engenheiros das coisas superadas.
Outras pessoas pensam exatamente o contrrio: entregam- se sem pensar, esperando
encontrar na paixo as solues para todos os seus problemas. Colocam na outra pessoa
toda a responsabilidade por sua felicidade, e toda culpa por sua possvel infelicidade. Esto
sempre eufricas porque algo de maravilhoso aconteceu, ou deprimidas porque algo que
no esperavam terminou destruindo tudo.
Afastar-se da paixo, ou entregar-se cegamente a ela - qual destas duas atitudes  a
menos destruidora?
No sei.
No terceiro dia, como ressuscitando dos mortos, Ralf Hart voltou - e quase chega um
pouco tarde, porque Maria j estava conversando com outro fregus. Quando o viu, porm,
ela disse educadamente ao outro que no queria danar, estava esperando algum.
S ento se deu conta de que esperara por ele todos estes dias. E neste momento,
aceitou tudo que o destino colocara em seu caminho.
No reclamou; ficou contente, podia dar-se a este luxo, porque um dia iria partir
daquela cidade, sabia que este amor era impossvel e, portanto, j que no esperava nada,
teria tudo que ainda esperava daquela etapa de sua vida.
Ralf perguntou se ela queria um drink, e Maria pediu um coquetel de frutas. O dono
do bar, fingindo que lavava copos, olhou para a brasileira sem entender nada: o que a teria
feito mudar de idia? Esperava que no ficasse ali apenas tomando a bebida, e ficou
aliviado quando ele a tirou para danar. Estavam cumprindo o ritual, no havia motivo para
preocupaes.
Maria sentia a mo em volta de sua cintura, o rosto colado, o som muito alto que -
graas a Deus - impedia qualquer conversa. Um coquetel de frutas no bastava para tomar
coragem, e as poucas palavras que tinham trocado foram muito formais. Agora era uma
questo de tempo: iriam para um hotel? Fariam amor? No devia ser difcil, j que ele havia
dito que no se interessava por sexo, agora era apenas uma questo de cumprir seu
compromisso profissional. Isso ajudaria a matar qualquer vestgio de uma possvel paixo -
no sabia por que havia se torturado tanto logo aps o primeiro encontro.
Esta noite seria a Me Compreensiva. Ralf Hart era apenas um homem desesperado,
como milhes de outros. Se desempenhasse bem o seu papel, se conseguisse seguir o
roteiro que havia estabelecido para si mesma desde que comeara a trabalhar no Copacabana, no teria com o que se preocupar. Era muito arriscado ter aquele homem
por
perto, agora que sentia seu cheiro - e gostava -, experimentava seu toque - e gostava -,
descobrira-se esperando por ele - e no gostava.
Em quarenta e cinco minutos j tinham cumprido todas as regras, e o homem se
dirigira ao dono da boate:
"Vou lev- la para o resto da noite. Pagarei como se fossem trs clientes."
O dono deu de ombros, e pensou de novo que a moa brasileira ia terminar caindo na
armadilha do amor. Maria, por seu lado, ficou surpresa: no sabia que Ralf Hart conhecia
to bem as regras.
- Vamos at minha casa.
Talvez essa fosse mesmo a melhor deciso, pensou ela. Embora fosse contra todas as
recomendaes de Milan, neste caso resolveu abrir uma exceo. Alm de descobrir de
uma vez por todas se era ou no casado, conheceria a maneira de viver dos pintores
famosos, e um dia poderia escrever qualquer coisa para o jornal de sua pequena cidade - de
modo que todos ficassem sabendo que, durante seu perodo na Europa, ela freqentara
crculos intelectuais e artsticos.
"Que desculpa absurda."
Meia hora depois chegaram a um pequeno vilarejo prximo de Genve, chamado
Cologny; uma igreja, a padaria, a prefeitura, tudo em seu lugar. E era realmente uma casa
de dois andares, no um apartamento! Primeira avaliao: devia ter mesmo dinheiro.
Segunda avaliao: se fosse casado, no ousaria fazer aquilo, porque sempre havia gente
olhando.
Ento, era rico e solteiro.
Entraram por um hall com uma escada que levava ao segundo andar, mas seguiram
direto, at as duas salas na parte de trs, que davam para um jardim. Uma delas tinha uma
mesa de jantar, e as paredes eram cobertas de quadros. A outra sala tinha alguns sofs,
cadeiras, estantes cheias de livros, cinzeiros sujos, copos que tinham sido usados havia
muito tempo e que ainda permaneciam ali.
- Posso preparar um caf.
Maria fez um sinal negativo com a cabea. No, no pode preparar um caf. Ainda
no pode me tratar diferente. Estou desafiando meus prprios demnios, fazendo
exatamente tudo ao contrrio do que prometi a mim mesma. Mas vamos com calma; hoje
farei o papel de prostituta, ou de amiga, ou de Me Compreensiva, embora na minha alma
eu seja uma Filha que precisa de carinho. Finalmente, quando tudo estiver terminado, voc
pode me preparar um caf.
- No fundo do jardim est meu estdio, minha alma. Aqui, entre todos estes quadros e
livros, est meu crebro, o que penso.
Maria pensou em sua prpria casa. No tinha um jardim no fundo. Nem livros, apenas
os emprestados da biblioteca, j que no havia necessidade de gastar dinheiro com o que
podia conseguir de graa. Tampouco havia quadros, apenas um pster do Circo Acrobtico
de Shanghai, a que ela sonhava assistir.
Ralf pegou uma garrafa de usque e lhe ofereceu.
- No, obrigada.
Ele serviu-se uma dose, e virou tudo - sem gelo, sem tempo. Comeou a falar coisas
inteligentes, e por mais que a conversa lhe interessasse, ela sabia que aquele homem estava
com medo do que ia acontecer, agora que es tavam sozinhos. Maria recuperava o controle
da situao. Ralf serviu outra dose a si mesmo, e como se estivesse dizendo alguma coisa sem
importncia, comentou:
- Preciso de voc.
Uma pausa. Um silncio longo. No ajude a quebrar este silncio, vamos ver como
ele continua.
- Preciso de voc, Maria. Voc tem luz, embora ache que ainda no acredita em mim,
ache que estou apenas tentando seduzi-Ia com esta conversa. No me pergunte: "Por que
eu? O que tenho de especial?" Voc no tem nada de especial, nada que eu possa explicar a
mim mesmo. Entretanto - eis o mistrio da vida -no consigo pensar em outra coisa.
- No iria lhe perguntar isso - mentiu.
- Se eu procurasse uma explicao, diria: a mulher que est diante de mim conseguiu
superar o sofrimento e transform- lo em algo positivo, criativo. Mas isso no basta para
explicar tudo.
Estava ficando difcil escapar. Ele continuou:
- E eu? Com toda a minha criatividade, com meus quadros que so disputados e
desejados por galerias em todo o mundo, com o meu sonho realizado, com a minha aldeia
sabendo que sou um filho querido, com as minhas mulheres jamais me cobrando penso ou
coisas assim, com sade, boa aparncia, tudo que um homem pode sonhar, e eu? Aqui
estou, dizendo para uma mulher que encontrei em um caf, e com quem passei apenas uma
tarde: "preciso de voc". Sabe o que  solido?
- Sei o que .
-Mas no sabe o que  solido quando se tem a possibilidade de estar com todo
mundo, quando se recebe todas as noites um convite para uma festa, um coquetel, uma
estria de teatro. Quando o telefone toca sempre, e so mulheres que adoram o seu trabalho,
que dizem que gostariam muito de jantar com voc - so belas, inteligentes, educadas. E
algo o empurra para longe e diz: no v. Voc no vai se divertir. Mais uma vez voc ficar
a noite inteira tentando impression - las, gastar sua energia provando para si mesmo como
 capaz de seduzir o mundo.
"Ento fico em casa, entro em meu estdio, procuro a luz que vi em voc, e s
consigo ver esta luz enquanto estou trabalhando."
- O que posso lhe dar que voc j no tenha? - respondeu ela, sentindo-se um pouco
humilhada por aquele comentrio sobre outras mulheres, mas lembrando-se de que, afinal
de contas, ele tinha pagado para t- la ao seu lado.
Ele bebeu a terceira dose. Maria acompanhou-o em sua imaginao, o lcool
queimando sua garganta, seu estmago, entrando em sua corrente sangnea e enchendo-o
de coragem, e ela sentindo-se tambm embriagada, embora no tivesse bebido uma s gota.
A voz de Ralf Hart soou mais firme.
- Est bem. No posso comprar seu amor, mas voc disse que conhecia tudo sobre
sexo. Ensine- me, ento. Ou me ensine algo sobre o Brasil. Qualquer coisa, desde que possa
estar ao seu lado.
E agora?
- S conheo duas cidades do meu pas: a cidade em que nasci, e o Rio de janeiro.
Quanto ao sexo, no acredito que possa lhe ensinar nada. Tenho quase 23 anos, voc 
apenas seis anos mais velho, mas sei que viveu muito mais intensamente. Conheo homens
que me pagam para fazer o que eles querem, e no o que eu quero.
- J fiz tudo que um homem pode sonhar fazer com uma, duas, trs mulheres ao
mesmo tempo. E no sei se aprendi muito. De novo o silncio, s que era a vez de Maria falar. E ele no ajudou - como ela no o
ajudara antes.
- Voc me quer como uma profissional?
- Eu a quero como voc quiser.
No, ele no podia ter respondido isso, porque era tudo que ela desejava escutar. De
novo o terremoto, o vulco, a tempestade. Ia ser impossvel escapar de sua prpria
armadilha, ia perder este homem, sem jamais o ter verdadeiramente.
- Voc sabe, Maria. Ensine-me. Talvez isso me salve, a salve, nos traga de volta 
vida. Tem razo, tenho apenas mais seis anos do que voc, e mesmo assim j vivi o
equivalente a muitas vidas. Passamos por experincias completamente distintas, mas
estamos ambos desesperados. A nica coisa que nos deixa em paz  estarmos juntos.
Por que ele dizia estas coisas? No era possvel, e mesmo assim era verdade. Tinham
se visto apenas uma vez e j precisavam um do outro. Imagine se continuassem se
encontrando, que desastre! Maria era uma mulher inteligente, com muitos meses de leituras
e observao do gnero humano; tinha um propsito na vida, mas tambm tinha uma alma,
que precisava conhecer e cuja "luz" tinha que descobrir.
J estava ficando cansada de ser quem era, e embora a viagem prxima para o Brasil
fosse um desafio interessante, ainda no aprendera tudo que podia. Ralf Hart era um
homem que havia aceitado desafios, aprendera tudo, e agora pedia quela moa, quela
prostituta, quela Me Compreensiva, que o salvasse. Que absurdo!
Outros homens j haviam se comportado da mesma maneira diante dela. Muitos no
tinham conseguido ter uma ereo, outros queriam ser tratados como crianas, outros ainda
diziam que gostariam de t-la como esposa porque se excitavam ao saber que a mulher
tivera muitos amantes. Embora ainda no tivesse conhecido nenhum dos "clientes
especiais", j descobrira o gigantesco universo de fantasias que habitava a alma humana.
Mas todos estavam acostumados com seus mundos, e nunca lhe haviam pedido "leve-me
embora daqui". Pelo contrrio, queriam carregar Maria consigo.
E mesmo que todos estes muitos homens sempre lhe tivessem deixado com algum
dinheiro e sem nenhuma energia, no era possvel que ela no tivesse aprendido nada.
Entretanto, se algum deles realmente estivesse procurando o amor, e se o sexo fosse apenas
uma parte nesta busca, como ela gostaria de ser tratada? O que seria importante acontecer
no primeiro encontro?
O que realmente gostaria que acontecesse?
- Ganhar um presente - disse Maria.
Ralf Hart no entendeu. Presente? Ele j lhe pagara adiantado pela noite, no txi,
porque conhecia o ritual. O que queria dizer com aquilo?
Maria de repente se dera conta de que entendia, naquele minuto, o que uma mulher e
um homem precisavam sentir. Pegou-o pelas mos e o conduziu at uma das salas.
- No vamos subir para o quarto - disse.
Apagou quase todas as luzes, sentou-se no tapete e pediu que ele se sentasse diante
dela. Notou que havia uma lareira no lugar.
- Acenda a lareira.
- Mas estamos no vero.
- Pois saiba que a pessoa que est com voc tem que existir. Pense nela. Pense se ela
deseja usque, ou gim, ou caf. Pergunte o que ela quer.
- O que voc quer beber?
- Vinho. E gostaria que me acompanhasse. Ele deixou a garrafa de usque, e voltou com uma de vinho. A esta altura, o fogo j
queimava as toras; Maria apagou as poucas luzes que tinham ficado acesas, deixando que
apenas as chamas iluminassem o ambiente. Comportava -se como sempre tivesse sabido que
aquele era o primeiro passo: reconhecer o outro, saber que est ali.
Abriu a bolsa e achou l dentro uma caneta que comprara em um supermercado.
Qualquer coisa servia.
- Isso  para voc. Quando comprei, pensava em ter algo para anotar as idias sobre
administrao de fazendas. Usei-a durante dois dias, trabalhei at ficar cansada. Ela tem um
pouco do meu suor, da minha concentrao, da minha vontade, e eu a estou lhe entregando
agora.
Depositou a caneta suavemente na mo de Ralf.
- Em vez de comprar- lhe algo que voc gostaria de ter, estou lhe dando algo que 
meu, realmente meu. Um presente. Um sinal de respeito pela pessoa diante de mim,
pedindo que ela compreenda o quanto  importante estar ao seu lado. Agora ela tem
consigo uma pequena parte de mim mesma, que entreguei de livre e espontnea vontade.
Ralf levantou-se, foi at a estante e voltou com um objeto.
Estendeu-o para Maria:
- Este  um vago de um trem eltrico que eu tinha quando era menino. No tinha
autorizao para brincar com ele sozinho, porque meu pai dizia que era caro, importado dos
Estados Unidos. Ento, s me restava esperar que ele tivesse vontade de montar o trem no
meio da sala, mas geralmente ele passava os domingos escutando pera. Por isso, o trem
sobreviveu  minha infncia, mas no me deu nenhuma alegria. L em cima tenho guardado
todos os trilhos, a locomotiva, as casas, at mesmo 0 manual; porque eu tinha um trem que
no era meu, com o qual eu no brincava.
"Oxal tivesse sido destrudo como todos os outros brinquedos que ganhei e de que
nem me lembro, porque esta paixo de destruir faz parte da maneira como a criana
descobre o mundo. Mas este trem intacto me lembra sempre uma parte da minha infncia
que eu no vivi, porque era preciosa demais, ou trabalhosa demais para o meu pai. Ou
talvez porque, cada vez que montava o trem, tivesse medo de demonstrar seu amor por
mim."
Maria comeou a olhar fixamente o fogo na lareira. Algo estava acontecendo - e no
era o vinho, nem o ambiente acolhedor. Era a entrega de presentes.
Ralf tambm se virou para o fogo. Ficaram calados, escutando o crepitar das chamas.
Beberam vinho, como seno fosse importante dizer nada, falar nada, fazer nada. Apenas
estar ali, um com o outro, olhando na mesma direo.
-Tenho muitos trens intactos na minha vida -disse Maria, depois de um tempo. - Um
deles  o meu corao. Tambm s brincava com ele quando o mundo colocava os trilhos, e
nem sempre era o momento certo.
- Mas voc amou.
-Sim, eu amei. Eu amei muito. Eu amei tanto que, quando o meu amor me pediu um
presente, eu tive medo e fugi.
- No entendo.
- No precisa. Estou lhe ensinando, porque descobri algo que no sabia. O presente. A
entrega de alguma coisa que  sua. Dar antes de pedir algo que seja importante. Voc tem
meu tesouro: a caneta com que escrevi alguns de meus sonhos. Eu tenho seu tesouro: o
vago de trem, parte da infncia que voc no viveu.
"Eu agora carrego comigo parte do seu passado, e voc guarda consigo um pouco do
meu presente. Que bom." Disse tudo isso sem pestanejar, sem estranhar seu comportamento, como se soubesse
havia muito tempo que esta era a melhor e nica maneira de agir. Levantou-se com
suavidade, pegou seu casaco no cabide, e deu- lhe um beijo no rosto. Ralf Hart, em nenhum
momento, fez meno alguma de levantar-se de onde estava, hipnotizado pelo fogo,
possivelmente pensando em seu pai.
- Nunca entendi direito por que guardava esse vago. Hoje ficou claro: para entregarlhe
em uma noite de lareira acesa. Agora esta casa fica mais leve.
Ele disse que, no dia seguinte, iria doar o resto dos trilhos, locomotivas, pastilhas que
imitavam fumaa, a algum asilo.
- Talvez hoje este trem seja uma raridade que no se fabrica mais e valha muito
dinheiro - advertiu Maria, para logo se arrepender. No se tratava disso, mas de livrar-se de
algo que custa ainda mais caro ao nosso corao.
Antes que tornasse a dizer coisas que no combinavam com o momento, tornou a darlhe
um beijo no rosto e dirigiu-se at a porta. Ele ainda continuava olhando o fogo, e ela
pediu, delicadamente, que viesse abri-Ia.
Ralf levantou-se e ela explicou que, embora estivesse contente de v-lo olhando o
fogo, os brasileiros tm uma estranha superstio: quando visitam algum pela primeira
vez, no podem abrir a porta na hora da sada, porque se fizerem isso, jamais retornaro
quela casa.
- E eu quero voltar.
- Embora no tenhamos tirado a roupa e eu no tenha entrado em voc, nem sequer a
tenha tocado, ns fizemos amor.
Ela riu. Ele ofereceu-se para lev-la em casa, mas Maria
recusou.
- Irei v-Ia amanh, no Copacabana.
- No faa isso. Espere uma semana. Aprendi que esperar  a parte mais difcil, e
quero tambm me acostumar com isso; saber que voc est comigo, mesmo que no esteja
ao meu lado.
Andou de novo pelo frio e pela escurido da noite, como j tinha feito tantas vezes em
Genve; normalmente estas caminhadas estavam associadas a tristeza, solido, vontade de
voltar para o Brasil, saudades da lngua que no falava havia muito tempo, clculos
financeiros, horrios.
Hoje, porm, caminhava para encontrar a si mesma, encontrar aquela mulhe r que,
durante quarenta minutos esteve diante do fogo com um homem, e era cheia de luz, de
sabedoria, de experincia, de encanto. Vira o rosto desta mulher fazia algum tempo, quando
passeava pelo lago pensando se devia ou no se dedicar a uma vida que no era a sua -
naquela tarde, sorrira de um jeito muito triste. Vira seu rosto pela segunda vez em uma tela
dobrada, e agora sentia de novo a sua presena. S apanhou um txi depois de muito tempo,
ao ver que aquela presena mgica fora embora e a abandonara como sempre.
Melhor ento no pensar no assunto para no estrag-lo, para no deixar que a
ansiedade substitusse tudo de bom que acabara de viver. Se aquela outra Maria existia
mesmo, ela voltaria no momento certo.
Trecho do dirio de Maria escrito na noite em que ganhou o vago de trem:
O desejo profundo, o desejo mais real  aquele de aproximar-se de algum. A partir
da, comeam a ocorrer as reaes, o homem e a mulher entram em Jogo, mas o que
acontece antes - a atrao que os juntou -  impossvel de explicar.  o desejo intocado, em
seu estado puro. Quando o desejo ainda est neste estado puro, homem e mulher se apaixonam pela
vida, vivem cada momento com reverncia, e conscientemente, sempre esperando o
momento certo de celebrar a prxima bno.
Pessoas assim no tm pressa, no precipitam os acontecimentos com aes
inconscientes. Elas sabem que o inevitvel se manifestar, que o verdadeiro sempre
encontra uma maneira de mostrar-se. Quando chega o momento, elas no hesitam, no
perdem uma oportunidade, no deixam passar nenhum momento mgico porque respeitam
a importncia de cada segundo.
Nos dias que se seguiram, Maria descobriu-se de novo presa na armadilha que tanto
evitara - mas no estava triste nem preocupada com isso. Pelo contrrio: j que no tinha
mais nada a perder, estava livre.
Sabia que, por mais romntica que fosse a situao, um dia Ralf Hart iria
compreender que ela no passava de uma prostituta, enquanto ele era um respeitado artista.
Que ela morava em um pas distante, sempre em crises, enquanto ele vivia no paraso, com
a vida organizada e protegida desde o nascimento. Ele fora educado freqentando os
melhores colgios e museus do mundo, enquanto ela mal terminara o curso secundrio.
Enfim, sonhos como esses no duram muito, e Maria j vivera o bastante para entender que
a realidade no combinava com seus sonhos. Essa era agora sua grande alegria: dizer 
realidade que no precisava dela, no dependia das coisas que aconteciam para ser feliz.
"Como sou romntica, meu Deus."
Durante a semana tentou descobrir algo que pudesse deixar Ralf Hart feliz; ele lhe
havia devolvido uma dignidade e uma "luz" que ela julgava perdidas para sempre. Mas a
nica forma de retribu-lo era atravs do que ele julgava ser a especialidade de Maria: sexo.
Como as coisas no variavam muito na rotina do Copacabana, ela resolveu procurar outras
fontes.
Foi assistir a alguns filmes pornogrficos, e de novo no encontrou nada interessante -
exceto, talvez, por alguma variao quanto ao nmero de parceiros. Como os filmes no
ajudavam muito, pela primeira vez desde que chegara em Genve decidiu comprar livros,
embora ainda achasse que era muito mais prtico no precisar ocupar o espao de sua casa
com algo que, uma vez lido, no tinha mais uso. Foi at uma livraria que vira enquanto
andava com Ralf pelo Caminho de Santiago, e procurou saber se tinham alguma coisa sobre
o tema.
- Muita, muita coisa - respondeu a moa encarregada de vendas. - Na verdade, as
pessoas parecem se preocupar apenas com isso. Alm de uma seo especial, tambm em
todos os romances que voc est vendo a sua volta existe pelo menos uma cena de sexo.
Mesmo que esteja escondido em lindas histrias de amor, ou em tratados srios sobre o
comportamento do ser humano, o fato  que as pessoas s pe nsam nisso.
Maria, com toda a sua experincia, sabia que a moa estava enganada: as pessoas
queriam pensar assim, porque achavam que o mundo inteiro s se preocupava com este
tema. Faziam regimes, usavam perucas, ficavam horas no cabeleireiro ou em academias de
ginstica, vestiam roupas insinuantes, tentavam provocar a centelha desejada - e da?
Quando chegava a hora de ir para a cama, onze minutos e pronto. Nenhuma criatividade,
nada que levasse ao paraso; em pouco tempo, a centelha j no tinha mais fora para
manter o fogo aceso. Mas era intil discutir com a moa loura, que julgava que o mundo pode ser explicado
em livros. Perguntou de novo onde estava a seo especial, e ali encontrou vrios ttulos
sobre gays, lsbicas, freiras que revelavam coisas escabrosas sobre a igreja, livros
ilustrados com tcnicas orientais, mostrando posies muito desconfortveis. Apenas um
dos volumes a interessou: O sexo sagrado. Pelo menos esse devia ser diferente.
Comprou-o, foi para casa, colocou o rdio em uma estao que sempre a ajudava a
pensar (porque as msicas eram calmas), abriu o livro, notou que tinha vrias ilustraes,
com posturas que s mesmo quem trabalha em circo pode conseguir praticar. O texto era
aborrecido.
Maria aprendera o suficiente em sua profisso para saber que nem tudo na vida era
uma questo da posio na qual voc se coloca enquanto est fazendo amor, e na maior
parte das vezes qualquer variao acontecia de maneira natural, sem pensar, como os
passos de uma dana. Mesmo assim, tentou concentrar-se no que lia.
Duas horas depois, deu-se conta de duas coisas.
A primeira, que precisava jantar logo, pois devia retornar ao Copacabana.
A segunda, que a pessoa que escrevera aquele livro no entendia nada, NADA do
assunto. Muita teoria, coisas orientais, rituais inteis, sugestes idiotas. Via-se que o autor
tinha meditado no Himalaia (precisava saber onde ficava esse lugar), freqentado cursos de
yoga (j tinha ouvido falar), lido muito sobre o assunto, pois citava um e outro autor, mas
no tinha aprend ido o essencial. Sexo no era teoria, incenso queimando, pontos de toque,
reverncias e salamaleques. Como aquela pessoa (na verdade, uma mulher) ousava escrever
sobre um tema que nem Maria, que trabalhava na rea, conhecia direito? Talvez fosse culpa
do Himalaia, ou da necessidade de complicar algo cuja beleza est na simplicidade e na
paixo. Se aquela mulher fora capaz de publicar e vender um livro to estpido, era melhor
que ela voltasse a pensar seriamente em seu texto, Onze minutos. No seria cnico nem
falso - seria apenas sua histria, nada mais.
Mas no tinha nem tempo, nem interesse; precisava concentrar sua energia para
deixar Ralf Hart alegre, e para aprender como administrar fazendas.
Texto do dirio de Maria, logo depois de deixar o aborreci do livro de lado:
Eu encontrei um homem, e me apaixonei por ele. Deixei- me apaixonar por uma
simples razo: no espero nada. Sei que em trs meses estarei longe, ele ser uma
lembrana, mas no podia agentar mais viver sem amor; estava no meu limite.
Estou escrevendo uma histria para Ralf Hart este  o seu nome. No estou certa se
ele voltar  boate onde trabalho, mas pela primeira vez na minha vida isso no faz a menor
diferena.  suficiente am- lo, estar com ele em meu pensamento, e colorir esta cidade to
bela com seus passos, suas palavras, seu carinho. Quando eu deixar este pas, ele ter um
rosto, um nome, a lembrana de uma lareira. Tudo o mais que vivi aqui; todas as coisas
duras pelas quais passei, no ser nada perto desta lembrana.
Gostaria de poder fazer por ele o que ele fez por mim. Estive pensando muito, e
descobri que no entrei naquele caf por acaso; os encontros mais importantes j foram
combinados pelas almas antes mesmo que os corpos se veiam.
Geralmente estes encontros acontecem qua ndo chegamos a um limite, quando
precisamos morrer e renascer emocionalmente. Os encontros nos esperam mas a maior
parte das vezes evitamos que eles aconteam. Entretanto, se estamos desesperados, se j
no temos mais nada a perder, ou se estamos muito entusiasmados com a vida, ento o
desconhecido se manifesta, e nosso universo muda de rumo.
Todos sabem amar, pois j nasceram com este dom. Algumas pessoas j o praticam
naturalmente bem, mas a maioria tem que aprender de novo, relembrar como se ama, e
todos - sem exceo - precisam queimar na fogueira de suas emoes passadas, reviver
algumas alegrias e dores, quedas e recuperao, at conseguir enxergar o fio condutor que
existe por trs de cada novo encontro; sim, existe um fio.
E ento, os corpos aprendem a falar a linguagem da alma, isso se chama sexo,  isso
que eu posso dar ao homem que me devolveu a alma, embora ele desconhea totalmente
sua importncia na minha vida. Isso foi o que ele me pediu, e isso ele ter; quero que seja
muito feliz.
A vida  s vezes muito avara: a pessoa passa dias, semanas, meses e anos sem sentir
nada de novo. Entretanto, uma vez que abre uma porta - e esse foi o caso de Maria com
Ralf Hart -, uma verdadeira avalanche entra pelo espao aberto. Em um momento voc no
tem nada, no momento seguinte tem mais do que consegue aceitar.
Duas horas depois de ter escrito em seu dirio, quando chegou ao trabalho, foi
procurada por Milan, o dono:
- Ento, voc saiu com o tal pintor.
Ele devia ser conhecido da casa - ela compreendera isso quando vira Ralf pagar por
trs clientes, a quantia certa, sem perguntar o preo. Maria apenas fez que "sim" com a
cabea, procurando criar um certo mistrio, para o qual Milan no deu a menor
importncia, j que conhecia aquela vida melhor que ela.
- Talvez j esteja preparada para um prximo passo. Existe um cliente especial que
tem sempre perguntado por voc. Eu digo que no tem experincia, e ele acredita em mim;
mas talvez agora seja hora de tentar.
Cliente especial?
- E o que tem isso a ver com o pintor?
- Tambm  um cliente especial.
Ento tudo o que tinha feito com Ralf Hart j devia ter sido experimentado e feito por
outra de suas colegas. Mordeu o lbio, e no disse nada - tinha passado uma bela semana,
no podia se esquecer do que escrevera.
- Devo fazer a mesma coisa que fiz com ele?
- No sei o que fizeram; mas hoje, se algum lhe oferecer um drink, no aceite. Os
clientes especiais pagam melhor, e voc no ir se arrepender.
O trabalho comeou como de costume. As tailandesas sempre sentando juntas, as
colombianas com o mesmo ar de quem entende de tudo, as trs brasileiras (incluindo
Maria) fingindo um ar distrado, como se nada daquilo fosse novo ou interessante. Havia
uma austraca, duas alems, e o resto do elenco era composto de mulheres do antigo Leste
Europeu, todas altas, de olhos claros, lindas, e que terminavam casando mais rpido que as
outras.
Os homens entraram - russos, suos, alemes, sempre executivos ocupados, capazes
de pagar pelos servios das prostitutas mais caras de uma das cidades mais caras do mundo.
Alguns se dirigiram a sua mesa, mas ela sempre olhava para Milan, e ele fazia um sinal
negativo. Maria estava contente: no teria que abrir as pernas aquela noite, agentar
cheiros, tomar duchas em banheiros nem sempre aquecid os, tudo que precisava era ensinar
a um homem, j cansado de sexo, como devia fazer amor. E agora, pensando bem, no era
qualquer mulher que teria a mesma criatividade para inventar a histria do presente. Ao mesmo tempo se perguntava: "Por que ser que, depois de terem experimentado
tudo, querem mesmo voltar ao princpio?" Enfim, isso no era da sua conta; desde que
pagassem bem, ela estava ali para servi- los.
Um homem mais jovem que Ralf Hart entrou; bonito, cabelos negros, dentes
perfeitos, e um terno que lembrava os chineses - sem gravata, apenas com uma gola alta -e
impecvel camisa branca por baixo. Dirigiu-se at o bar, olhou para Maria, e ele
se aproximou:
- Aceita um drink?
Milan fez que sim com a cabea, e ela convidou-o para sentar em sua mesa. Pediu seu
coquetel de frutas, e estava esperando o convite para danar, quando o homem se
apresentou:
- Meu nome  Terence, e trabalho em uma companhia de discos na Inglaterra. Como
sei que estou em um lugar onde posso confiar nas pessoas, penso que isso ir ficar entre
ns.
Maria ia comear a falar do Brasil, quando ele a interrompeu:
- Milan disse que voc entende o que eu quero.
- No sei o que voc quer. Mas entendo do que fao.
O ritual no foi cumprido; ele pagou a conta, pegou-a pelo brao, e lhe estendeu mil
francos. Por um momento, no txi, ela lembrou-se do rabe com quem tinha ido jantar no
restaurante cheio de pinturas famosas; era a primeira vez que voltava a receber a mesma
quantia, e, em vez de ficar contente, isso a deixou nervosa.
O txi parou em um dos hotis mais caros da cidade. O homem disse boa-noite ao
porteiro, demonstrando uma imensa familiaridade com o local. Subiram direto ao seu
quarto, uma sute com vista para o rio. Ele abriu uma garrafa de vinho - possivelmente
muito raro - e lhe ofereceu uma taa.
Maria olhava-o enquanto bebia; o que um homem como ele, rico, bonito, desejava de
uma prostituta? Como ele quase no falava, ela tambm permaneceu a maior parte do
tempo em silncio, procurando descobrir o que podia deixar um cliente especial satisfeito.
Entendeu que no devia tomar a iniciativa, mas uma vez que o processo comeasse,
pretendia acompanh- lo com a velocidade que fosse necessria; afinal de contas, no era
toda noite que ganhava mil francos.
- Temos tempo - disse Terence. - Todo o tempo que quisermos. Pode dormir aqui, se
assim desejar.
A insegurana voltou. O homem no parecia intimidado, e falava com uma voz
calma, diferente de todos os outros. Sabia o que desejava; colocou uma msica perfeita, na
altura perfeita, no quarto perfeito, com a janela perfeita, que dava para o lago de uma
cidade perfeita. Seu terno era bem cortado, a mala estava em um canto, pequena, como se
no precisasse de muita coisa para viajar - ou como se tivesse vindo a Genve apenas por
aquela noite.
- Vou dormir em casa - respondeu Maria.
O homem  sua frente mudou por completo. Seus olhos de cavalheiro ganharam um
brilho frio, glacial.
- Sente-se ali - disse, apontando para uma cadeira ao lado da escrivaninha.
Era uma ordem! Uma verdadeira ordem. Maria obedeceu e, estranhamente, aquilo a
excitou.
- Sente-se direito. Estique as costas, como uma mulher de classe. Se no fizer isso,
vou castig - la. Castigar! Cliente especial! Em um minuto ela entendeu tudo, tirou os mil francos da
bolsa e colocou-os na escrivaninha.
- Eu sei o que voc quer - disse, olhando para o fundo daqueles gelados olhos azuis. -
E no estou disposta.
O homem pareceu voltar ao normal, e viu que ela falava a verdade.
- Tome seu vinho - disse. - No vou for- la a nada. Pode ficar mais um pouco, ou
pode sair se quiser.
Aquilo a deixou mais tranqila.
- Tenho um emprego. Tenho um patro que me protege e acredita em mim. Por favor,
no comente nada com ele.
Maria disse isso sem nenhum tom de autopiedade, sem implorar nada - era
simplesmente a realidade de sua vida.
Terence tambm voltara a ser o mesmo homem - nem doce, nem duro, apenas algum
que, ao contrrio dos outros clientes, dava a impresso de saber o que desejava. Agora
parecia sair de um transe, de uma pea de teatro que ainda no tinha comeado.
Valia a pena ir embora assim, sem jamais descobrir o que significa um "cliente
especial"?
- O que voc queria, exatamente?
- Voc sabe. Dor. Sofrimento. E muito prazer.
"Dor e sofrimento no combinam com muito prazer", pensou Maria. Embora quisesse
desesperadamente acreditar que sim, e desta maneira transformar em positiva uma grande
parte das experincias negativas de sua vida.
Ele pegou-a pelas mos e levou-a at a janela: do outro lado do lago podiam ver a
torre de uma catedral - Maria lembrava-se que passara por ali enquanto percorria com Ralf
Hart o Caminho de Santiago.
- Voc est vendo este rio, este lago, estas casas, aquela igreja? H quinhentos anos,
era tudo mais ou menos igual.
"S que a cidade estava completamente vazia; uma doena desconhecida havia se
espalhado por toda a Europa, e ningum sabia por que morria tanta gente. Comearam a
chamar a doena de peste negra, uma punio que Deus havia enviado ao mundo por causa
dos pecados do homem.
"Ento, um grupo de pessoas resolveu sacrificar-se pela humanidade. Ofereceram
aquilo que mais temiam: a dor fsica. Passaram a caminhar dia e noite por estas pontes,
estas ruas, aoitando o prprio corpo com chicotes ou correntes. Sofriam em nome de Deus,
e louvavam a Deus com sua dor. Em pouco tempo, descobriram que eram mais felizes
fazendo isso do que cozinhando o po, trabalhando na lavoura, alimentando os animais. A
dor j no era mais o sofrimento, mas o prazer de resgatar a humanidade dos seus pecados.
A dor se transformara em alegria, no sentido da vida, no prazer."
Seus olhos voltaram a ter o mesmo brilho frio que vira alguns minutos antes. Pegou o
dinheiro que ela havia deixado em cima da escrivaninha, retirou cento e cinqenta francos e
colocou-os em sua bolsa.
- No se preocupe com o seu patro. Aqui est a comisso dele, e prometo que no
direi nada. Pode ir embora.
Ela agarrou todo o dinheiro.
- No!
- Sabe por que aceito isso? Porque no h maior prazer do que iniciar algum em um
mundo desconhecido. Tirar a virgindade, no do corpo, mas da alma, est entendendo? Estava entendendo.
- Hoje voc poder fazer perguntas. Mas da prxima vez, quando a cortina do nosso
teatro se abrir, a pea comea e no pode parar. Se parar,  porque nossas almas no se
combinaram. Lembre-se:  uma pea de teatro. Voc tem que ser aquele per
de ser. Aos poucos, voc vai
descobrir que tal personagem  voc mesma, mas at conseguir
No existe dor, existe algo que se transforma em delcia,
em mistrio. Faz parte da pea pedir: "No me trate assim, est ferindo muito." Faz
parte pedir: "Pare, eu no agento mais!" E
por isso, para evitar o perigo... abaixe a cabea e no me olhe!
Maria, ajoelhada, abaixou a cabea e fitava o cho.
- Para evitar que esta relao cause danos fsicos srios, teremos dois cdigos. Se um
de ns disser "amarelo", isso significa que a violncia deve ser reduzida um pouco. Se
disser "verme
Os papis se alternam. No existe um sem o outro, e nin
guem saber humilhar se no for tambm humilhado.
Eram palavras terrveis, vindas de um mundo que no conhecia, cheio de sombra, de
lama, de podrido. Mesmo assim, ela sentia vontade de ir adiante - seu corpo estava
tremendo, de
A mo de Terence tocou em sua cabea com uma ternura inesperada.
- Fim.
Pediu que se levantasse. Sem um carinho especia l, mas sem a agressividade seca que
demonstrara. Maria vestiu o casaco, ainda tremendo. Terence notou o seu estado.
- Fume um cigarro antes de ir.
- No aconteceu nada.
- No precisa. Comear a acontecer em sua alma, e da prxima vez que nos
encontrarmos, estar pronta.
- Essa noite valeu mil francos?
Ele no respondeu. Acendeu tambm um cigarro, e terminaram o vinho, escutaram a
msica perfeita, saborearam juntos o silncio. At que chegou o momento de dizer alguma
coisa, e Maria se surpreendeu com suas prprias palavras.
- No entendo por que tenho vontade de pisar nesta lama.
- Mil francos.
- No  isso.
Terence parecia contente com a resposta.
-Eu tambm j me perguntei a mesma coisa. O Marqus de Sade dizia que as mais
importantes experincias do homem so aquelas que o levam ao extremo. S assim
aprendemos, porque isso requer toda a nossa coragem.
"Quando um patro humilha um empregado, ou um homem humilha sua mulher, ele
est apenas sendo covarde, ou vingando-se da vida, so pessoas que jamais ousaram olhar
no fundo de suas almas, jamais procuraram saber de onde vem o desejo de soltar a fera
selvagem, entender que o sexo, a dor, o amor so experincias limite do homem.
"E s quem conhece essas fronteiras conhece a vida; o resto  apenas passar o tempo,
repetir uma mesma tarefa, envelhecer e morrer sem ter realmente sabido o que se estava
fazendo aqui."
De novo a rua, de novo o frio, de novo a vontade de andar. O homem estava errado,
no era preciso conhecer seus demnios para encontrar Deus. Cruzou com um grupo de
estudantes que saa de um bar; estavam alegres, tinham bebido um pouco, eram bonitos, cheios de sade, em breve terminariam a universidade e comeariam aquilo que
chamam de
"a verdadeira vida". Trabalho, casamento, filhos, televiso, amargura, velhice, sensao de
muita coisa perdida, frustraes, doena, invalidez, dependncia dos outros, solido, morte.
O que estava acontecendo? Maria tambm procurava tranqilidade para viver sua
"verdadeira vida"; o tempo passado na Sua, fazendo algo que jamais imaginara fazer em
sua vida, era apenas um perodo difcil, que todas as pessoas enfrentam cedo ou tarde.
Neste perodo difcil, freqentava o Copacabana, saa com os homens por dinheiro, vivia a
Menina Ingnua, a Mulher Fatal e a Me Compreensiva, dependendo do cliente. Era apenas
um trabalho, ao qual se dedicava com o mximo de profissionalismo - por causa das
gorjetas - e o mnimo de interesse com medo de acostumar-se com ele. Passara nove meses
controlando o mundo ao seu redor, e pouco tempo antes de voltar para sua terra, estava se
descobrindo capaz de amar sem exigir nada em troca, e sofrer sem motivo. Como se a vida
tivesse escolhido este meio srdido, estranho, para ensinar- lhe algo sobre seus prprios
mistrios, sua luz e suas trevas.
Do dirio de Maria na noite em que encontrou Terence pela primeira vez:
Ele citou Sade, de quem eu nunca tinha escutado uma s palavra, apenas os
comentrios tradicionais sobre sadismo: "s nos conhecemos quando encontramos nossos
prprios limites", o que est certo. Mas tambm est errado, porque no  importante
conhecer tudo a respeito de ns mesmos; o ser humano no foi feito s para buscar a
sabedoria, mas tambm para arar aterra, esperara chuva, plantar o trigo, colher o gro, fazer
o po.
Sou duas mulheres: uma deseja ter toda a alegria, a paixo, as aventuras que a vida
pode dar. A outra quer ser escrava de uma rotina, da vida familiar, das coisas que podem
ser planejadas e cumpridas. Sou a dona de casa e a prostituta, ambas vivendo no mesmo
corpo, e uma lutando contra a outra.
O encontro de uma mulher consigo mesma  uma brincadeira com srios riscos. Uma
dana divina. Quando nos encontramos, somos duas energias divinas, dois universos que se
chocam. Se o encontro no tem a reverncia necessria, um universo destri o outro.
Estava de novo na sala de estar da casa de Ralf Hart, o fogo na lareira, o vinho, os
dois sentados no cho, e tudo o que experimentara no dia anterior com aquele executivo
ingls no passava de um sonho ou um pesadelo - dependendo de seu estado de esprito.
Agora voltava a buscar sua razo de viver - melhor dizendo, a entrega mais louca possvel,
aquela em que a pessoa oferece seu corao e nada pede em troca.
Crescera muito enquanto esperava este momento. Descobrira, finalmente, que o amo r
real nada tinha a ver com o que imaginava, ou seja, uma cadeia de acontecimentos
provocados pela energia amorosa - namoro, compromisso, casamento, filhos, espera,
cozinha, parque de diverses aos domingos, mais espera, velhice juntos, a espera acabou e
em seu lugar veio a aposentadoria do marido, as doenas, a sensao de que j  muito
tarde para viver juntos o que sonhavam.
Olhou para o homem a quem decidira se entregar, e a quem decidira jamais contar o
que sentia, porque o que sentia agora estava longe de qualquer forma, inclusive a fsica. Ele
parecia mais  vontade, como se estivesse comeando um perodo interessante de sua
existncia. Estava sorrindo, contava histrias de sua recente viagem a Munique, para
encontrar-se com um importante diretor de museu.
- Perguntou se a tela sobre as faces de Genve estava pronta. Eu disse que tinha
encontrado uma das principais pessoas que gostaria de pintar. Uma mulher cheia de luz.
Mas no quero falar de mim, quero abra- la. Eu a desejo. Desejo. Desejo? Desejo! Isso, esse era o ponto de partida para aquela noite, porque
era algo que ela conhecia muito bem!
Por exemplo: desperta-se o desejo no entregando logo o seu objeto.
- Ento: me deseje. Estamos fazendo isso, neste momento. Voc est a menos de um
metro de mim, foi at uma boate, pagou por meus servios, sabe que tem o direito de tocarme.
Mas no ousa. Olhe- me. Olhe- me, e pense que talvez eu no queira que voc me olhe.
Imagine o que est escondido debaixo de minha roupa.
Sempre usava vestidos pretos para trabalhar, e no entendia por que as outras meninas
do Copacabana tentavam ser provocantes com seus decotes e cores agressivas. Para ela,
excitar um homem era vestir-se como qualquer mulher que ele pudesse encontrar no
escritrio, no trem, ou na casa de uma amiga da mulher.
Ralf olhou-a, Maria sentiu que ele a despia, e gostou de ser desejada daquela maneira
- sem contato, como em um restaurante ou na fila do cinema.
- Estamos em uma estao - continuou Maria. - Estou esperando o trem junto com
voc, voc no me conhece. Mas os meus olhos cruzam com os seus, por acaso, e no se
desviam. Voc no sabe o que estou tentando dizer, porque, embora seja um homem
inteligente, capaz de ver a "luz" das pessoas, no  sensvel o bastante para ver o que esta
luz est iluminando.
Tinha aprendido o "teatro". Quis esquecer rpido o rosto do executivo ingls, mas ele
estava ali, guiando sua imaginao.
- Meus olhos esto fixos nos seus, e posso estar perguntando a mim mesma: "Ser que
o conheo de algum lugar?" Ou posso estar distrada. Ou posso estar com medo de ser
antiptica, talvez voc me conhea, vou dar-lhe o benefcio da dvida por alguns segundos,
at concluir que  um fato, ou um malentendido.
"Mas tambm posso estar querendo a coisa mais simples do mundo: encontrar um
homem. Posso estar tentando fugir de um amor que sofri. Posso estar procurando vingar-me
de uma traio que acabou de acontecer, e resolvi ir at a estao de trem em busca de um
desconhecido. Posso desejar ser sua prostituta s por uma noite, s para fazer algo diferente
em minha vida aborrecida. Posso, inclusive, ser uma prostituta de verdade, que est ali para
conseguir trabalho."
Um rpido silncio; Maria havia se distrado de repente. Voltara para o hotel, a
humilhao - "amarelo", "vermelho", dor e muito prazer. Aquilo havia mexido com sua
alma, de uma maneira que no estava gostando.
Ralf notou, e procurou pux-la de novo para a estao de trem:
- Neste encontro, voc tambm me deseja?
- No sei. No nos falamos, voc no sabe.
Outros segundos de distrao. De qualquer maneira, a idia do "teatro" ajudava
muito; fazia surgir o verdadeiro personagem, afastava as muitas pessoas falsas que habitam
em ns mesmos.
- Mas o fato  que eu no desvio meus olhos, e voc no sabe o que fazer. Deve
aproximar-se? Ser rejeitado? Chamarei um guarda? Ou o convidarei para tomar caf?
- Estou voltando de Munique - disse Ralf Hart, e seu tom de voz era diferente, como
se estivessem realmente se encontrando pela primeira vez. - Estou pensando em uma
coleo de quadros sobre as personalidades do sexo. As muitas mscaras que as pessoas
usam para jamais viverem o verdadeiro encontro.
Ele conhecia o "teatro". Milan dissera que era tambm um cliente especial. O alarme
tocou, mas ela precisava de tempo para pensar. - O diretor do museu me disse: "Em que voc pretende basear o seu trabalho?" Eu
respondi: "Em mulheres que se sentem livres para fazer amor por dinheiro." Ele comentou:
"No d, chamamos estas mulheres de prostitutas." Eu respondi: "Bem, so prostitutas, vou
estudar a histria delas e farei algo mais intelectual, mais a gosto das famlias que iro
freqentar o seu museu. Tudo  uma questo de cultura, sabia? De apresentar de uma
maneira agradvel aquilo que custa a ser digerido." O diretor insistiu: "Mas o sexo no 
mais tabu.  uma coisa to explorada, que fica difcil fazer um trabalho com este tema." Eu
respondi: "E voc sabe de onde vem o desejo sexual?" "Do instinto", disse o diretor. "Sim,
do instinto", afirmei, "mas isso todo mundo sabe. Como fazer uma bela exposio, se
estamos apenas falando de cincia? Eu quero falar de como o homem explica essa atrao.
Como um filsofo, por exemplo, contaria isso." O diretor pediu que eu desse um exemplo.
Eu disse que, quando tomasse o trem de volta para casa e alguma mulher me olhasse, eu
iria falar com ela; diria que, por ser uma estranha, poderamos ter a liberdade de fazer tudo
que tnhamos sonhado, viver todas as nossas fantasias, e depois ir para nossas casas, nossas
mulheres e nossos maridos, sem que jamais nos cruzssemos novamente. E ento, nesta
estao de trem, eu a vejo."
- Sua histria  to interessante, que est matando o desejo.
Ralf Hart riu, e concordou. O vinho tinha acabado, ele foi at a cozinha pegar mais
uma garrafa, e ela ficou olhando o fogo, j sabendo qual seria o prximo passo, mas ao
mesmo tempo saboreando o ambiente acolhedor, esquecendo o executivo ingls, voltando a
entregar-se.
Ralf serviu os dois copos.
- Apenas como curiosidade, de que maneira voc acabaria esta histria com o diretor?
- Citaria Plato, j que estaria diante de um intelectual. Segundo ele, no incio da
criao, os homens e mulheres no eram como so hoje; havia apenas um ser, que era
baixo, com um corpo e um pescoo, mas sua cabea tinha duas faces, cada uma olhando
para uma direo. Era como se duas criaturas estivessem grudadas pelas costas, com dois
sexos opostos, quatro pernas, quatro braos.
"Os deuses gregos, porm, eram ciumentos, e viram que uma criatura que tinha quatro
braos trabalhava mais, duas faces opostas esta vam sempre vigilantes e no podia ser
atacada por traio, quatro pernas no exigiam tanto esforo para ficar de p ou andar por
longos perodos. E, o que era mais perigoso: tal criatura tinha dois sexos diferentes, no
precisava de ningum mais para continuar se reproduzindo na terra.
"Ento disse Zeus, o supremo senhor do Olimpo: `Tenho um plano para fazer com
que estes mortais percam sua fora.'
"E, com um raio, cortou a criatura em dois, criando 0 homem e a mulher. Isso
aumentou muito a populao do mundo, e ao mesmo tempo desorientou e enfraqueceu os
que nele habitavam - porque agora tinham que buscar de novo sua parte perdida, abra-la
de novo, e nesse abrao recuperar a fora antiga, a capacidade de evitar a traio, a
resistncia para andar longos perodos e agentar o trabalho cansativo. O abrao em que os
dois corpos se confundem de novo em um, ns o chamamos de sexo."
- Essa histria  verdade?
- Segundo Plato, o filsofo grego.
Maria olhava-o fascinada, e a experincia da noite anterior tinha desaparecido por
completo. Ela via o homem  sua frente cheio da mesma "luz" que ele enxergara nela,
contando aquela estranha histria com entusiasmo, os olhos brilhando no mais de desejo,
mas de alegria.
- Posso lhe pedir um favor? Ralf respondeu que podia pedir qualquer coisa.
- Pode descobrir por que, depois que os deuses separaram a criatura com quatro
pernas, algumas delas resolveram que o abrao podia ser apenas uma coisa, um negcio
como outro qualquer, que, em vez de acrescentar, retira a energia das pessoas?
- Voc est falando de prostituio?
- Isso. Pode descobrir quando o sexo deixou de ser sagrado?
- Farei isso se voc quiser - respondeu Ralf. - Mas nunca pensei nisso, e creio que
ningum mais pensou; talvez no haja material a esse respeito.
Maria no agentou a presso:
- j lhe ocorreu pensar que as mulheres, principalmente as prostitutas, so capazes de
amar?
- Sim, me ocorreu. Me ocorreu no primeiro dia, quando estvamos na mesa do caf,
quando vi sua luz. Ento, quando pensei em convid-la para um caf, escolhi acreditarem
tudo, inclusive na possibilidade de que voc me devolvesse ao mundo, de onde parti faz
muito tempo.
Agora no havia mais retorno. Maria, a mestra, precisava vir imediatamente em seu
socorro, ou ela iria beij- lo, abra-lo, pedir que no a deixasse.
- Vamos voltar para a estao de trem - disse. - Melhor dizendo, vamos voltar para
esta sala, para o dia em que viemos aqui pela primeira vez, e voc reconheceu que eu
existia, e me deu um presente. Foi a primeira tentativa de entrar na minha alma, e voc no
sabia se era bem- vindo. Mas, como diz a sua histria, os seres humanos foram divididos e
agora buscam de novo este abrao que os una. Esse  o nosso instinto. Mas tambm a nossa
razo para agentar todas as coisas difceis que acontecem durante esta busca.
"Eu quero que voc me olhe, e quero, ao mesmo tempo, que evite fazer com que eu
note. O primeiro desejo  importante porque ele  escondido, proibido, no consentido.
Voc no sabe se est diante da sua metade perdida, ela tampouco sabe, mas algo os atrai -
e  preciso acreditar que seja verdade."
De onde estou tirando tudo isso? Estou tirando tudo isso do fundo do meu corao,
porque gostaria que sempre tivesse sido assim. Estou tirando estes sonhos do meu prprio
sonho de mulher.
Ela abaixou um pouco a ala do seu vestido, de modo que uma parte, apenas uma
nfima parte do bico do seu seio ficasse descoberto.
- O desejo no  o que voc v, mas aquilo que voc imagina.
Ralf Hart olhava uma mulher de cabelos negros, e roupa igual aos cabelos, sentada no
cho de sua sala de visitas, cheia de desejos absurdos, como ter uma lareira acesa em pleno
vero. Sim, queria imaginar o que aquela roupa escondia, podia ver o tamanho de seus
seios, sabia que o suti que ela usava era desnecessrio, embora talvez fosse uma obrigao
do ofcio. Seus seios no eram grandes, no eram pequenos, eram jovens. Seu olhar no
demonstrava nada; o que ela estava fazendo ali? Por que ele estava alimentando esta
relao perigosa, absurda, se no tinha nenhum problema em arranjar uma mulher? Era
rico, jovem, famoso, de boa aparncia. Adorava seu trabalho, tinha amado as mulheres com
que se casara, tinha sido amado. Enfim, era uma pessoa que, por todos os padres, deveria
gritar bem alto: "Eu sou feliz."
Mas no era. Enquanto a maioria dos seres humanos se matava por um pedao de po,
um teto onde morar, um emprego que lhe permitisse viver com dignidade, Ralf Hart tinha
tudo isso, o que o tornava mais miservel. Se fizesse um balano recente de sua vida, talvez
tivesse vivido dois, trs dias em que tenha acordado, olhado o sol - ou a chuva - se sentido alegre por ser de manh, apenas alegre, sem desejar nada, sem planejar
nada, sem pedir
nada em troca. Afora esses poucos dias, o resto de sua existncia tinha sido gasto em
sonhos, frustraes e realizaes, desejo de superar a si mesmo, viagens alm dos seus
limites; no sabia exatamente a quem, ou o qu, o certo  que passara a sua vida tentando
provar algo.
Olhava a bela mulher  sua frente, discretamente vestida de negro, algum que
encontrara por acaso, embora j a tivesse visto antes em uma boate, e reparado que no
combinava com o lugar. Ela pedia que a desejasse, e ele a desejava muito, muito mais do
que podia imaginar - mas no eram os seus seios, ou o seu corpo; era a sua companhia.
Queria abra- la, ficarem silncio olhando o fogo, bebendo vinho, fumando um ou outro
cigarro, isso era o suficiente. A vida era feita de coisas simples, estava cansado de todos
estes anos buscando algo que no sabia
o que era.
Entretanto, se fizesse isso, se a tocasse, tudo estaria perdido. Porque, apesar de sua
"luz", no estava certo se ela entendia como era bom estar ao seu lado. Estava pagando?
Sim, e continuaria pagando o tempo que fosse necessrio, at poder sentarse com ela 
beira do lago, falar de amor - e escutar a mesma coisa de volta. Melhor no arriscar, no
precipitar as coisas, no dizer nada.
Ralf Hart parou de se torturar e voltou a concentrar-se no jogo que acabavam de criar
juntos. A mulher  sua frente estava certa: no bastava o vinho, o fogo, o cigarro, a
companhia; era preciso outro tipo de embriaguez, outro tipo de chama.
A mulher estava com um vestido de alas, tinha deixado um seio  mostra, ele podia
ver sua carne, mais para morena que branca. Desejou-a. Desejou-a muito.
Maria notou a mudana nos olhos de Ralf. Saber-se desejada a excitava mais do que
qualquer outra coisa. Nada tinha a ver com a receita convencional - quero fazer amor com
voc, quero casar, quero que voc tenha um orgasmo, quero ter um filho, quero
compromissos. No, o desejo era uma sensao livre, solta no espao, vibrando, enchendo a
vida com a vontade de ter algo - e isso bastava, essa vontade empurrava tudo para a frente,
desmoronava as montanhas, deixava mido seu sexo.
O desejo era a fonte de tudo - de sair de sua terra, de descobrir um novo mundo,
aprender francs, superar seus preconceitos, sonhar com uma fazenda, amar sem pedir nada
em troca, sentir-se mulher apenas por causa do olhar de um homem. Com uma lentido
calculada, abaixou a outra ala, e o vestido escorregou por seu corpo. Em seguida,
desabotoou o suti. Ali ficou, com a parte superior do corpo completamente despida,
imaginando se ele iria saltar sobre ela, toc- la, fazer juras de amor - ou se era sensvel o
suficiente para sentir, no prprio desejo, o mesmo prazer do sexo.
As coisas em volta dos dois comearam a mudar, os rudos j no existiam mais, a
lareira, os quadros, os livros foram desaparecendo, substitudos por uma espcie de transe,
em que apenas 0 obscuro objeto do desejo existe, e nada mais tem importncia.
O homem no se mexeu. No incio sentiu uma certa timidez em seus olhos, mas no
durou muito. Ele a olhava, e no mundo de sua imaginao ele a acariciava com sua lngua,
faziam amor, suavam, abraavam-se, misturavam ternura e violncia, gritavam e gemiam
juntos.
No mundo real, porm, nada diziam, nenhum dos dois se movia, e isso a deixava mais
excitada ainda, porque tambm ela estava livre para pensar o que quisesse. Pedia que a
tocasse com suavidade, abria as pernas, masturbava-se diante dele, dizia frases romnticas e
vulgares como se fossem a mesma coisa, tinha vrios orgasmos, acordava os vizinhos,
acordava o mundo inteiro com seus gritos. Ali estava seu homem, que lhe dava prazer e alegria, com quem podia ser quem era, falar dos seus problemas sexuais, contar
o quanto
gostaria de continuar junto com ele pelo resto da noite, da semana, da vida.
O suor comeou a pingar da testa de ambos. Era a lareira, um dizia mentalmente para
o outro. Mas tanto o homem como a mulher naquela sala tinham chegado ao seu limite,
usado toda a imaginao, vivido juntos uma eternidade de momentos bons. Precisavam
parar. Mais um passo e aquela magia seria desfeita pela realidade.
Com muita lentido - porque o final  sempre mais difcil que o princpio, ela
recolocou o suti e escondeu os seios. O universo voltou ao seu lugar, as coisas em volta
tornaram a surgir, ela levantou o vestido que tombara at sua cintura, sorriu, e com
suavidade tocou-lhe o rosto. Ele pegou a sua mo e apertou-a contra a face, sem saber at
onde devia mant- la ali, ou com que intensidade devia agarr- la.
Ela sentiu vontade de dizer que o amava. Mas isso estragaria tudo, podia assust-lo ou
- o que era pior - podia fazer com que respondesse que tambm a amava. Maria no queria
isso: a liberdade do seu amor era no ter nada o que pedir ou esperar.
- Quem  capaz de sentir sabe que  possvel ter prazer antes mesmo de tocar outra
pessoa. As palavras, os olhares, tudo isso contm o segredo da dana. Mas o trem chegou,
cada um vai para o seu lado. Espero poder acompanh-lo nesta viagem at... at onde?
- De volta a Genve - respondeu Ralf.
- Quem observa, e descobre a pessoa com quem sempre sonhou, sabe que a energia
sexual acontece antes do prprio sexo. O maior prazer no  o sexo,  a paixo com que ele
 praticado. Quando esta paixo  intensa, o sexo vem para consumar a dana, mas ele
nunca  o ponto principal.
- Voc est falando de amor como uma professora.
Maria resolveu falar, porque esta era a sua defesa, sua maneira de dizer tudo sem
comprometer-se com nada:
- Quem est apaixonado est fazendo amor o tempo todo, mesmo quando no est
fazendo. Quando os corpos se encontram,  apenas o transbordar da taa. Podem ficar
juntos por horas, at dias. Podem comear a dana em um dia e acabar em outro, ou at
mesmo no acabar, de tanto prazer. Nada a ver com onze minutos.
- O qu?
- Eu te amo.
- Eu tambm te amo.
- Perdo. No sei o que estou dizendo.
- Nem eu.
Levantou-se, deu-lhe um beijo e saiu. Ela mesma podia abrir a porta, j que a
superstio brasileira dizia que o dono da casa s precisava faz- lo na primeira vez que
fosse embora.
Do dirio de Maria, na manh seguinte:
Ontem  noite, quando Ralf Hart me olhou, abriu uma porta, como se fosse um
ladro; mas, ao ir embora, no levou nada de mim; ao contrrio, deixou o cheiro de rosas -
no era um ladro, mas um noivo que me visitava.
Cada ser humano vive seu prprio desejo; faz parte do seu tesouro, e, embora seja
uma emoo que pode afastar algum, geralmente traz quem  importante para perto. 
uma emoo que minha alma escolheu, e to intensa que pode contagiar tudo e todos 
minha volta.
Cada dia escolho a verdade com a qual pretendo viver. Procuro ser prtica, eficiente,
profissional. Mas gostaria de poder escolher, sempre, o desejo como meu companheiro. No por obrigao, nem para atenuar a solido de minha vida, mas porque  bom.
Sim, 
muito bom.
Copacabana tinha, em mdia, trinta e oito mulheres que freqentavam a casa com
regularidade, embora apenas uma, a filipina Nyah, pudesse ser considerada por Maria como
uma relao prxima  amizade. A mdia de permanncia ali era de no mnimo seis meses,
e no mximo trs anos - porque logo recebiam um convite para casar, ser amante fixa ou, se
j no conseguiam mais atrair a ateno dos fregueses, Milan pedia delicadamente que
procurassem um outro lugar de trabalho.
Por isso, era importante respeitar a clientela de cada uma, e jamais procurar seduzir os
homens que ali entravam e iam direto para determinada moa. Alm de ser desonesto,
podia ser muito perigoso; na semana anterior, uma colombiana tirara delicadamente uma
lmina de barbear do bolso, colocara em cima do copo de uma iugoslava e dissera com a
voz mais tranqila do mundo que a iria desfigurar, se insistisse em aceitar de novo o
convite de um certo diretor de banco que costumava ir ali com regularidade. A iugoslava
alegara que o homem era livre, e se a tinha escolhido, no podia recusar.
Naquela noite, o homem entrou, cumprimentou a colombiana e foi para a mesa onde
estava a outra. Tomaram o drink, danaram e - Maria achou que era provocao demais - a
iugoslava piscou para a outra, como se estivesse dizendo: "Est vendo? Ele me escolheu!"
Mas aquela piscadela de olho continha muitas outras coisas no ditas: ele me escolheu
porque sou mais bela, porque estive com ele na semana passada e ele gostou, porque sou
jovem. A colombiana no disse nada. Quando a srvia voltou, duas horas depois, ela
sentou-se ao seu lado, tirou a lmina de barbear do bolso e cortou o rosto da outra perto da
orelha: nada profundo, nada perigoso, apenas o suficiente para deixar uma pequena cicatriz
que a lembrasse para sempre daquela noite. As duas se atracaram, o sangue espirrou para
todo lado, os fregueses saram assustados.
Quando a polcia chegou querendo saber o que se passava, a iugoslava disse que havia
cortado o seu rosto em um copo que cara de uma estante (no existiam estantes no
Copacabana). Essa era a lei do silncio, ou a "omert", como gostavam de chamar as
prostitutas italianas: tudo que tivesse que ser resolvido na Rue de Berne, do amor  morte,
seria resolvido - mas sem a interferncia da lei. Ali, eles faziam a lei.
A polcia sabia da "omert", viu que a mulher estava mentindo, mas no insistiu no
assunto - ia custar muito dinheiro ao contribuinte suo se resolvesse prender, processar e
alimentar uma prostituta durante o tempo em que estivesse na priso. Milan agradeceu aos
policiais pela pronta interferncia, disse que era um mal-entendido, ou alguma intriga de
um concorrente.
Assim que eles saram, pediu que as duas nunca mais voltassem ao seu bar. Afinal de
contas, o Copacabana era um lugar familiar (uma afirmativa que Maria custava a entender)
e tinha uma reputao a zelar (o que a deixava mais intrigada ainda). Ali no havia brigas,
porque a primeira lei era respeitar o cliente alheio.
A segunda lei era a total discrio, "semelhante  de um banco suo", dizia ele.
Principalmente porque ali se podia confiar nos clientes, que eram selecionados como um
banco seleciona os seus - baseado na conta corrente, mas tambm na folha corrida, ou seja,
nos bons antecedentes.
s vezes havia algum equvoco, alguns raros casos de nopagamento, de agresso ou
de ameaas s moas, mas nos muitos anos em que criara e desenvolvera com esforo a
fama de sua boate, Milan j sabia identificar quem devia ou no freqentar a casa.
Nenhuma das mulheres sabia exatamente qual era o seu critrio, porm mais de uma vez j
tinham visto algum bem- vestido ser informado de que a boate estava cheia na quela noite (embora estivesse vazia) e nas noites seguintes (ou seja: por favor, no
volte). Tambm
tinham visto pessoas de roupa esporte e barba por fazer serem entusiasticamente
convidadas por Milan para um copo de champanha. O dono do Copacabana no julgava
pelas aparncias e, no final das contas, sempre tinha razo.
Em uma boa relao comercial, todas as partes precisam estar satisfeitas. A grande
maioria dos clientes era casada, ou tinha uma posio importante em alguma empresa.
Tambm algumas daquelas mulheres que trabalhavam ali eram casadas, tinham filhos, e
freqentavam as reunies de pais nas escolas, sabendo que no corriam nenhum risco: se
um dos pais aparecesse no Copacabana, tambm estaria comprometido, e no poderia dizer
nada: assim funcionava a "omert".
Havia camaradagem, mas no havia amizade. Ningum falava muito da prpria vida.
Nas poucas conversas que tivera, Maria no descobrira amargura, ou culpa, ou tristeza entre
suas companheiras: apenas uma espcie de resignao. E tambm um estranho olhar de
desafio, como se estivessem orgulhosas de si mesmas, enfrentando o mundo, independentes
e confiantes. Depois de uma semana, qualquer moa recm-chegada j era considerada
"profissional", e recebia instrues para sempre ajudar a manter os casamentos (uma
prostituta no pode ser uma ameaa  estabilidade de um lar), jamais aceitar convites para
encontros fora do horrio de trabalho, escutar confisses sem dar muita opinio, gemer na
hora do orgasmo (Maria descobrira que todas faziam isso, e que no incio no lhe tinham
contado porque era um dos truques da profisso), cumprimentar a polcia na rua, manter
atualizada a carteira de trabalho e os exames de sade e, finalmente, no se indagar muito
sobre os aspectos morais ou legais do que faziam; eram o que eram, e ponto final.
Antes que o movimento comeasse, Maria sempre podia ser vista com um livro, e
logo passou a ser conhecida como a "intelectual" do grupo. No incio queriam saber se
eram histrias de amor, mas ao ver que se tratava de assuntos ridos e desinteressantes
como economia, psicologia e - recentemente - administrao de fazendas, logo a deixavam
sozinha para que continuasse sossegada sua pesquisa e suas anotaes.
Por ter muitos clientes fixos, e por ir ao Copacabana todos os dias, mesmo quando o
movimento era pequeno, Maria ganhou a confiana de Milan e a inveja das companheiras;
comentavam que a brasileira era ambiciosa, arrogante, e s pensava em ganhar dinheiro.
Esta ltima parte no deixava de ser verdade, embora ela tivesse vontade de perguntar se
todas as outras no estavam ali pelo mesmo motivo.
De qualquer maneira, comentrios no matam - fazem parte da vida de qualquer
pessoa bem-sucedida. Era melhor ignor-los, concentrando a ateno em seus dois nicos
objetivos: voltar para o Brasil na data marcada e comprar uma fazenda.
Ralf Hart agora estava em seu pensamento de manh  noite, e pela primeira vez era
capaz de ser feliz com um amor ausente - embora um pouco arrependida de ter confessado
isso, arriscando-se a perder tudo. Mas o que tinha a perder, se no estava pedindo nada em
troca? Lembrou-se de como o seu corao batera mais rpido quando Milan mencionara
que ele era ou j tinha sido - um cliente especial. O que significava aquilo? Sentiu-se trada,
ficou com cimes.
Claro que o cime  normal, embora a vida j lhe tivesse ensinado que era intil
pensar que algum pode possuir outra pessoa - quem acredita que isso  possvel est
querendo enganar a si mesmo. Apesar disso, no se pode reprimir a idia do cime, ou ter
grandes idias intelectuais a respeito, ou, ainda, achar que  uma demonstrao de
fragilidade.
O amor mais forte  aquele que pode demonstrar sua fragilidade. De qualquer
maneira, se meu amor for verdadeiro (e no apenas uma maneira de me distrair, me enganar, passar o tempo que no passa nunca nesta cidade), a liberdade ir vencer
o cime,
e a dor que ele provoca - j que tambm a dor  parte de um processo natural. "Quem
pratica esporte sabe disso: quando queremos atingir nossos objetivos, precisamos estar
prontos para uma dose diria de dor ou mal-estar. A princpio,  incmodo e desmotivante,
mas com o decorrer do tempo entendemos que faz parte do processo de sentir-se bem, e
chega um momento em que, sem a dor, temos a sensao de que o exerccio no est tendo
o efeito desejado.
O perigoso  focalizar esta dor, dar- lhe um nome de pessoa, mant-la sempre presente
no pensamento; e disso, graas a Deus, Maria j conseguira se livrar.
Mesmo assim, s vezes descobria-se pensando em onde estaria ele, por que no a
procurava, se a havia achado estpida com aquela histria de estao de trem e desejo
reprimido, se fugira para sempre porque ela confessara seu amor. Para evitar que
sentimentos to belos se transformassem em sofrimento, ela desenvolveu um mtodo:
quando algo de positivo ligado a Ralf Hart viesse  sua mente - e isso podia ser a lareira e o
vinho, uma idia que gostaria de discutir com ele, ou simplesmente a ansiedade gostosa de
saber quando voltaria -, Maria parava o que estava fazendo, sorria para o cu e agradecia
por estar viva e no esperar nada do homem que amava.
Entretanto, se o seu corao comeasse a reclamar da ausncia, ou das coisas erradas
que dissera quando estavam juntos, ela dizia para si mesma: "Ah, voc quer pensar nisso?
Ento tudo bem; continue fazendo o que deseja, enquanto eu me dedico a coisas mais
importantes."
Continuava a ler, ou, se estivesse na rua, comeava a prestar ateno a tudo que
estava a sua volta: cores, pessoas, sons, principalmente sons -dos seus passos, das pginas
que se viravam, dos carros, dos fragmentos de conversas, e o pensamento incmodo
terminava por desaparecer. Se voltasse cinco minutos depois, ela repetia o processo, at que
estas lembranas, ao serem aceitas mas gentilmente rejeitadas, se afastassem por um tempo
considervel.
Um destes "pensamentos negativos" era a possibilidade de no tornar a v-lo. Com
um pouco de prtica e muita pacincia, ela conseguiu transform- lo em um "pensamento
positivo": quando partisse, Genve seria um rosto de homem com cabelos muito grandes e
fora de moda, sorriso infantil, voz grave. Se algum lhe perguntasse, muitos anos depois,
como era o lugar que conhecera em sua juventude, ela poderia responder: "Bonito, capaz de
amar e ser amado."
Do dirio de Maria, em um dia de pouco movimento no Copacabana:
De tanto conviver com as pessoas que vm aqui; chego  concluso de que o sexo tem
sido utilizado como qualquer outra droga: para fugir  realidade, para esquecer dos
problemas, para relaxar. E, como todas as drogas,  uma prtica nociva e destruidora.
Se uma pessoa quer se drogar, seja com sexo ou com qualquer coisa, isso  problema
dela; as conseqncias de seus atos sero melhores ou piores de acordo com aquilo que ela
escolheu para si mesma. Mas se falamos em avanar na vida, temos que entender que o que
 "bonzinho"  bem diferente do que  "melhor".
Ao contrrio do que os meus clientes pensam, o sexo no pode ser praticado a
qualquer hora. H um
relgio escondido em cada um de ns, e para fazer amor os ponteiros de ambas as
pessoas tm que estar marcando a mesma hora ao mesmo tempo. Isso no acontece todos os
dias. Quem ama no depende do ato sexual para sentir-se bem. Duas pessoas que esto
juntas, e se querem bem, precisam acertar seus ponteiros, com pacincia e perseverana, com jogos e representaes "teatrais", at entender que fazer amor  muito
mais que um
encontro;  um "abrao" das partes genitais.
Tudo tem importncia. Uma pessoa que vive intensamente sua vida goza o tempo
todo e no sente a falta de sexo. Quando ela faz sexo,  por abundncia, porque o copo de
vinho est to cheio que transborda naturalmente, porque  absolutamente inevitvel,
porque ela aceita o apelo da vida, porque neste momento, apenas neste momento, ela
consegue perder o controle.
PS. - Acabo de reler o que escrevi: meu Deus do cu, estou ficando intelectual
demais!!!
Pouco depois de ter escrito isso, e quando se preparava para viver mais uma noite de
Me Compreensiva ou Menina Ingnua, a porta do Copacabana abriu-se e entrou Terence,
o executivo da gravadora de discos, um dos clientes especiais.
Milan pareceu satisfeito por trs do bar: a menina no o havia decepcionado. Maria
lembrou na mesma hora das palavras que diziam tantas coisas, e ao mesmo tempo no
diziam nada: "Dor, sofrimento, e muito praze r."
- Vim de Londres especialmente para v -Ia. Pensei muito em voc.
Ela sorriu, tentando fazer com que seu sorriso no fosse um encorajamento. Mais uma
vez ele no seguiu o ritual, no a convidou para nada - apenas sentou-se.
- Quando se faz uma pessoa descobrir qualquer coisa, o professor tambm termina
descobrindo algo novo.
- Sei do que est falando - respondeu Maria, lembrando-se de Ralf Hart, e irritando-se
com sua prpria lembrana. Estava diante de outro cliente, precisava respeit- lo e fazer o
possvel para deix-lo contente.
- Quer ir adiante?
Mil francos. Um universo escondido. Um patro que a olhava. A certeza de que
poderia parar quando quisesse. A data marcada para a volta ao Brasil. Um outro homem,
que no aparecia nunca.
- Voc est com pressa? - perguntou Maria.
Ele disse que no. O que ela queria?
- Quero o meu drink, a minha dana, o respeito pela minha profisso.
Ele hesitou por alguns minutos, mas era parte do teatro, de dominar e ser dominado.
Pagou o drink, danou, pediu um txi, entregou- lhe o dinheiro enquanto cruzavam a cidade,
e foram para o mesmo hotel. Entraram, ele cumprimentou o porteiro italiano da mesma
maneira que fizera na noite em que se conheceram, subiram para o mesmo quarto com vista
para o rio.
Terence riscou um fsforo, e s ento Maria se deu conta de que havia dezenas de
velas espalhadas. Ele comeou a acend- las.
- O que voc quer saber? Por que sou assim? Se no me engano, voc adorou a noite
que passamos juntos. Quer saber por que voc tambm  assim?
- Estou pensando que no Brasil temos a superstio de acender mais de trs coisas
com o mesmo fsforo. E voc no est respeitando isso.
Ele ignorou o comentrio.
- Voc  como eu. No est aqui pelos mil francos, mas pelo sentimento de culpa, de
dependncia, pelos seus complexos e sua insegurana. E isso no  bom nem ruim,  a
natureza humana.
Pegou o controle remoto da TV e mudou vrias vezes de canal, at parar em um
noticirio, em que refugiados procuravam escapar de uma guerra. - Est vendo isso? J viu os programas em que as pessoas vo discutir seus problemas
pessoais diante de todo mundo? J foi at a banca de jornal e viu as manchetes? O mundo
se alegra no sofrimento e na dor. Sadismo ao olhar, masoquismo ao concluir que no
precisamos saber tudo isso para sermos felizes, e mesmo assim assistimos  tragdia alheia
e, s vezes, sofremos com ela.
Ele serviu outros dois copos de champanha, desligou a TV e continuou a acender as
velas, sem respeitar a superstio que Maria mencionara.
- Repito:  a condio humana. Desde que fomos expulsos do paraso, ou estamos
sofrendo, ou estamos fazendo algum sofrer, ou estamos olhando o sofrimento dos outros.
 incontrolvel.
Comearam a escutar o estrondo dos troves l fora, uma gigantesca tempestade
estava se aproximando.
- Mas eu no consigo - disse Maria. - Me parece ridculo achar que voc  o meu
mestre e sou sua escrava. No precisamos de nenhum "teatro" para nos encontrarmos com o
sofrimento; a vida j nos oferece muitas oportunidades.
Terence tinha acabado de acender todas as velas. Pegou uma delas, colocou-a no
centro da mesa, tornou a servir champanha e caviar. Maria bebia rpido, pensando nos mil
francos que estavam em sua carteira, no desconhecido que a fascinava e amedrontava, na
maneira de controlar seu pavor. Sabia que, com aquele homem, uma noite jamais seria
como a outra, no podia amea- lo.
- Sente-se.
A voz alternava entre doce e autoritria. Maria obedeceu, e uma onda de calor
percorreu seu corpo; aquela ordem era familiar, ela sentia-se mais segura.
"Teatro. Preciso entrar na pea de teatro."
Era bom receber ordens. No precisava pensar, apenas obedecer. Suplicou por mais
champanha, ele lhe trouxe vodca; subia mais rpido, libertava com mais facilidade,
combinava mais com o caviar.
Abriu a garrafa, Maria praticamente bebeu sozinha, enquanto escutava os troves.
Tudo colaborava para o momento perfeito, como se a energia dos cus e da terra mostrasse
tambm seu lado violento.
Em um dado momento, Terence pegou uma pequena maleta no armrio e colocou-a
sobre a cama.
- No se mexa.
Maria ficou imvel. Ele abriu a maleta e tirou dois pares de algemas de metal
cromado.
-Sente-se de pernas abertas.
Ela obedeceu. Impotente por vontade prpria, submissa porque assim desejava.
Percebeu que ele olhava entre suas pernas, podia ver a calcinha preta, as meias longas, as
coxas, podia imaginar os cabelos, o sexo.
- Fique de p!
Ela saltou da cadeira. Seu corpo custou a equilibrar-se, e viu que estava mais
embriagada do que imaginara.
- No me olhe. Abaixe a cabea, respeite seu dono!
Antes que pudesse abaixar a cabea, um chicote fino foi retirado da mala e estalou no
ar - como se tivesse vida prpria.
- Beba. Mantenha a cabea baixa, mas beba.
Entornou mais um, dois, trs copos de vodca. Agora no era apenas um teatro, mas a
realidade da vida: no tinha controle. Sentia-se um objeto, um simples instrumento, e por incrvel que parea, aquela submisso lhe dava a sensao de completa liberdade.
No era
mais a mestra, a que ensina, a que consola, a que escuta as confisses, a que excita; era
apenas a menina do interior do Brasil, diante do poder gigantesco do homem.
-- Tire a roupa.
A ordem veio seca, sem desejo - e, no entanto, nada mais ertico. Mantendo a cabea
baixa em sinal de reverncia, Maria desabotoou o vestido e deixou que escorregasse at o
cho.
- Voc no est se comportando bem, sabia?
De novo o chicote estalou no ar.
- Precisa ser castigada. Uma menina da sua idade, como ousa me contrariar? Voc
devia estar de joelhos diante de mim!
Maria fez meno de ajoelhar-se, mas o chicote a interrompeu; pela primeira vez
tocava a sua carne - nas ndegas. Ardia, mas parecia no deixar marcas.
- Eu no disse para ajoelhar-se. Disse?
- No.
Outra vez o chicote tocou suas ndegas.
- Diga: "No, meu senhor."
E mais uma chibatada. Mais ardor. Por uma frao de segundo ela pensou que podia
parar com aquilo tudo imediatamente; ou podia escolher ir at o fim, no pelo dinheiro, mas
pelo que ele dissera na primeira vez - um ser humano s se conhece quando vai at seus
limites.
E aquilo era novo; era a aventura, podia decidir mais tarde se gostaria de continuar,
mas naquele instante ela deixou de ser a moa que tinha trs objetivos na vida, que estava
ganhando dinheiro com seu corpo, que conhecera um homem com uma lareira e histrias
interessantes para contar. Ali ela no era ningum - e por no ser ningum, era tudo que
sonhava.
- Tire toda a roupa. E ande de um lado para o outro, para que eu possa v-Ia.
Mais uma vez obedeceu, mantendo a cabea baixa, sem dizer uma s palavra. O
homem que a olhava estava vestido, impassvel, no era a mesma pessoa com quem tinha
vindo conversando desde a boate - era um Ulisses que vinha de Londres, um Teseu que
chegava do cu, um seqestrador que invadia a cidade mais segura do mundo, e o corao
mais fechado da terra. Tirou a calcinha, o suti, sentiu-se indefesa e protegida ao mesmo
tempo. O chicote de novo estalou no ar, desta vez sem tocar seu corpo.
- Mantenha a cabea baixa! Voc est aqui para ser humilhada, para ser submetida a
tudo que eu desejar, entende?
- Sim, senhor.
Ele agarrou seus braos e colocou o primeiro par de algemas em seus pulsos.
- E vai apanhar muito. At aprender a comportar-se.
Com a mo aberta, deu-lhe um tapa nas ndegas. Maria gritou, desta vez tinha dodo.
- Ah, e est reclamando, no ? Pois vai ver o que  bom.
Antes que ela pudesse reagir, uma mordaa de couro estava prendendo sua boca. No
a impedia de falar, podia dizer "amarelo" ou "vermelho", mas sentia que era seu destino
deixar que aquele homem pudesse fazer dela o que quisesse, e no tinha como escapar dali.
Estava nua, amordaada, algemada, com vodca correndo no lugar de sangue. Outro tapa nas ndegas.
- Ande de um lado para o outro!
Maria comeou a andar, obedecendo aos comandos "pare", "vire para a direita",
"sente-se", "abra as pernas". Vez por outra, mesmo sem nenhum motivo, levava uma
palmada, e sentia a dor, sentia a humilhao - que era mais poderosa e forte que a dor - e
sentia-se em outro mundo, onde no existia mais nada, e isso era uma sensao quase
religiosa, anular-se por completo, servir, perder a idia do ego, dos desejos, da prpria
vontade. Estava completamente molhada, excitada, sem compreender o que acontecia.
- Coloque-se de novo de joelhos!
Como mantinha sempre a cabea baixa, em sinal de obedincia e humilhao, Maria
no podia ver exatamente o que estava se passando; mas notava que, em um outro universo,
outro planeta, aquele homem estava ofegante, cansado de estalar o chicote e espancar- lhe as
ndegas com a palma da mo aberta, enquanto ela se sentia cada vez mais cheia de fora e
energia. Agora tinha perdido a vergonha, e no se incomodava de mostrar que estava
gostando, comeou a gemer, pediu que ele lhe tocasse o sexo, mas o homem, em vez disso,
agarrou-a e atirou-a na cama.
Com violncia - mas uma violncia que ela sabia no ia lhe causar nenhum mal -
abriu suas pernas e amarrou cada uma delas em um lado da cama. As mos algemadas nas
costas, as pernas abertas, a mordaa na boca, quando ele iria penetr- la? No via que ela j
estava pronta, que queria servir- lhe, era sua escrava, seu animal, seu objeto, faria qualquer
coisa que ele mandasse?
- Voc gostaria que eu a arrebentasse toda?
Ela viu que ele encostava o cabo do chicote em seu sexo. Esfregou-o de cima a baixo,
e na hora em que tocou em seu clitris, ela perdeu o controle. No sabia havia quanto
tempo estavam ali, no imaginava quantas vezes tinha sido espancada, mas de repente veio
o orgasmo, o orgasmo que dezenas, centenas de homens, em todos aqueles meses, jamais
conseguiram despertar. Uma luz explodiu, ela sentia que entrava em uma espcie de buraco
negro em sua prpria alma, onde a dor intensa e o medo se misturavam com o prazer total,
aquilo a empurrava alm de todos os limites que conhecera, e Maria gemeu, gritou com a
voz sufocada pela mordaa, sacudiu-se na cama, sentindo que as algemas lhe cortavam os
pulsos e as tiras de couro lhe machucavam os tornozelos, mexeu-se como nunca justamente
porque no podia se mexer, gritou como jamais tinha gritado, porque tinha uma mordaa na
boca e ningum poderia escut-la. Aquilo era a dor e o prazer, o cabo do chicote
pressionando o clitris cada vez mais forte, e o orgasmo saindo pela boca, pelo sexo, pelos
poros, pelos olhos, por toda a sua pele.
Entrou em uma espcie de transe, e pouco a pouco foi descendo, descendo, j no
havia mais o chicote entre as pernas, apenas os cabelos molhados pelo suor abundante, e
mos carinhosas que lhe retiravam as algemas e desatavam as tiras de couro dos seus ps.
Ela ficou ali deitada, confusa, incapaz de olhar o homem porque estava com vergonha
de si mesma, de seus gritos, de seu orgasmo. Ele lhe acariciava os cabelos, e tambm arfava
- mas o prazer tinha sido exclusivamente seu; ele no tivera nenhum momento de xtase.
O seu corpo nu abraou aquele homem co mpletamente vestido, exausto de tantas
ordens, tantos gritos, tanto controle da situao. Agora no sabia o que dizer, como
continuar, mas estava segura, protegida, porque ele a convidara a ir at uma parte sua que
no conhecia, era seu protetor e seu mestre.
Comeou a chorar, e ele pacientemente esperou que terminasse.
- O que voc fez comigo? - dizia entre lgrimas.
- O que voc queria que eu fizesse. Nada disso fazia sentido, porque no  o que contam as histrias, no  assim na vida
real. Mas ali era um mundo de fantasia, ela estava cheia de luz, e ele parecia opaco,
exaurido.
- Pode ir quando quiser - disse Terence.
- No quero ir, quero entender.
- No h o que entender.
Ela levantou-se, na beleza e intensidade de sua nudez, e serviu duas taas de vinho.
Acendeu dois cigarros, e lhe deu um os papis estavam trocados, era a senhora que servia o
escravo, recompensando-o pelo prazer que lhe dera.
- Vou me vestir, e vou embora. Mas gostaria de conversar um pouco.
- No h o que conversar. Era isso que eu queria, e voc foi maravilhosa. Estou
cansado, tenho que voltar amanh para Londres.
Ele deitou-se e fechou os olhos. Maria no sabia se estava fingindo dormir, mas no
importava; fumou o cigarro com prazer, bebeu lentamente seu copo de vinho com o rosto
colado na vidraa, olhando o lago em frente e desejando que algum, na outra margem, a
visse assim - nua, plena, satisfeita, segura.
Vestiu-se, saiu sem dizer adeus, e sem se importar se abria ou no a porta, porque no
tinha certeza se queria voltar.
Terence escutou a porta bater, esperou para ver se ela no voltava dizendo que tinha
esquecido alguma coisa, e s depois de alguns minutos levantou-se e acendeu outro cigarro.
A menina tinha estilo, pensou. Soubera agentar o chicote, embora este fosse o mais
comum, o mais antigo, e o menor de todos os suplcios. Por um momento, lembrou-se da
primeira vez que experimentara esta misteriosa relao entre dois seres que desejam se
aproximar, mas s conseguem isso infligindo sofrimento aos outros.
L fora, milhes de casais praticavam sem se dar conta, todos os dias, a arte do
sadomasoquismo. Iam para o trabalho, voltavam, reclamavam de tudo, agrediam ou eram
agredidos pela mulher, sentiam-se miserveis - mas profundamente ligados  prpria
infelicidade, sem saber que bastava um gesto, um "at nunca mais", para se libertarem da
opresso. Terence experimentara isso com sua primeira esposa, uma famosa cantora
inglesa; vivia torturado por cimes, criando cenas, passando dias sob o efeito de calmantes,
e noites embriagado de lcool. Ela o amava, no entendia por que agia assim, ele a amava -
tampouco entendia seu prprio comportamento. Mas era como se a agonia que um infligia
ao outro fosse necessria, fundamental para a vida.
Certa vez, um msico - que ele considerava muito estranho, porque parecia normal
demais naquele meio de gente extica esqueceu um livro no estdio. A Vnus Castigadora,
de Leopold von Sacher-Masoch. Terence comeou a folhe- lo e,  medida que lia,
compreendia melhor a si mesmo:
A linda mulher despiu-se e pegou um longo chicote, com um pequeno cabo, que
prendeu ao pulso. "Voc pediu", disse ela. "Ento vou chicote- lo." "Faa isso'; sussurou
seu amante. "Eu lhe imploro."
Sua mulher estava do outro lado da divisria de vidro do estdio, ensaiando. Tinha
pedido que desligasse o microfone que permitia aos tcnicos escutarem tudo, e fora obedecida. Terence pensava que talvez estivesse marcando um encontro com o pianista,
e
deu-se conta: ela o levava  loucura, mas parecia que ele j tinha se acostumado a sofrer, e
no podia viver sem aquilo.
"Vou chicote- lo", dizia a mulher despida, no romance que inha em mos. "Faa isso,
eu lhe imploro."
Ele era bonito, tinha poder na gravadora, por que precisava levar a vida que estava
levando?
Porque gostava. Merecia sofrer muito, j que a vida tinha sido muito boa para ele, e
no era digno de todas aquelas bnos - dinheiro, respeito, fama. Achava que sua carreira
o estava levando a um ponto em que passaria a depender do sucesso, e aquilo o assustava,
porque j tinha visto muita gente despencar das alturas.
Leu o livro. Comeou a ler tudo que lhe caa nas mos a respeito da misteriosa unio
entre dor e prazer. A mulher descobriu os vdeos que alugava, os livros que escondia,
perguntou o que era aquilo, se ele estava doente. Terence respondeu que no, era uma
pesquisa para o visual de um novo trabalho que ela devia fazer. E sugeriu, como quem no
quer nada:
"Talvez devssemos experimentar."
Experimentaram. No comeo com muita timidez, baseados apenas nos manuais que
encontravam em lojas pornogrficas. Aos poucos foram desenvolvendo novas tcnicas,
indo at os limites, correndo riscos - mas sentindo que o casamento estava cada vez mais
slido. Eram cmplices de algo escondido, proibido, condenado.
A experincia dos dois transformou-se em arte: criaram novos figurinos, couro e
tachas de metal. A mulher entrava em cena com um chicote, ligas, botas, e levava a platia
ao delrio. O novo disco foi para o primeiro lugar das paradas de sucesso na Inglaterra, e
dali seguiu uma carreira vitoriosa em toda a Europa. Terence se surpreendia ao ver como a
juventude aceitava seus delrios pessoais com tanta naturalidade, e sua nica explicao era
que desta maneira a violncia contida podia se manifestar de forma intensa, mas inofensiva.
O chicote passou a ser o smbolo do grupo, comeou a ser reproduzido em camisetas,
tatuagens, adesivos, cartes-postais.
A formao intelectual de Terence o fez buscar a origem daquilo tudo, para entender
melhor a si mesmo.
No eram, como dissera para a prostituta em seu encontro, os penitentes que
procuravam afastar a peste negra. Desde a noite dos tempos, o homem entendera que o
sofrimento, uma vez encarado sem temor, era seu passaporte para a liberdade.
Egito, Roma e Prsia j tinham a noo de que, se um homem se sacrifica, ele salva o
pas e seu mundo. Na China, se acontecia uma catstrofe natural, o imperador era castigado,
por ser ele o representante da divindade na terra. Os melhores guerreiros de Espana, na
antiga Grcia, eram chicoteados uma vez por ano, da manh at a noite, em homenagem 
deusa Diana enquanto a multido gritava palavras de incentivo, pedindo que agentassem a dor com dignidade, pois ela os prepararia para o mundo das guerras. No final
do dia, os
sacerdotes examinavam as feridas deixadas nas costas dos guerreiros, e atravs delas
previam o futuro da cidade.
Os padres do deserto, uma antiga comunidade crist do sculo IV que se reunia em
torno de um mosteiro na Alexandria, usavam a flagelao como meio de afastar os
demnios, ou demonstrar a inutilidade do corpo durante a busca espiritual. A histria dos
santos estava cheia de exemplos - Santa Rosa corria pelo jardim, enquanto os espinhos
feriam sua carne; So Domingos Loricatus chicoteava-se regularmente todas as noites antes
de dormir; os mrtires se entregavam voluntariamente  lenta morte na cruz ou nos dentes
de animais selvagens. Todos diziam que a dor, uma vez superada, era capaz de levar ao
xtase religioso.
Estudos recentes, no confirmados, indicavam que certo tipo de fungo com
propriedades alucingenas se desenvolvia nas feridas, o que causava as vises. O prazer
parecia ser tanto, que a prtica logo deixou os conventos e comeou a ganhar o mundo.
Em 1718, foi publicado o Tratado de autoflagelao, que ensinava como descobrir o
prazer atravs da dor, mas sem causar dano ao corpo. No final daquele sculo, existiam
dezenas de lugares em toda a Europa onde as pessoas sofriam para chegar  alegria. H
registros de reis e princesas que se faziam flagelar por seus escravos, at descobrirem que o
prazer estava no apenas em apanhar, mas tambm em aplicar a dor - embora fosse mais
exaustivo e menos gratificante.
Enquanto fumava seu cigarro, Terence experimentava um certo prazer em saber que a
maior parte da humanidade jamais podia compreender o que ele estava pensando.
No tinha importncia: pertencer a um clube fechado, s os eleitos tinham acesso.
Lembrou-se de novo de como o tormento de ser casado se transformou na maravilha de ser
casado. Sua mulher sabia que visitava Genve com este propsito, e no se incomodava -
pelo contrrio, neste mundo doente, ela ficava feliz por seu marido conseguir a recompensa
que desejava depois de uma semana de trabalho rduo.
Enquanto fumava seu cigarro olhando o lago diante da janela, estava sentindo de novo
a vontade de viver. A menina que acabara de sair do quarto havia entendido tudo. Sentia
que sua alma estava prxima dela, embora no estivesse ainda pronto para se apaixonar,
porque amava sua mulher. Mas gostou de pensar que era livre e podia sonhar com um novo
relacionamento.
Faltava apenas faz- la experimentar o que havia de mais difcil: transform - la na
Vnus Castigadora, na Dominatrix, na Senhora, capaz de humilhar e punir sem piedade. Se
passasse na prova, estaria pronto para abrir o seu corao e deix- la entrar.
Do dirio de Maria, ainda embriagada pela vodca e pelo prazer:
Quando eu no tinha nada a perder, eu recebi tudo. Quando deixei de ser quem era,
encontrei a mim mesma.
Quando conhecia humilhao e a submisso total fiquei livre. No sei se estou doente,
se tudo aquilo foi um sonho, ou se acontece apenas uma vez. Sei que posso viver sem isso,
mas gostaria de encontr-lo de novo, de repetir a experincia, ir mais longe do que fui.
Estava um pouco assustada com a dor, mas ela no era to forte quanto a humilhao
- era apenas um pretexto. No momento em que tive o primeiro orgasmo em muitos meses,
apesar dos muitos homens e das muitas coisas diferentes que fizeram com meu corpo, sentime
- ser que isso  possvel? - mais perto de Deus. Lembrei- me do que ele disse a respeito
da peste negra, do momento em que os flagelantes, ao oferecerem sua dor pela salvao da humanidade, encontravam nela o prazer. Eu no queria salvara humanidade,
ou a ele, ou a
mim mesma. Estava apenas ali.
O sexo  a arte de controlar o descontrole.
No era um teatro, estavam na estao de trem de verdade, a pedido de Maria, que
gostava de uma pizza s encontrada ali. No fazia mal ser um pouco caprichosa. Ralf devia
ter aparecido um dia antes, quando ento ainda era uma mulher em busca de amor, lareira,
vinho, desejo. Mas a vida escolhera de maneira diferente, e hoje passara o dia inteiro sem
precisar fazer o seu exerccio de concentrar-se nos sons e no presente, simplesmente porque
no pensara nele, havia descoberto coisas que lhe interessavam mais.
O que fazer com o homem ao seu lado, comendo uma pizza de que talvez no
gostasse, apenas para passar o tempo, e aguardar o momento de irem at sua casa? Quando
ele entrara na boate e lhe oferecera um drnk, Maria pensara em dizer que j no tinha mais
interesse, que procurasse outra pessoa; por outro lado, tinha uma imensa necessidade de
conversar com algum sobre a noite anterior.
Tentara com uma ou outra prostituta que tambm servia aos "clientes especiais", mas
nenhuma lhe dera maior ateno, porque Maria era esperta, aprendia rpido, havia se
transformado na grande ameaa do Copacabana. Ralf Hart, de todos os homens que
conhecia, era talvez o nico que poderia entender, pois Milan o considerava um "cliente
especial". Mas ele a enxergava com os olhos iluminados de amor, e isso tornava as coisas
mais difceis, melhor no dizer nada.
- O que voc sabe de sofrimento, humilhao, e muito prazer?
Mais uma vez ela no tinha conseguido se controlar.
Ralf parou de comer a pizza.
- Sei tudo. E no me interessa.
A resposta viera rpida, e Maria ficou chocada. Ento, todo mundo sabia tudo, menos
ela? Que mundo era aquele, meu Deus?
- Conheci meus demnios e minhas trevas - continuou Ralf. - Fui at o fundo,
experimentei tudo, no apenas nesta rea, mas em muitas outras. Entretanto, na ltima vez
em que nos encontramos, fui aos meus limites atravs do desejo, e no da dor. Mergulhei
no fundo da minha alma, e sei que ainda quero coisas boas, muitas coisas boas desta vida.
Teve vontade de dizer: "Uma delas  voc, por favor, no siga este caminho." Mas
no teve coragem; em vez disso, chamou um txi e pediu que os levasse at a beira do lago
- onde, uma eternidade antes, tinham andado juntos no dia em que se conheceram. Maria
estranhou o pedido, ficou quieta - o instinto lhe dizia que tinha muito a perder, embora sua
mente ainda estivesse embriagada com o que acontecera na vspera.
S acordou de sua passividade quando chegaram ao jardim  beira do lago; embora
ainda fosse vero, j comeava a fazer muito frio durante a noite.
- O que fazemos aqui? - perguntou, quando saltaram. -Est ventando, vou pegar um
resfriado.
- Estive pensando muito em seu comentrio na estao de trem. Sofrimento e prazer.
Tire os sapatos. Ela lembrou-se de que certa vez um dos seus fregueses pedira a mesma coisa, e ficara
excitado apenas por olhar seus ps. Ser que a aventura no a deixava em paz?
- Vou pegar um resfriado - insistiu.
- Faa o que estou dizendo - insistiu ele. - No vai pegar nenhum resfriado, se no
demorarmos muito. Acredite em mim, como eu acredito em voc.
Sem nenhuma razo aparente, Maria entendeu que ele estava querendo ajud-la;
talvez porque j tivesse bebido de uma gua muito amarga, e achava que ela corria o
mesmo risco. No queria ser ajudada; estava contente com seu novo mundo, onde descobria
que o sofrimento no era mais um problema. Entretanto, pensou no Brasil, na
impossibilidade de encontrar um parceiro para compartilhar este universo diferente, e como
o Brasil era mais importante que tudo em sua vida, ela tirou os sapatos. O cho estava cheio
de pequenas pedras, que logo rasgaram suas meias, mas isso no tinha importncia,
compraria outras.
- Tire o casaco.
Ela podia ter dito que "no" mas, desde a noite anterior, acostumara-se  alegria de
poder dizer "sim" a tudo que estava no seu caminho. Tirou o casaco, o corpo ainda quente
no reagiu logo, mas aos poucos o frio comeou a incomod- la.
- Vamos andar. E vamos conversar.
- Aqui  impossvel: o cho est cheio de pedras.
- Justamente por isso; quero que voc sinta estas pedras, quero que lhe provoquem
dor, que a machuquem, porque voc deve ter experimentado, assim como eu experimentei,
o sofrimento aliado ao prazer, e preciso arrancar isso de sua alma.
Maria sentiu vontade de dizer: "No precisa, eu gosto." Mas comeou a caminhar sem
pressa, as solas dos ps comearam a arder, devido ao frio e s pontas das pedras.
- Uma das minhas exposies me levou ao Japo, justamente quando eu estava
totalmente envolvido naquilo que voc chamou de "sofrimento, humilhao, e muito
prazer". Naquela poca, eu achava que no havia um caminho de volta, que iria cada vez
mais fundo, e nada mais restava na minha vida, exceto a vontade de punir e ser punido.
"Afinal, somos seres humanos, nascemos cheios de culpa, ficamos com medo quando
a felicidade se transforma em algo possvel, e morremos querendo castigar os outros porque
sempre nos sentimos impotentes, injustiados, infelizes. Pagar seus pecados, e poder
castigar os pecadores - ah, isso no  uma delcia? Sim,  timo."
Maria andava, a dor e o frio tornavam difcil prestar ateno nas palavras dele, mas
ela se esforava.
- Hoje notei as marcas em seus pulsos.
As algemas. Tinha colocado vrias pulseiras para disfarar; entretanto, os olhos
acostumados sempre sabem o que esto buscando.
- Enfim, se tudo aquilo que voc experimentou recentemente a est conduzindo a dar
este passo, no sou eu que vou impedi-Ia; mas nada disso tem relao com a verdadeira
vida.
- Passo?
- Dor e prazer. Sadismo e masoquismo. Chame como quiser, mas se estiver
convencida de que este  o seu caminho, sofrerei, lembrarei do desejo, dos encontros, do
passeio pelo Caminho de Santiago, de sua luz. Terei guardado em um lugar especial uma
caneta, e cada vez que acender aquela lareira me lembrarei de voc. Entretanto, no a
procurarei mais.
- - Maria sentiu medo, achou que era hora de recuar, falar a verdade, deixar de fingir
que sabia mais que ele.
-
- - O que experimentei recentemente, melhor dizendo, ontem, jamais tinha
experimentado. E me assusta que, no limite da degradao, eu pudesse encontrar a mim
mesma.
-
- Estava ficando difcil continuar conversando - seus dentes batiam de frio, e seus ps
doam muito.
-
- - Na minha exposio, em uma regio chamada Kumano, apareceu um lenhador -
continuou Ralf, como se no tivesse escutado o que ela dizia. - No gostou dos meus
quadros, mas foi capaz de decifrar, atravs da pintura, o que eu estava vivendo e sentindo.
No dia seguinte, me procurou no hotel, e perguntou se eu estava contente; se estivesse,
devia continuar fazendo 0 que gostava. Se no estivesse, deveria acompanh- lo e passar uns
dias com ele.
"Me fez andar nas pedras, como estou fazendo com voc agora. Me fez sentir frio. Me
obrigou a entender a beleza da dor, s que era uma dor aplicada pela natureza, no pelo
homem. Chamava isso de Shugen-do, uma prtica milenar.
"Disse- me que era um homem que no tinha medo da dor, e isso era bom, porque para
dominar a alma, voc tem que aprender tambm a dominar o corpo. Disse-me tambm que
estava usando a dor de maneira errada, e isso era muito ruim.
"Aquele lenhador, ignorante, achava que me conhecia melhor do que eu, e isso me
irritava, ao mesmo tempo que me deixava orgulhoso de saber que os meus quadros eram
capazes de expressar exatamente o que eu estava sentindo."
Maria sentiu que uma pedra mais pontiaguda lhe cortara o p, mas o frio era mais
forte, seu corpo estava ficando dormente, e no conseguia acompanhar direito as palavras
de Ralf Hart. Por que os homens, neste mundo santo de Deus, s tinham interesse em
mostrar- lhe a dor? A dor sagrada, a dor com prazer, a dor com explicaes ou sem
explicaes, mas era sempre dor, dor...
O p machucado tocou em outra pedra, ela reprimiu o grite e continuou andando. No
comeo tinha procurado manter sus integridade, seu autodomnio, aquilo que ele chamava
de "luz" Mas agora estava andando devagar, enquanto seu estmago
seu pensamento davam voltas: pensou em vomitar. Pensou em parar, nada daquilo
fazia sentido, e no parou.
No parou em respeito a si mesma; podia agentar aquela caminhada descala pelo
tempo que fosse necessrio, porque ela no ia durar toda a sua vida. E de repente outro
pensamento cruzou o espao: e se no pudesse comparecer ao Copacabana no dia seguinte,
por caus a de um srio problema nos ps, ou por uma febre causada pela gripe que, tinha
certeza, iria instalar-se em seu corpo pouco
agasalhado? Pensou nos fregueses que a esperavam, em Milan, que confiava tanto
nela, no dinheiro que deixaria de ganhar, na fazenda, nos pais orgulhosos. Mas o sofrimento
logo afastou qualquer tipo de reflexo, e ela colocava um p diante do outro, louca para que
Ralf Hart reconhecesse seu esforo, e lhe dissesse que bastava, podia calar os sapatos. Entretanto ele parecia indiferente, longe, como se aquela fosse a nica
maneira de
livr- la de algo que no conhecia direito, que a seduzia, mas que terminaria por deixar
marcas mais fundas que as das algemas. Embora sabendo que ele tentava ajud- la, e por
mais que se esforasse para ir adiante e mostrar a luz de sua fora de vontade, a dor no
permitia que ela tivesse pensamentos profanos ou nobres - era apenas dor, que ocupava
todo o espao, a assustava, e a obrigava a pensar que tinha um limite, e que no iria
conseguir.
Mas deu um passo.
E outro.
A dor agora parecia invadir a alma e enfraquec- la espiritualmente, porque uma coisa
 fazer um pouco de teatro em um hotel cinco estrelas, nua, com vodca, caviar, e um
chicote entre as pernas; outra coisa  estar no frio, descala, com pedras lhe cortando os
ps. Estava desorientada, no conseguia trocar uma s palavra com Ralf Hart, tudo que
existia em seu universo eram as pedras pequenas e cortantes que marcavam a trilha por
entre as rvores.
Ento, quando pensava que ia desistir, um estranho sentimento a invadiu: tinha
atingido o seu limite, e alm dele estava um espao vazio, onde parecia flutuar acima de si
mesma, e ignorar o que estava sentindo. Seria esta a sensao que os penitentes
experimentavam? Na outra extremidade da dor, descobria uma porta para um nvel
diferente de conscincia, e j no havia espao para mais nada, apenas para a natureza
implacvel - e para ela mesma, invencvel.
Tudo a sua volta transformou-se em um sonho: o jardim mal iluminado, o lago
escuro, o homem em silncio, um casal ou outro que passeava, sem perceber que ela estava
descala, andando com dificuldade. No sabia se era o frio ou o sofrimento, mas de repente
deixou de sentir seu corpo, entrou em um estado em que no existe qualquer desejo ou
medo, apenas uma misteriosa - como poderia chamar isso? -, uma misteriosa "paz". O
limite da dor no era o seu limite; podia ir alm dele.
Pensou em todos os seres humanos que sofriam sem pedir, e ali estava ela,
provocando seu prprio sofrimento - mas aquilo no importava mais, havia cruzado as
fronteiras do corpo, e agora lhe restava apenas a alma, a "luz", uma espcie de vazio - que
algum, algum dia, chamou de Paraso. Existem certos sofrimentos que s podem ser
esquecidos quando podemos flutuar acima de nossas dores.
A prxima coisa de que se lembrou foi de Ralf pegando-a no colo, tirando a jaqueta e
a colocando em seu ombro. Devia ter desmaiado de frio, mas pouco importava; estava
contente, no tinha medo - havia vencido. No se humilhara diante daquele homem.
Os minutos se transformaram em horas, ela devia ter dormido em seus braos, porque
quando acordou, embora ainda fosse noite, estava em um quarto com um aparelho de TV
em um dos cantos, e mais nada. Branco, vazio.
Ralf apareceu com um chocolate quente.
- Tudo bem - disse ele. - Voc chegou aonde devia chegar.
- No quero chocolate, quero vinho. E quero descer para nosso lugar, a lareira, os
livros espalhados por todo canto.
Tinha dito "nosso lugar". No era o que havia planejado.
Olhou os seus ps; afora um pequeno corte, havia apenas marcas vermelhas, que
deviam desaparecer em algumas horas. Com certa dificuldade, desceu as escadas sem
prestar muita ateno a nada; foi para o seu canto, no tapete ao lado da lareira - descobrira que sempre que estava ali ela se sentia bem, como se fosse o seu "stio",
seu lugar naquela
casa.
- O tal lenhador me disse que, quando se faz um tipo de exerccio fsico, quando se
exige tudo de seu corpo, a mente ganha uma fora espiritual estranha, que tem a ver com a
"luz" que vi em voc. O que sentiu?
- Que a dor  amiga da mulher.
- Esse  o perigo.
- Que a dor tem um limite.
- Essa  a salvao. No se esquea disso.
A mente de Maria ainda estava confusa; experimentava a tal
"paz", quando fora alm do seu limite. Ele lhe mostrara outro tipo de sofrimento, e
tambm esse lhe dera um estranho prazer.
Ralf pegou uma grande pasta, e abriu-a na sua frente. Eram desenhos.
- A histria da prostituio. Foi o que voc me pediu, quando nos encontramos.
Sim, havia pedido, mas era apenas uma maneira de passar o tempo, de tentar ser
interessante. Isso no tinha a menor importncia agora.
- Durante todos estes dias, estive navegando em um mar desconhecido. No achei que
houvesse uma histria, pensava apenas que era a profisso mais antiga do mundo, como
dizem as pessoas. Mas existe uma histria; melhor dizendo, duas histrias.
- E estes desenhos?
Ralf Hart pareceu um pouco decepcionado porque ela no o compreendia, mas logo
controlou-se e seguiu adiante.
- So as coisas que coloquei no papel enquanto lia, pesquisava, aprendia.
- Falaremos disso outro dia; hoje no quero mudar de assunto, preciso entender a dor.
- Voc a sentiu ontem, e descobriu que ela a conduzia ao prazer. Voc a sentiu hoje, e
encontrou a paz. Por isso eu lhe digo: no se acostume, porque  muito fcil poder viver
com ela,  uma droga poderosa. Est no nosso cotidiano, no sofrimento escondido, na
renncia ao amor, quando o culpamos pela derrota de nossos sonhos. A dor assusta quando
mostra sua verdadeira face, mas  sedutora quando est vestida de sacrifcio, renncia. Ou
covardia. O ser humano, por mais que a rejeite, sempre encontra um meio de estar com ela,
namor- la, fazer com que seja parte da sua vida.
- No acredito. Ningum deseja sofrer.
- Se voc conseguir entender que pode viver sem sofrimento, j  um grande passo,
mas no creia que outras pessoas iro compreend- la. Sim, ningum deseja sofrer, e mesmo
assim quase todos procuram a dor, o sacrifcio, e sentem-se justificados, puros,
merecedores do respeito dos filhos, dos maridos, dos vizinhos, de Deus. No pensemos
nisso agora, saiba apenas que o que move o mundo no  a busca do prazer, mas da
renncia a tudo que  importante.
"O soldado vai para a guerra matar o inimigo? No: vai morrer por seu pas. A mulher
gosta de mostrar ao marido 0 quanto est contente? No: quer que ele veja o quanto se
dedica, o quanto sofre para v-lo feliz. O marido vai para o trabalho achando que
encontrar sua realizao pessoal? No: est dando seu suor e suas lgrimas pelo bem da
famlia. E por a vai: filhos que renunciam aos sonhos para alegrar os pais, pais que
renunciam  vida para alegrar os filhos, dor e sofrimento justificando aquilo que devia
trazer apenas alegria: amor."
- Pare.
Ralf parou. Era o momento certo para mudar de assunto, e come ou a mostrar um
desenho aps o outro. No incio, tudo parecia confuso, havia contornos de pessoas - mas tambm rabiscos, cores, traos nervosos ou geomtricos. Aos poucos, porm,
ela comeou
a entender o que ele dizia, porque cada palavra sua era acompanhada de um gesto de mo, e
cada frase a colocava no mundo de que at ento se negara a fazer parte dizendo para si
mesma que tudo no passava de um perodo em sua vida, uma maneira de ganhar dinheiro e
nada mais.
- Sim, descobri que no h apenas uma, mas duas histrias sobre a prostituio. A
primeira voc conhece muito bem porque  tambm a sua: uma moa bonita, por diversas
razes que ela escolheu, ou que escolheram por ela, descobre que a nica maneira de
sobreviver  vender o seu corpo. Algumas terminam dominando naes, como Messalina
fez com Roma, outras se transformam em mitos, como Madame Du Barry, outras ainda
namoram a aventura e a desgraa ao mesmo tempo, como a espi Mata Hari. Mas a maioria
jamais ir encontrar um momento de glria ou um grande desafio: sero para sempre
meninas do interior que vm em busca de fama, marido, aventura, e acabam descobrindo
uma outra realidade, mergulham nela por algum tempo, se acostumam, acham que esto
sempre no controle, e no conseguem fazer mais nada.
"Os artistas continuam fazendo suas esculturas, pinturas, e escrevendo seus livros h
mais de trs mil anos. Da mesma maneira, as prostitutas continuam seu trabalho atravs do
tempo como se nada tivesse mudado muito. Quer saber detalhes?"
Maria fez que sim com a cabea. Precisava ganhar tempo, entender a dor, comeava a
ter a sensao de que algo muito ruim havia sado de seu corpo enquanto caminhava no
parque.
- Aparecem prostitutas nos textos clssicos, nos hierglifos egpcios, na escrita
sumria, no Antigo e no Novo Testamento. Mas a profisso s comea a se organizar no
sculo VI a.C., quando o legislador Slon, na Grcia, institui bordis controlados pelo
Estado, e inicia a cobrana de impostos pelo "comrcio da carne". Os homens de negcios
atenienses se alegram porque o que antes era proibido agora passa a ser legal. As
prostitutas, por seu lado, comeam a ser classificadas segundo os impostos que pagam.
"A mais barata  chamada de pornai, escrava que pertence aos donos do
estabelecimento. Em seguida, vem a peripattica, que consegue seus fregueses na rua.
Finalmente, no nvel mais alto de preo e de qualidade, est a hetaira, `a companhia
feminina', que acompanha os homens de negcios em suas viagens, freqenta os
restaurantes chiques,  dona de seu prprio dinheiro, d conselhos, interfere na vida poltica
da cidade. Como voc v, o que aconteceu ontem, acontece tambm hoje.
"Na Idade Mdia, por causa das doenas sexualmente transmissveis..."
Silncio, medo de gripe, calor da lareira - agora necessria para aquecer seu corpo e
sua alma. Maria no quer mais ouvir aquela histria - dava- lhe a sensao de que o mundo
havia parado, que tudo se repetia, e o homem jamais seria capaz de dar ao sexo o respeito
merecido.
- Voc no parece interessada.
Ela fez um esforo. Afinal de contas, era o homem a quem decidira entregar seu
corao, embora j no estivesse to segura.
- No estou interessada naquilo que conheo; isso me entristece. Voc me disse que
havia outra histria.
- A outra histria  exatamente o oposto: a prostituio sagrada.
De repente, ela sara do seu estado sonolento e o escutava com ateno. Prostituio
sagrada? Ganhar dinheiro com sexo, e ainda assim aproximar-se de Deus? - O historiador grego Herdoto escreve a respeito de Babilnia: "Existe ali um
costume muito estranho: toda mulher que nasceu na Sumria  obrigada, pelo menos uma
vez na vida, a ir at o templo da deusa Ishtar e entregar seu corpo a um desconhecido, como
smbolo de hospitalidade, e por um preo simblico."
Depois iria perguntar quem era esta deusa; talvez tambm ela a ajudasse a recuperar
algo que havia perdido, e no sabia o que era.
- A influncia da deusa Ishtar espalhou-se por todo o Oriente Mdio, atingiu a
Sardenha, Siclia, e os portos do mar Mediterrneo. Mais tarde, durante o Imprio Romano,
outra deusa, Vesti, exige a virgindade total, ou a entrega total. Para manter o fogo sagrado,
mulheres do seu templo se encarregavam de iniciar os jovens e os reis no caminho da
sexualidade: cantavam hinos erticos, entravam em transe, e entregavam seu xtase ao
universo, numa espcie de comunho com a divindade.
Ralf Hart mostrou uma fotocpia de algumas letras antigas, com a traduo em
alemo no p da pgina. Declamou-a devagar, traduzindo cada verso:
Quando estou sentada  porta de uma taverna, eu, Ishtar, a deusa, sou prostituta, me,
esposa, divindade. Sou o que chamam de Vida Embora vocs chamem de Morte. Sou o que
chamam de Lei Embora vocs chamem de Marginal. Eu sou o que vocs buscam E aquilo
que conseguiram. Eu sou aquilo que vocs espalharam E agora recolhem meus pedaos.
Maria soluou um pouco, e Ralf Hart riu; sua energia vital estava voltando, a "luz"
comeava de novo a brilhar. Era melhor continuar com a histria, mostrar os desenhos,
faz-la sentir-se amada.
- Ningum sabe por que a prostituio sagrada desapareceu, depois de haver durado
pelo menos dois milnios. Talvez por causa das doenas, ou de uma sociedade que mudou
suas regras quando as religies tambm mudaram. Enfim, isso no existe mais, e no
voltar a existir. Hoje em dia, os homens controlam o mundo, e o termo serve apenas para
criar um estigma, e chamar de prostituta qualquer mulher que ande fora da linha. - Voc
pode ir ao Copacabana amanh?
Ralf no entendeu a pergunta, mas concordou imediatamente.
Do dirio de Maria, na noite em que caminhou descala pelo jardim Ingls em
Genve:
No me interessa se algum dia j foi sagrado ou no, mas EU ODEIO O QUE FAO.
Est destruindo minha alma, me fazendo perder o contato comigo mesma, me ensinando
que a dor  uma recompensa, o dinheiro compra tudo, justifica tudo.
Ningum  feliz  minha volta; os clientes sabem que precisam pagar por aquilo que
deveriam ter de graa, e isso  deprimente. As mulheres sabem que precisam vender aquilo
que gostariam de entregar apenas por prazer e carinho, e asso  destruidor. Lutei muito
antes de escrever isso, aceitar que estava infeliz, descontente - precisava e ainda preciso
resistir mais algumas semanas.
mal.
Entretanto, no d mais para ficar quieta, fingir que est tudo normal, que  um
perodo, uma poca da minha vida. Quero esquec- la, preciso amar - s isso, preciso amar.
A vida  curta - ou longa demais - para que eu possa me dar ao luxo de viv-la to
194
No  a casa dele. No  a sua casa. No  nem Brasil, nem Sua, mas um hotel - que
pode estar em qualquer lugar do mundo, sempre com os mesmos mveis, e aquele ambiente
que pretende ser familiar, o que o faz ainda mais distante. No  o hotel com a bela vista para o lago, a lembrana da dor, do sofrimento, do
xtase; suas janelas do para o Caminho de Santiago, uma rota de peregrinao mas no de
penitncia, um lugar onde as pessoas se encontram nos cafs  beira da estrada, descobrem
a "luz", conversam, ficam amigas, se apaixonam. Est chovendo, e a essa hora da noite
ningum anda por ali, mas andaram durante muitos anos, dcadas, sculos - talvez o
caminho precise respirar, descansar um pouco dos muitos passos que todos os dias se
arrastam por ele.
Apagar a luz. Fechar as cortinas.
Pedir que tire a roupa, tirar tambm a sua. A escurido fsica nunca  total, e quando
os olhos j esto acostumados, poder ver, no contorno de uma pequena luz que entra no se
sabe de onde, a silhueta do homem. Da outra vez que se encontraram, apenas ela havia
deixado parte do seu corpo nu.
Tirar dois lenos, cuidadosamente dobrados, lavados, e enxaguados vrias vezes, de
modo a no deixar nenhum trao de perfume ou de sabo. Aproximar-se dele e pedir que
vende seus olhos. Ele hesita por um momento, e comenta sobre alguns dos infernos por que
j passou. Ela diz que no se trata disso, que precisa apenas da escurido total, que agora 
sua vez de ensinar-lhe algo, como ontem ele lhe havia ensinado sobre a dor. Ele se entrega,
coloca a venda. Ela faz o mesmo; agora j no h fresta de luz, esto no verdadeiro escuro,
um precisa da mo do outro para chegar at a cama.
No, no devemos nos deitar. Vamos nos sentar como sempre fizemos, frente a frente,
s que um pouco mais perto, de modo que meus joelhos toquem os seus joelhos.
Sempre quis fazer isso. Mas nunca tinha o que precisava: tempo. Nem com o seu
primeiro namorado, nem com o homem que a penetrou pela primeira vez. Nem com o rabe
que pagou mil francos, talvez esperando mais do que ela foi capaz de dar embora mil
francos no bastassem para ela comprar o que desejava. Nem com os muitos homens que
passaram pelo seu corpo, entraram e saram de suas pernas, s vezes pensando apenas em si
mesmos, s vezes pensando tambm nela, s vezes com sonhos romnticos, s vezes apenas
com o instinto de repetir algo porque lhes disseram que  assim que um homem age, e se
no agir assim, no  homem.
Lembra-se do seu dirio. Est farta, quer que as semanas que faltam passem
rapidamente, e por isso entrega-se a este homem, porque ali est a luz de seu prprio amor
escondido. O pecado original no foi a ma que Eva comeu, foi achar que Ado precisava
compartilhar exatamente o que ela havia experimentado. Eva tinha medo de seguir o seu
caminho sem a ajuda de algum, ento quis dividir o que sentia.
Certas coisas no se dividem. No devemos ter medo dos oceanos em que
mergulhamos por nossa livre vontade; o medo atrapalha o jogo de todo mundo. O homem
est passando por infernos para entender isso. Amemos uns aos outros, mas no tentemos
possuir uns aos outros.
Eu amo este homem que est diante de mim, porque eu no o possuo, e ele no me
possui. Somos livres em nossa entrega, preciso repetir isso dezenas, centenas, milhes de
vezes, at que termine por acreditar em minhas prprias palavras.
Pensa um pouco nas outras prostitutas que trabalham com ela. Pensa na sua me, nas
suas amigas. Todas acreditam que o homem deseja apenas onze minutos por dia, e pagam
um dinheiro por isso. No, no  assim; o homem tambm  uma mulher; quer encontrar
algum, descobrir um sentido para sua vida.
Ser que sua me se comporta como ela, e finge ter orgasmo com seu pai? Ou ser
que, no interior do Brasil, ainda  proibido mostrar que uma mulher tem prazer no sexo?
Sabe to pouco da vida, do amor, e agora - com os olhos vendados e todo 0 tempo do mundo - vai descobrindo a origem de tudo, e tudo comea onde e como ela gostaria
de ter
comeado.
O toque. Esquece as prostitutas, os clientes, sua me e seu pai, agora est na escurido
total. Passou a tarde inteira procurando o que poderia dar para um homem que lhe devolvia
a dignidade, lhe fazia entender que a busca da alegria  mais importante do que a
necessidade da dor.
Eu gostaria de lhe dar a felicidade de ensinar- me algo novo, como ontem me ensinou
sobre sofrimento, prostitutas de rua, prostitutas sagradas. Vi que  feliz quando est me
fazendo aprender algo, ento que me faa aprender, que me guie. Eu gostaria de saber como
se chega at o corpo, antes de se chegar na alma, na penetrao, no orgasmo.
Estende o brao em sua direo, e pede que ele faa o mesmo. Sussurra poucas
palavras, dizendo que aquela noite, naquele lugar de ningum, gostaria que ele descobrisse
sua pele, a fronteira entre ela e o mundo. Pede que a toque, que a sinta com suas mos,
porque os corpos se entendem, embora nem sempre as almas estejam de acordo. Ele
comea a toc- la, ela tambm o toca, e ambos, como se tivessem combinado tudo antes,
evitam as partes do corpo em que a energia sexual aflora mais rapidamente.
Os dedos tocam o seu rosto, ela sente um pouco o cheiro de tinta, um cheiro que
sempre permanecer ali, por mais que ele lave aquelas mos milhares, milhes de vezes,
que estava ali quando nasceu, quando ele deve ter visto a primeira rvore, a primeira casa, e
ter decidido desenh - la em seus sonhos. Tambm ele deve estar sentindo algum cheiro em
sua mo, mas ela no sabe o que , e no quer perguntar, porque neste momento tudo 
corpo, o resto  silncio.
Acaricia, e sente-se acariciada. Poderia ficar assim a noite inteira, porque  gostoso,
no vai terminar necessaria mente em sexo - e neste momento, justamente porque no tem
obrigao, ela sente um calor entre as pernas, e sabe que ficou mida. Vai chegar a hora em
que ele tocar o seu sexo, descobrir que est molhado, no sabe se  bom ou ruim, mas 
assim que seu corpo est reagindo, e no pretende dizer para ir por aqui, ir por ali, mais
devagar, mais rpido. As mos do homem agora esto tocando as suas axilas, os plos de
seus braos se eriam, ela tem vontade de empurr- las dali - mas  bom, embora talvez seja
dor o que esteja sentindo. Faz o mesmo nele, nota que as axilas tm uma textura diferente,
talvez por causa do desodorante que ambos usam, mas no que est pensando? No deve
pensar. Deve tocar, isso  tudo.
Os dedos dele traam crculos em torno do seu seio, como um animal que espreita.
Ela quer que se movam mais rpido, que toque logo os bicos, porque o seu pensamento est
indo mais veloz que as mos dele, mas, talvez sabendo disso, ele provoca, delicia-se, e
tarda uma infinidade at chegar ali. Esto duros, ele brinca um pouco, e aquilo deixa o seu
corpo mais arrepiado, e seu sexo mais quente e mais mido. Agora ele passeia por seu
ventre, desvia-se e vai at as pernas, os ps, sobe e desce as mos pelo lado interno de suas
coxas, sente o calor, mas no se aproxima,  um toque doce, leve, e quanto mais leve, mais
alucinante.
Ela faz o mesmo, mantendo as mos quase flutuando, tocando apenas os cabelos das
pernas, e tambm sente o calor, quando se aproxima do sexo. De repente  como se tivesse
recuperado misteriosamente a virgindade, como se descobrisse pela primeira vez o corpo de
um homem. Toca-o. No est duro como imaginava, e ela est toda molhada, isso  injusto,
mas talvez o homem precise de mais tempo, sei l.
E comea a acarici- lo como s as virgens sabem fazer, porque as prostitutas j se
esqueceram. O homem reage, o sexo comea a crescer em suas mos, e ela aumenta
lentamente a presso, sabendo agora onde deve tocar, mais na parte de baixo que na de cima, deve envolv- lo com os dedos, puxar a pele para trs, em direo ao
corpo. Agora ele
est excitado, muito excitado, toca os lbios de sua vagina, mantendo a suavidade, e ela tem
vontade de pedir que seja mais forte,, coloque os dedos l dentro, na parte de cima. Mas ele
no faz isso, espalha no clitris um pouco do lquido que jorra de seu ventre, e de novo faz
os mesmos movimentos circulares que fez nos seus mamilos. Aquele homem a toca como
se fosse ela mesma.
Uma das mos dele subiu de novo para o seu seio, como  bom, como gostaria que ele
a abraasse agora. Mas no, esto descobrindo o corpo, tm tempo, precisam de muito
tempo. Podiam fazer amor agora, seria a coisa mais natural do mundo, e possivelmente
seria bom, mas tudo aquilo  to novo, precisa controlar-se, no quer estragar tudo.
Lembra-se do vinho que tomaram na primeira noite, lentamente, sorvendo cada gole,
sentindo que a esquentava, a fazia ver o mundo diferente, a deixava mais solta e mais em
contato com a vida.
Deseja tambm beber aquele homem, e ento poder esquecer para sempre o mau
vinho, que se toma de um gole, d uma sensao de embriaguez, mas termina em dor de
cabea e um buraco na alma.
Ela pra, suavemente entrelaa seus dedos nas mos dele, escuta um gemido e tem
vontade de gemer tambm, mas se controla, sente que aquele calor se espalha por todo o
seu corpo, o mesmo deve estar acontecendo com ele. Sem orgasmo a energia se dispersa,
vai at o crebro, no a deixa pensar em mais nada a no ser em ir at o final, mas  isso
que ela quer - parar, parar no meio, espalhar o prazer por todo o corpo, invadir a mente,
renovar o compromisso e o desejo, voltar a ser virgem.
Tira suavemente a venda dos seus prprios olhos, e faz o mesmo com ele. Acende a
luz da mesa-de-cabeceira. Os dois esto nus, e no sorriem, apenas se olham. Eu sou o
amor, eu sou a msica, pensa ela. Vamos danar.
Mas no diz nada disso: conversam alguma coisa trivial, quando vamos nos encontrar
de novo, ela marca uma data, talvez daqui a dois dias. Ele diz que gostaria que o
acompanhasse em uma exposio, ela vacila. Isso significaria conhecer seu mundo, seus
amigos, e o que vo dizer, o que vo pensar.
Diz que no. Mas ele percebe que sua vontade era dizer sim, ento insiste, usando
alguns argumentos tolos, mas que fazem parte da dana que esto danando agora, ela
termina por ceder, porque era isso que queria. Marca um lugar para se encontrarem, no
mesmo caf a que foram no primeiro dia. Ela diz que no, os brasileiros so supersticiosos,
e no devem se encontrar no lugar onde se viram no primeiro dia, porque aquilo pode
fechar um ciclo, e acabar tudo.
Ele diz que est contente, porque ela no quer fechar este ciclo. Decidem por uma
igreja de onde se pode ver a cidade, e que est no Caminho de Santiago, parte da misteriosa
peregrinao que os dois tm feito desde que se encontraram.
Do dirio de Maria, na vspera de comprar sua passagem de avio para o Brasil:
Era uma vez um pssaro. Adornado com um par de asas perfeitas e plumas reluzentes,
coloridas e maravilhosas. Enfim, um animal feito para voar livre e solto do cu, alegrar
quem o observasse.
Um dia, uma mulher viu este pssaro e se apaixonou por ele. Ficou olhando o seu vo
com a boca aberta de espanto, o corao batendo mais rpido, os olhos brilhando de
emoo. Convidou-o para voar com ela, e os dois viajaram pelo cu em completa harmonia.
Ela admirava, venerava, celebrava o pssaro. Mas ento pensou: talvez ele queira conhecer algumas montanhas distantes! E a
mulher sentiu medo. Medo de nunca mais sentir aquilo com outro pssaro. E sentiu inveja,
inveja da capac idade de voar do pssaro.
E sentiu-se sozinha.
E pensou: "Vou montar uma armadilha. A prxima vez que o pssaro surgir, ele no
mais partir."
O pssaro, que tambm estava apaixonado, voltou no dia seguinte, caiu na armadilha,
e foi preso na gaiola.
Todos os dias ela olhava o pssaro. Ali estava o objeto de sua paixo, e ela mostrava
para suas amigas, que comentavam: Mas voc  uma pessoa que tem tudo." Entretanto, uma
estranha transformao comeou a processar-se: como tinha o pssaro, e j no precisava
conquist- lo, foi perdendo o interesse. O pssaro, sem poder voar e exprimir o sentido de
sua vida, foi definhando, perdendo o brilho, ficou feio - e a mulher j no prestava mais
ateno nele, apenas na maneira como o alimentava e como cuidava de sua gaiola.
Um belo dia, o pssaro morreu. Ela ficou profundamente triste, e vivia pensando nele.
Mas no se lembrava da gaiola, recordava apestas o dia em que o vira pela primeira vez,
voando contente entre as nuvens.
Se ela observasse a si mesma, descobriria que aquilo que a emocionava tanto no
pssaro era a sua liberdade, a energia das asas em movimento, no o seu corpo fsico.
Sem o pssaro, sua vida tambm perdeu o sentido, e a morte veio bater  sua porta.
"Por que voc veio perguntou  morte.
"Para que voc possa voar de novo com ele nos cus'; respondeu a morte. "Se o
tivesse deixado partir e voltar sempre, voc o amaria e o admiraria ainda mais, - entretanto,
agora voc precisa de mim para poder encontr-lo de novo."
Comeou o dia fazendo algo que ensaiara durante todos aqueles meses: entrar em uma
agncia de viagens e comprar uma passagem para o Brasil, na data que marcara em seu
calendrio.
Agora faltavam apenas mais duas semanas na Europa. A partir daquele momento,
Genve seria o rosto de um homem que amo u, e por quem fora amada. A Rue de Berne
seria um nome, homenagem  capital da Sua. Lembraria do seu quarto, do lago, da lngua
francesa, das loucuras que uma menina de vinte e trs anos (seu aniversrio fora na
vspera)  capaz de fazer - at entender que h um limite.
No iria prender o pssaro, ou pedir que a acompanhasse ao Brasil; ele era a nica
coisa verdadeiramente pura que lhe havia acontecido. Um pssaro como esse tem que voar
livre, alimentar-se da saudade de um tempo em que voou junto com algum. E ela tambm
era um pssaro; ter Ralf Hart ao seu lado seria lembrar para sempre dos dias no
Copacabana. E isso era seu passado, no o seu futuro.
Decidiu que ia dizer "adeus" apenas uma vez, quando chegasse o momento da partida;
no ficaria sofrendo a cada lembrana de que "em breve j no estarei mais aqui". Portanto,
enganou seu corao e caminhou por Genve naquela manh como tivesse sempre passeado
por aquelas ruas, a colina, o Caminho de Santiago, a ponte de Montblanc, os bares que
costumava frequentar. Acompanhou o vo das gaivotas no rio, os comerciantes recolhendo
as barracas, as pessoas saindo dos seus escritrios para almoar, a cor e o gosto da ma
que estava comendo, os avies pousando a distncia, o arco-ris na coluna de gua que
subia do meio do lago, a alegria tmida e escondida de todos que passavam por ela, os
olhares de desejo, os olhares sem expresso, os olhares. Vivera quase um ano em uma
cidade pequena, como tantas outras cidades pequenas no mundo, e se no fosse pela
arquitetura peculiar e pelo excesso de letreiros de bancos, ela podia estar no interior do Brasil. Havia feira. Havia mercado. Havia donas de casa discutindo o preo.
Havia
estudantes que haviam deixado a aula antes da hora, talvez com alguma desculpa sobre pai
e me doentes, e agora passeavam e se beijavam nas margens do rio. Havia gente que se
sentia em casa, e gente que se sentia estrangeira. Havia jornais que falavam de escndalos,
e respeitveis revistas para homens de negcios que, por sinal, s eram vistos lendo jornais
sobre escndalos.
Foi at a biblioteca devolver o manual sobre administrao de fazendas. No tinha
entendido nada, mas o livro lhe recordara, nos momentos em que pensava ter perdido o
controle de si mesma e de seu destino, qual era o objetivo de sua vida. Tinha sido um
companheiro silencioso, com sua capa amarela sem desenhos, uma srie de grficos, mas,
sobretudo, tinha sido um farol nas noites escuras das semanas mais recentes.
Sempre fazendo planos para o futuro. E sempre sendo surpreendida pelo presente,
dizia a si mesma. Pensava em como havia descoberto a si mesma atravs da independncia,
do desespero, do amor, da dor, para logo encontrar-se com o amor de novo - e gostaria que
as coisas terminassem por ali.
O mais curioso disso tudo  que, enquanto algumas de suas companheiras de trabalho
falavam das virtudes e do xtase por estar com certos homens na cama, ela jamais tinha se
descoberto melhor ou pior atravs do sexo. No resolvera seu problema, era incapaz de ter
um orgasmo com a penetrao, e vulgarizara tanto o ato sexual que talvez no conseguisse
nunca mais encontrar no "abrao do reencontro" -como Ralf Hart o chamava - o fogo e a
alegria que buscava.
Ou talvez (como costumava pensar de vez em quando) sem amor fosse impossvel ter
qualquer prazer na cama, como diziam as mes, os pais, os livros romnticos.
A bibliotecria, normalmente sria (e sua nica amiga, embora jamais lhe tivesse dito
isso), estava de bom humor. Atendeu-a na hora do almoo e convidou-a para compartilhar
um sanduche. Maria agradeceu e disse que tinha acabado de almoar.
- Voc demorou muito para ler.
- No entendi nada.
- Voc se lembra do que me pediu uma vez?
No, no lembrava, mas depois que viu o sorriso malicioso no ar da mulher  sua
frente, imaginou o que teria sido. Sexo.
- Sabe, desde que voc veio aqui procurando por este tipo de assunto, eu resolvi fazer
um levantamento do que tnhamos. No era muito, e como precisamos educar nossa
juventude, eu encomendei alguns. Assim, no precisam aprender da pior maneira possvel,
com prostitutas, por exemplo.
A bibliotecria apontou para uma pilha de livros em um canto, todos cuidadosamente
encapados com papel pardo.
- Ainda no tive tempo de classific-los, mas andei dando uma olhada e fiquei
horrorizada com o que descobri.
Bem, j podia adivinhar o que a mulher diria: posies constrangedoras,
sadomasoquismo, e coisas deste tipo. Melhor dizer que tinha que voltar a trabalhar (no
sabia onde tinha dito que trabalhava, se em um banco, ou em uma loja - mentira dava muito
trabalho, ela se esquecia sempre).
Agradeceu, fez sinal de que ia sair, mas a outra comentou:
- Voc tambm ia ficar horrorizada. Por exemplo: sabia que o clitris  uma inveno
recente? Inveno? Recente? Ainda esta semana algum tinha tocado no seu, como se sempre
estivesse ali, e como se aquelas mos conhecessem bem o terreno que estava sendo
explorado - apesar da escurido completa.
- Foi oficialmente aceito em 1559, depois que um mdico, Realdo Columbo, publicou
um livro chamado De re anatomica. Durante mil e quinhentos anos da era crist, ele foi
oficialmente ignorado. Columbo o descreve, em seu livro, como "uma coisa bonita e til",
voc acredita?
As duas riram.
- Dois anos depois, em 1561, outro mdico, Gabrielle Fallopio, disse que a
"descoberta" tinha sido dele. Veja s! Dois homens, italianos, claro, que entendem do
assunto, discutindo quem havia oficialmente colocado o clitris na histria do mundo!
Aquela conversa era interessante, mas Maria no queria pensar no assunto,
principalmente porque sentia de novo 0 lquido escorrendo, e o sexo ficando molhado -s
de lembrar do toque, das vendas, das mos que passeavam no seu corpo. No, no estava
morta para o sexo, aquele homem a havia resgatado de alguma maneira. Que bom continuar
viva.
A bibliotecria, porm, estava entusiasmada:
- Mesmo depois de "descoberto", continuou a ser desrespeitado - disse ela, parecendo
uma perita em clitoriologia, ou seja l qual fosse o nome desta cincia. -As mutilaes que
lemos hoje nos jornais, praticadas por certas tribos da frica que ainda tiram da mulher o
direito ao prazer, no so nenhuma novidade. Aqui mesmo na Europa, no sculo XIX,
ainda se faziam operaes para eliminar o clitris, acreditando que naquela pequena e
insignificante parte da anatomia feminina estava toda a fonte de histeria, epilepsia,
tendncia ao adultrio e incapacidade de ter filhos.
Maria estendeu a mo para despedir-se, mas a bibliotecria no dava sinais de
cansao.
- Pior ainda, nosso querido Freud, o descobridor da psicanlise, dizia que o orgasmo
feminino, em uma mulher normal, deve mover-se do clitris para a vagina. Seus mais fiis
seguidores, desenvolvendo esta tese, passaram a afirmar que o fato de manter o prazer
sexual concentrado no clitris era um sinal de infantilidade, ou, o que  pior, de
bissexualidade.
"E no entanto, como rodas ns sabemos,  muito difcil ter um orgasmo apenas com a
penetrao.  bom ser possuda por um homem, mas o prazer est naquele grozinho ali,
descoberto por um italiano!"
Distrada, Maria reconheceu que tinha o problema diagnosticado por Freud: ainda era
infantil, seu orgasmo no tinha se deslocado para a vagina. Ou ser que Freud estava
errado?
- E o ponto G, o que voc acha?
- A senhora sabe onde fica?
A mulher ficou corada, tossiu, mas teve coragem de responder:
- Logo que voc entra, no primeiro andar, janela dos fundos.
Genial! Descrevera a vagina como um edifcio! Talvez tivesse lido aquela explicao
em um livro para meninas: depois que algum bater  porta e entrar, vai descobrir todo um
universo dentro do prprio corpo. Sempre que se masturbava, preferia o tal ponto G ao
clitris, j que este lhe dava uma certa aflio, um prazer misturado com agonia, algo
angustiante.
Ia sempre para o primeiro andar, janela dos fundos! Vendo que a mulher no ia parar de falar - talvez tivesse acabado de descobrir nela
uma cmplice de sua prpria sexualidade perdida -, acenou com a mo, saiu, e procurou
continuar se concentrando em qualquer bobagem, porque no era dia de pensar em
despedidas, clitris, virgindade refeita, ou ponto G. Prestou ateno nos rudos - sinos que
tocavam, cachorros latindo, o tram (que era como eles chamavam os bondes locais)
rangendo nos trilhos, os passos, a respirao, os letreiros que ofereciam tudo.
J no tinha vontade de voltar ao Copacabana. Mesmo assim sentia-se na obrigao
de levar seu trabalho at o final, embora desconhecesse a verdadeira razo - afinal de
contas, j tinha conseguido economizar o suficiente. Durante aquela tarde, podia fazer
algumas compras, conversar com um ge rente de banco que era seu cliente mas que havia
prometido ajud- la com suas economias, tomar um caf, mandar pelo correio algumas
roupas que no caberiam na bagagem. Estranho, estava um pouco triste, no conseguia
entender; talvez porque ainda faltassem duas semanas, precisava fazer passar o tempo,
olhar a cidade com outros olhos, alegrar-se por ter vivido tudo aquilo.
Chegou a um cruzamento que j atravessara centenas de vezes; dali podia ver o lago,
a coluna de gua e - no meio do jardim que se estendia do outro lado da calada - o belo
relgio de flores, um dos smbolos da cidade, e ele no a deixava mentir, porque...
De repente, o tempo, o mundo ficou imvel.
Que histria era aquela de virgindade recm-recuperada, que pensava desde que
acordara?
O mundo parecia congelado, aquele segundo no passava nunca, ela estava diante de
algo muito srio e muito importante em sua vida, no podia esquecer, no podia fazer como
os seus sonhos noturnos; sempre prometia anot-los, e nunca se lembrava...
"No pense em nada. O mundo parou. O que est acontecendo?"
CHEGA!
O pssaro, a linda histria do pssaro que acabara de escrever, era sobre Ralf Hart?
No, era sobre ela mesma!
PONTO FINAL!
Eram 11:11h da manh, e ela estava parando naquele momento. Era uma estrangeira
em seu prprio corpo, estava redescobrindo a virgindade recm-recuperada, mas seu
renascer era to frgil, que se continuasse ali estaria perdida para sempre. Experimentara o
cu talvez, o inferno com certeza, mas a aventura chegava ao final. No podia esperar duas
semanas, dez dias, uma semana - precisava ir embora correndo - porque, ao olhar aquele
relgio cheio de flores, com turistas tirando fotografias e crianas brincando ao redor,
acabara de descobrir o motivo de sua tristeza.
E o motivo era o seguinte: no queria voltar.
E a razo no era Ralf Hart, a Sua, a aventura. A verdadeira razo era simples
demais: dinheiro.
Dinheiro! Um pedao de papel especial, pintado com cores sbrias, que todo mundo
dizia valer alguma coisa - e ela acreditava, todos acreditavam nisso - at o momento em que
fosse com uma montanha daquele papel a um banco, um respeitvel, tradicional,
secretssimo banco suo, e pedisse: "Posso adquirir um pouco de horas para minha vida?"
"No, senhora, no vendemos isso; s compramos."
Maria foi despertada de seu delrio pela freada de um carro, a reclamao de um
motorista, e um velhinho sorridente, falando ingls, e pedindo que recuasse - o sinal estava
fechado para pedestres.
"Bem, acho que descobri algo que todo mundo deve saber." Mas no sabiam: olhou  sua volta, pessoas andando de cabea baixa, correndo para ir
ao trabalho,  escola, a uma agncia de empregos,  Rue de Berne, sempre dizendo: "Posso
esperar um pouco mais. Tenho um sonho, mas ele no precisa ser vivido hoje, porque
preciso ganhar dinheiro." Claro, seu emprego era amaldioado - mas no fundo tratava-se
apenas de vender seu tempo, como todo mundo. Fazer coisas de que no gostava, como
todo mundo. Aturar gente insuportvel, como todo mundo. Entregar seu precioso corpo e
sua preciosa alma em nome de um futuro que nunca chegava, como todo mundo. Dizer que
ainda no tinha o bastante, como todo mundo. Aguardar s mais um pouquinho, como todo
mundo. Esperar mais um pouco, ganhar algo mais, deixar para realizar seus desejos depois,
no momento estava muito ocupada, tinha uma oportunidade diante de si, clientes que a
esperavam, que eram fiis, que podiam pagar de trezentos e cinqenta at mil francos por
noite.
E pela primeira vez na vida, apesar de todas as coisas boas que podia comprar com o
dinheiro que ganhasse - quem sabe, apenas mais um ano? -, ela resolveu consciente, lcida
e propositadamente deixar passar uma oportunidade.
Maria esperou que o sinal abrisse, atravessou a rua, parou diante do relgio de flores,
pensou em Ralf, sentiu de novo o seu olhar de desejo na noite em que abaixara parte de seu
vestido, sentiu suas mos lhe tocando os seios, o sexo, o rosto, ficou molhada, olhou para a
imensa coluna de gua a distncia, e sem precisar tocar uma s parte de seu corpo - teve um
orgasmo ali, na frente de todo mundo.
Ningum notou; todos estavam muito, muito ocupados.
Nyah, a nica de suas colegas com que tinha uma relao prxima do que se poderia
chamar de amizade, chamou-a assim que entrou. Estava sentada com um oriental, e os dois
riam.
- Veja isso - disse a Maria. - Veja o que quer que eu faa com ele!
O oriental, fazendo um olhar cmplice e mantendo o sorriso nos lbios, abriu a tampa
de uma espcie de caixa de charutos. De longe, Milan espichou o olho para ver se no se
tratava de seringas ou drogas. No, era apenas aquela coisa que nem ele entendia direito
como funcionava, mas no era nada de especial.
- Parece coisa do sculo passado! - disse Maria.
-  coisa do sculo passado - concordou o oriental, indignado com a ignorncia do
comentrio. - Este a tem mais de cem anos, e custou uma fortuna.
O que Maria via era uma srie de vlvulas, uma manivela, circuitos eltricos,
pequenos contatos de metal, pilhas. Parecia o interior de um antigo aparelho de rdio, com
dois fios saindo, em cujas extremidades estavam pequenos bastes de vidro, do tamanho de
um dedo. Nada que pudesse custar uma fortuna.
- Como funciona?
Nyah no gostou da pergunta de Maria. Embora confiasse na brasileira, as pessoas
mudam de uma hora para outra, e ela podia estar de olho no seu cliente.
- Ele j me explicou.  o Basto Violeta.
E, virando-se para o oriental, sugeriu que sassem, porque decidira aceitar o convite.
Mas o homem parecia entusiasmado com o interesse que seu brinquedo despertava.
- Por volta de 1900, quando as primeiras pilhas comearam a circular no mercado, a
medicina tradicional comeou a fazer experincias com eletricidade, para ver se curava
doenas mentais ou histeria. Tambm foi usada para combater espinhas e estimular a
vitalidade da pele. Est vendo estas duas extremidades? Elas eram colocadas aqui -apontou
para suas tmporas - e a bateria provocava a mesma descarga esttica que sofremos quando
o ar est muito seco. Aquilo era uma coisa que jamais acontecia no Brasil, mas na Sua er a muito comum,
Maria descobrira quando certo dia, ao abrir a porta de um txi escutara um estalido e levara
um choque. Achou que tinha sido um problema do carro, reclamou, disse que no ia pagar a
corrida, e o chofer quase a agrediu, chamando-a de ignorante. Ele tinha razo; no era o
carro, era o ar muito seco. Depois de vrios choques, passou a ter medo de tocar em
qualquer coisa de metal, at que descobriu em um supermercado uma pulseira que
descarregava a eletricidade acumulada no corpo.
Virou-se para o oriental:
- Mas  extremamente desagradvel!
Nyah estava cada vez mais impaciente com os comentrios de Maria. Para evitar
futuros conflitos com sua nica possvel amiga, mantinha o brao em torno do ombro do
homem, de modo a no deixar nenhuma dvida sob re a quem ele pertencia.
- Depende de onde voc colocar - o oriental riu alto.
Em seguida, girou a pequena manivela, e os dois bastes pareceram ficar da cor
violeta. Em um movimento rpido, ele encostou-os nas duas mulheres; houve o estalido,
mas o choque parecia mais uma espcie de coceira que dor.
Milan aproximou-se.
- Por favor, no use isso aqui.
O homem tornou a colocar os bastes na caixa. A filipina aproveitou a oportunidade e
sugeriu que fossem logo para o hotel. O oriental pareceu um pouco decepcionado, a
recmchegada estava muito mais interessada no Basto Violeta do que a mulher que agora
o convidava para sair. Vestiu seu casaco, guardou a caixa dentro de uma pasta de couro,
comentando:
- Hoje em dia esto fabricando de novo, virou uma espcie de moda entre pessoas que
procuram prazeres especiais. Mas este que voc viu a s pode ser encontrado em raras
colees mdicas, museus ou antiqurios.
Milan e Maria ficaram parados, sem saber o que dizer.
- Voc j tinha visto isso?
- Deste tipo, no. Deve realmente custar uma pequena fortuna, mas este homem  um
alto executivo de uma companhia petrolfera. J vi outros, modernos.
- E o que fazem?
- Enfiam no corpo... e pedem que a mulher gire a manivela. Levam o choque l
dentro.
- No podiam fazer isso sozinhos?
- Qualquer coisa em sexo voc pode fazer sozinho. Mas  melhor que continuem
achando que tem mais graa quando esto com outra pessoa, ou meu bar iria  falncia e
voc teria que trabalhar em uma loja de verduras. Por falar nisso, o seu cliente especial
disse que vir hoje  noite. Por favor, recuse qualquer convite.
- Recusarei. Inclusive o dele. Porque vim apenas despedirme, estou indo embora.
Milan pareceu no acusar o golpe.
- O pintor?
- No. O Copacabana. Existe um limite, e cheguei a ele esta manh, enquanto olhava
aquele relgio de flores perto do lago.
- Qual  o limite?
- O preo de uma fazenda no interior do Brasil. Sei que posso ganhar mais, trabalhar
mais um ano, que diferena faria, no  verdade?
"Pois eu sei a diferena: estaria para sempre nesta armadilha, como voc est, e esto
os clientes, os executivos, os comissrios de bordo, os caadores de talento, os executivos de companhias de discos, os muitos homens que conheci, a quem vendi meu
tempo, e que
no podem me vend- lo de volta. Se eu ficar mais um dia, fico mais um ano, e se ficar mais
um ano, no sairei nunca."
Milan fez um discreto sinal afirmativo, como se entendesse e concordasse com tudo,
embora no pudesse dizer nada - porque podia contagiar todas as meninas que trabalhava m
para ele. Mas era um homem bom, e embora no tivesse dado sua bno, tampouco fez
meno de tentar convencer a brasileira de
Do dirio de Maria, ao voltar para casa:
No me lembro mais quando foi, mas em um domingo desses, resolvi entrar numa
igreja para assistir  missa. Depois de muito tempo esperando, foi que me dei conta de que
estava no lugar errado - era um templo protestante.
Ia sair, mas o pastor comeou o sermo, achei que seria indelicado levantar-me - e
isso foi uma bno, porque naquele dia escutei coisas que precisava muito ouvir.
O pastor disse algo como:
"Em todas as lnguas do mundo existe um mesmo ditado: o que os olhos no vem, o
corao no sente. Pois eu afirmo que no h nada mais falso do que isso; quanto mais
longe, mais perto do corao esto os sentimentos que procuramos sufocar e esquecer. Se
esta era uma estrangeira em uma terra estrangeira, e agradeci por ter me lembrado de que o
que os olhos no vem, o corao sente. E por ter sentido tanto, hoje vou embora.
Pegou as duas malas e colocou-as em cima da cama; sempre estiveram ali, esperando
o dia em que tudo chegaria ao final. Imaginava que iria ench - las de muitos presentes,
vestidos novos, fotos na neve e nas grandes capitais europias, lembranas de um tempo
feliz em que havia conhecido o pas mais seguro e mais generoso do mundo. Tinha alguns
vestidos novos, era verdade, e algumas fotos na neve que um dia cara em Genve mas,
afora isso, nada mais seria como havia imaginado.
Chegara com o sonho de ganhar muito dinheiro, aprender sobre a vida e sobre quem
era, comprar uma fazenda para os pais, encontrar um marido, e trazer a famlia para
conhecer onde morava. Voltava com o dinheiro exato para realizar um sonho, sem ter
visitado as montanhas, e - o que era pior - uma estranha para si mesma. Mas estava
contente, sabia que era chegado o momento de parar.
Pouca gente no mundo reconhece esse momento.
Vivera apenas quatro aventuras - ser danarina em um cabar, aprender francs,
trabalhar como prostituta e amar perdidamente um home m. Quantas pessoas podem
vangloriar-se de tanta emoo em um ano? Estava feliz, apesar da tristeza, e aquela tristeza
tinha um nome, no se chamava prostituio, nem Sua, nem dinheiro, mas Ralf Hart.
Embora jamais tenha reconhecido, no fundo do corao gostaria de ter se casado com ele, o
homem que agora a esperava em uma igreja, pronto para lev-la a conhecer seus amigos,
sua pintura, seu mundo.
Pensou em faltar ao encontro, hospedar-se em um hotel perto do aeroporto, j que o
vo saa na manh seguinte; a partir de agora, cada minuto passado ao seu lado seria um
ano de sofrimento no futuro, por tudo aquilo que ela poderia ter dito e no diria, pelas
lembranas da sua mo, de sua voz, de seu apoio, de suas histrias.
Abriu de novo a mala, retirou o pequeno vago do trem eltrico que ele lhe dera na
primeira noite em seu apartamento. Contemplou-o por alguns minutos e jogou-o no lixo; aquele trem no merecia conhecer o Brasil, tinha sido intil e injusto para
com a criana
que sempre o desejara.
No, no iria  igreja; talvez ele lhe perguntasse algo, e se respondesse a verdade -
"estou indo embora" - ele iria pedir que ficasse, prometeria tudo para no perd- la naquele
momento, declararia seu amor j demonstrado em todo o tempo que passaram juntos. Mas
tinham aprendido a conviver em liberdade, e nenhuma outra relao iria dar certo - talvez
esta fosse a nica razo pela qual ambos se amavam, porque sabiam que um no precisava
do outro. Os homens sempre se assustam quando uma mulher diz "eu quero depender de
voc", e Maria gostaria de levar consigo a imagem de um Ralf Hart apaixonado, entregue,
pronto a qualquer coisa por ela.
Ainda tinha tempo de decidir se ia ou no ao encontro; no momento precisava
concentrar-se em coisas mais prticas. Viu quantas coisas tinha deixado fora das malas,
sem saber onde coloc-las. Resolveu que o dono do imvel tomaria a deciso, quando
entrasse no apartamento e encontrasse os eletrodomsticos na cozinha, os quadros
comprados em um mercado de segunda mo, as toalhas e as roupas de cama. No poderia
levar nada disso para o Brasil, mesmo que seus pais necessitassem mais do que qualquer
mendigo suo; elas sempre iriam lembr-la de tudo a que se aventurou.
Saiu, foi at o banco e pediu para retirar todo o dinheiro que tinha ali depositado. O
gerente - que j freqentara sua cama disse que era uma m idia, aqueles francos poderiam
continuar rendendo, e ela receberia os juros no Brasil. Alm do mais, caso fosse roubada,
seriam muitos meses de trabalho perdido. Maria hesitou por um momento, achando - como
sempre achava - que estavam querendo ajud- la de verdade. Mas, depois de refletir um
pouco, concluiu que o objetivo daquele dinheiro no era transformar-se em mais papel, mas
em uma fazenda, uma casa para seus pais, algumas cabeas de gado e muito mais trabalho.
Retirou cada centavo, colocou em uma pequena bolsa que comprara especialmente
para a ocasio, e amarrou-a na cintura, por baixo da roupa.
Foi at a agncia de viagens, rezando para que tivesse coragem de ir adiante; quando
quis mudar a passagem, lhe disseram que o vo do dia seguinte tinha uma escala em Paris,
para troca de avio. No tinha importncia - o que precisava era estar longe dali antes que
pudesse pensar duas vezes.
Caminhou at uma das pontes, comprou um sorvete embora j comeasse a esfriar de
novo - e olhou Genve. Ento tudo lhe pareceu diferente, como se tivesse acabado de
chegar e precisasse ir aos museus, aos monumentos histricos, aos bares e restaurantes da
moda. Engraado que, quando se mora em uma cidade, se mpre se deixa para conhec-la
depois - e geralmente acabamos no a conhecendo nunca.
Pensou em ficar contente porque estava voltando a sua terra, mas no conseguiu.
Pensou em ficar triste por estar deixando uma cidade que a tratara to bem, e tampouco
conseguiu. A nica coisa que pde fazer foi derramar algumas lgrimas, com medo de si
mesma, uma moa inteligente, que tinha tudo para ser bem-sucedida, mas que geralmente
tomava decises erradas.
Torceu para que desta vez estivesse certa.
A igreja estava completamente vazia quando entrou, e ela pde contemplar em
silncio os lindos vitrais, iluminados pela luz exterior, a luz de um dia lavado pela
tempestade da noite anterior. Diante dela, um altar com uma cruz vazia; no estava diante
de um instrumento de tortura, com um homem ensangentado  beira da morte - mas de um
smbolo de ressurreio, onde o instrumento de suplcio perdia todo o seu significado, seu
terror, sua importncia. Ficou tambm contente porque no viu imagens de santos sofrendo, com marcas de
sangue e feridas abertas - ali era apenas um lugar onde os homens se reuniam para adorar
algo que no podiam compreender.
Parou diante do sacrrio, onde estava guardado o corpo de um Jesus em que ela ainda
acreditava, embora havia muito tempo no pensasse nele. Ajoelhou-se e prometeu a Deus, 
Virgem, a Jesus, e a todos os santos, que acontecesse o que acontecesse durante aquele dia,
ela jamais mudaria de idia, e iria embora de qualquer maneira. Fez esta promessa porque
conhecia bem as armadilhas do amor e de como so capazes de transformar a vontade de
uma mulher.
Pouco depois ela sentiu a mo que a tocava no ombro, e inclinou seu rosto para que
tocasse a mo.
Saram de mos dadas, como se fossem dois namorados que haviam se encontrado
depois de muito tempo. Beijaram-se em pblico, algumas pessoas olharam escandalizadas,
ambos sorriam pelo mal-estar que estavam causando, e pelos desejos que despertavam com
o escndalo - porque sabiam que, na verdade, eles queriam estar fazendo a mesma coisa. O
escndalo era s isso.
Entraram em um caf igual a todos os outros, mas que naquela tarde era diferente,
porque os dois estavam ali, e se amavam. Conversaram sobre Genve, as dificuldades da
lngua francesa, os vitrais da igreja, os males do cigarro - j que ambos fumavam e no
tinham a menor inteno de abandonar o vcio.
Ela fez questo de pagar o caf, e ele aceitou. Foram  exposio, ela conheceu seu
mundo, os artistas, os ricos que pareciam mais ricos ainda, os milionrios que pareciam
pobres, as pessoas que perguntavam coisas sobre as quais jamais tinha ouvido falar. Todos
gostaram dela, elogiaram sua maneira de falar francs, perguntaram sobre o carnaval, o
futebol, a msica de seu pas. Educados, gentis, simpticos, envolventes.
Quando saram, ele disse que iria  boate naquela noite, encontr-la. Ela pediu que
no fizesse isso, tinha a noite livre, gostaria de convid-lo para jantar.
Ele aceitou, despediram-se, marcaram de encontrar-se na casa dele para jantar em um
restaurante simptico na pequena praa de Cologny, onde sempre passavam de txi, e ela
jamais pedira que parassem para conhecer o lugar.
Ento Maria lembrou-se da nica amiga, e resolveu ir at a biblioteca para dizer que
no voltaria mais.
Ficou presa no trnsito por um tempo que parecia uma eternidade, at que os curdos
terminassem de se manifestar (de novo!) e os carros pudessem voltar a circular
normalmente. Mas agora era de novo dona do seu tempo, isso no tinha importncia.
Chegou quando a biblioteca estava quase fechando.
- Pode ser que eu esteja querendo ser ntima demais, mas no tenho nenhuma amiga a
quem confiar certas coisas - disse a bibliotecria, assim que Maria entrou.
Aquela mulher no tinha amiga? Depois de viver sua vida inteira no mesmo lugar,
encontrar vrias pessoas durante o dia, ser que no tinha ningum com quem conversar?
Enfim, descobria algum como ela - ou melhor dizendo, algum como todo mundo.
viver na ignorncia, achando que um marido fiel, um apartamento com vista para o
lago, trs filhos e um emprego pblico era tudo que uma mulher podia sonhar. Agora, desde
que voc chegou aqui, e desde que li o primeiro livro, ando muito preocupada com aquilo
em que transformei minha vida. Ser que todo mundo  assim?
- Posso lhe garantir que  - e Maria sentiu-se uma jovem sbia diante daquela mulher
que lhe pedia conselhos. - Gostaria que eu entrasse em detalhes?
Maria acenou positivamente com a cabea.
-  claro que voc ainda  muito jovem para compreender essas coisas, mas
justamente por isso gostaria de compartilhar um pouco da minha vida, para que no cometa
os mesmos erros que cometi.
"Mas o clitris, por que ser que meu marido nunca prestou ateno a isso? Achava
que o orgasmo  na vagina, e me custava muito, mas muito mesmo, fingir algo que ele
imaginava que eu deveria estar sentindo. Claro, eu tinha prazer, mas um prazer diferente.
Apenas quando a frico era na parte superior... voc est entendendo?"
- Estou entendendo.
- E agora descobri por qu. Est ali - ela apontou para um livro na sua mesa, cujo
ttulo Maria no conseguia ver. - Existe um feixe de nervos que vai do clitris ao ponto G, e
que  predominante. Mas os homens pensam que no, que penetrar  tudo. Voc sabe o que
 o ponto G?
- Conversamos sobre isso outro dia - disse Maria, desta vez como a Menina Ingnua. -
Logo depois de entrar, primeiro andar, janela dos fundos.
- Claro, claro! - os olhos da bibliotecria se iluminaram. Verifique por voc mesma
quantos de seus amigos j ouviram falar disso: nenhum ouviu! Que absurdo! Mas assim
como o clitris foi uma inveno do tal italiano, o ponto G  uma conquista do nosso
sculo! Em breve ocupar todas as manchetes, e ningum mais poder ignor- lo! Pode
imaginar que momento revolucionrio estamos vivendo?
Maria olhou para o relgio, e Heidi se deu conta de que precisava falar rpido, ensinar
quela menina bonita  sua frente que as mulheres tinham todo direito de serem felizes,
realizadas, para que uma prxima gerao pudesse se beneficiar de todas estas conquistas
cientficas extraordinrias.
- O Dr. Freud no estava de acordo porque no era mulher, e como tinha seu orgasmo
no pnis, achava que ramos obrigadas a ter o prazer na vagina. Temos que voltar  origem,
aquilo que sempre nos deu prazer: o clitris e o ponto G! Muito poucas mulheres
conseguem ter uma relao sexual satisfatria, de modo que, se voc tiver dificuldades em
conseguir a alegria que merece, vou lhe sugerir algo: inverta a posio. Deite o seu
namorado, e fique sempre por cima; o seu clitris vai bater com mais fora no corpo dele, e
voc, no ele, estar conseguindo o estmulo de que precisa. Melhor dizendo, o estmulo
que merece!
Maria, no entanto, estava apenas fingindo que no prestava ateno na conversa.
Ento no era apenas ela! No tinha nenhum problema sexual, era tudo uma questo de
anatomia! Sentiu vontade de beijar a mulher  sua frente, enquanto um peso imenso,
gigantesco, saa do seu corao. Que bom ter descoberto isso ainda jovem! Que dia
magnfico estava vivendo!
Heidi deu um sorriso conspirador.
- Eles no sabem, mas a gente tamb m tem uma ereo! O clitris fica ereto!
"Eles" deviam ser os homens. Maria tomou coragem, j que a conversa estava to
ntima.
- Voc j teve algum fora do casamento? A bibliotecria levou um choque. Os olhos emitiram uma espcie de fogo sagrado, a
pele ficou vermelha, no podia dizer se de raiva ou de vergonha. Depois de algum tempo,
porm, a luta entre contar ou fingir terminou. Bastava mudar de assunto.
- Voltemos  nossa ereo: o clitris! Ele fica rgido, voc sabia?
- Desde criana.
Heidi parecia desapontada. Talvez no tivesse prestado muita ateno naquilo.
- E parece que, se voc circular o dedo em torno, sem mesmo tocar sua ponta, o
prazer pode surgir de maneira mais intensa ainda. Aprenda isso! Os homens que respeitam
o corpo de uma mulher vo logo tocando no topo do clitris, sem saber que isso s vezes
pode ser doloroso, voc no concorda? Por isso, depois do primeiro ou segundo encontro,
logo assuma o controle da situao: fique por cima, decida como e onde a presso deve ser
aplicada, aumente e diminua o ritmo a seu critrio. Alm disso, uma conversa franca 
sempre necessria, segundo o livro que estou lendo.
- A senhora teve uma conversa franca com o seu marido?
Mais uma vez Heidi fugiu da pergunta direta, dizendo que eram outros tempos. Agora
estava mais interessada em compartilhar suas experincias intelectuais.
- Procure ver seu clitris como um ponteiro de relgio, e pea ao seu companheiro
para mov- lo entre 11 e 1 hora, est compreendendo?
Sim, sabia do que a mulher estava falando e no concordava muito, embora o livro
tampouco estivesse longe da verdade total. Mas assim que ela falou em relgio, Maria
olhou o seu, disse que tinha vindo apenas se despedir, pois seu estgio havia terminado. A
mulher pareceu no escut- la.
- No quer levar este livro sobre o clitris?
- No, obrigada. Tenho que pensar em outras coisas.
- E no vai levar nada novo?
- No. Estou voltando para o meu pas, mas queria agradecer por sempre ter me
tratado com respeito e compreenso. At qualquer dia.
Apertaram-se as mos e se desejaram mutuamente felicidade.
Heidi esperou que a moa sasse, antes de perder o controle e dar um soco na mesa.
Por que no havia aproveitado 0 momento para dividir algo que, do jeito que as coisas iam,
terminaria morrendo com ela? J que a moa tivera coragem de perguntar se algum dia
trara seu marido, por que no responder, agora que estava descobrindo um mundo novo,
onde finalmente as mulheres aceitavam que era muito difcil um orgasmo vaginal?
"Bem, isso no  importante. O mundo no  apenas sexo."
No era a coisa mais importante do mundo, mas era importante, sim. Olhou a sua
volta; a grande parte daqueles milhares de livros que a cercavam contava uma histria de
amor. Sempre a mesma histria - algum que se apaixona, encontra, perde, e volta a
encontrar de novo. Almas que se comunicam, lugares distantes, aventura, sofrimento,
preocupaes, e raramente algum dizendo "olhe, meu caro senhor, entenda melhor o corpo
da mulher". Por que os livros no falavam abertamente disso?
Talvez ningum estivesse realmente interessado. Porque, para o homem, ele
continuaria a buscar a novidade - ainda era o troglodita caador, que seguia o instinto de
reprodutor da raa humana. E para a mulher? Por sua experincia pessoal, a vontade de ter
um bom orgasmo com seu companheiro durava apenas os primeiros anos; depois a
freqncia diminua, e nenhuma mulher falava disso, porque achava que era apenas com
ela. E mentiam, fingindo que no agentavam mais o desejo do marido, que pedia para
fazer amor todas as no ites. E, ao mentirem, deixavam todas as outras preocupadas. Logo se dedicavam a pensar em algo diferente: filhos, cozinha, horrios, manuteno
da casa, contas a pagar, tolerncia com as escapadas do marido, viagens nas frias durante
as quais ficavam mais preocupadas com os filhos do que consigo mesmas, cumplicidade -
ou at mesmo amor, mas nada de sexo.
Devia ter sido mais aberta com a jovem brasileira, que lhe parecia uma moa
inocente, com idade para ser sua filha, e ainda incapaz de compreender o mundo direito.
Uma imigrante, vivendo longe da sua terra, dando duro em um trabalho sem graa,
esperando um homem com quem pudesse casar, fingir alguns orgasmos, encontrar a
segurana, reproduzir esta misteriosa raa humana, e logo esquecer estas coisas chamadas
orgasmo, clitris, ponto G (descoberto apenas no sculo XX!!!). Ser uma boa esposa, uma
boa me, cuidar para que nada faltasse em casa, masturbar-se escondido de vez em quando,
pensando no homem que cruzara com ela na rua e a olhara com desejo. Manter as
aparncias - por que ser que o mundo estava to preocupado com as aparncias?
Por isso no respondera  pergunta:
"Voc j teve algum fora do casamento?"
Estas coisas morrem com a gente, pensou. Seu marido sempre fora o homem de sua
vida, embora o sexo fosse coisa do passado remoto. Era um excelente companheiro,
honesto, generoso, bem- humorado, lutava para sustentar a famlia, e procurava deixar
felizes todos aqueles que estavam sob sua responsabilidade. O homem ideal, com que todas
as mulheres sonham, e justamente por isso sentia-se to mal em pensar que um dia desejara
- e estivera - com outro homem.
Lembrava-se de como o havia encontrado. Estava voltando da cidadezinha de Davos,
nas montanhas, quando uma avalanche de neve interrompeu por algumas horas a circulao
dos trens. Telefonou, para que ningum ficasse preocupado; comprou algumas revistas e
preparou-se para uma longa espera na estao.
Foi quando viu um homem ao seu lado, com uma mochila e um saco de dormir. Tinha
os cabelos grisalhos, a pele queimada de sol, era o nico que parecia no estar preocupado
com a ausncia do trem; muito pelo contrrio, sorria e olhava em volta, procurando algum
para conversar. Heidi abriu uma das revistas mas - ah, vida misteriosa! -seus olhos
cruzaram rapidamente com os dele, e no conseguiu desviar rpido o bastante para evitar
que se aproximasse.
Antes que ela pudesse - educadamente - dizer que realmente precisava terminar um
artigo importante, ele comeou a falar. Disse que era um escritor, estava voltando de um
encontro na cidade, e que o atraso dos trens faria com que perdesse o vo de volta para o
seu pas. Quando chegassem a Genve, podia ajud- lo a encontrar um hotel?
Heidi o olhava: como  que algum podia estar to bemhumorado depois de perder
um vo e ter que ficar esperando numa desconfortvel estao de trem at que as coisas se
resolvessem?
Mas o homem comeou a conversar como se fossem velhos amigos. Contou sobre
suas viagens, sobre o mistrio da criao literria e, para seu espanto e horror, sobre todas
as mulheres que havia amado e encontrado ao longo de sua vida. Heidi apenas fazia que
"sim" com a cabea, e ele continuava. Vez por outra, pedia desculpas por estar falando
muito e lhe pedia que contasse um pouco de si mesma, mas tudo que ela tinha para dizer
era "sou uma pessoa comum, sem nada de extraordinrio".
De repente, ela viu-se torcendo para que o trem no chegasse nunca, aquela conversa
era muito envolvente, estava descobrindo coisas que s haviam entrado em seu mundo
atravs dos romances de fico. E como jamais tornaria a v-lo, tomou coragem (mais tarde
no saberia explicar por qu) e comeou a perguntar sobre temas que lhe interessavam. Vivia um momento difcil em seu casamento, o marido reclamava muito a sua presena,
e
Heidi quis saber o que podia fazer para deix- lo feliz. O homem deu algumas explicaes
interessantes, contou uma histria, mas no parecia muito contente em ter que falar do
marido.
"Voc  uma mulher muito interessante", disse, usando uma frase que fazia muitos
anos ela no escutava.
Heidi no soube como reagir, ele percebeu seu embarao, e logo comeou a falar
sobre desertos, montanhas, cidades perdidas, e mulheres cobertas com vu, ou de cintura
desnuda, guerreiros, piratas e sbios.
O trem chegou. Sentaram-se lado a lado, e agora ela j no era mais a mulher casada,
com um chal em frente ao lago, trs filhos para criar, mas uma aventureira, que estava
chegando a Genve pela primeira vez. Olhava as montanhas, o rio, e sentiase contente de
estar ao lado de um homem que a queria levar para a cama (porque os homens s pensam
nisso), que estava fazendo o possvel para impression-la. Pensou em quantos outros
homens tinham sentido a mesma coisa, sem que jamais lhes desse qualquer oportunidade -
mas naquela manh o mundo havia mudado, era uma adolescente de trinta e oito anos,
assistindo deslumbrada s tentativas de seduo; era a melhor coisa do mundo.
No outono prematuro da sua vida, quando pensava que j tinha tudo que podia
esperar, aparecia aquele homem na estao de trem e entrava sem pedir licena.
Desembarcaram em Genve, ela indicou um hotel (modesto, ele insistira, porque devia
partir naquela manh e no estava prevenido para um dia a mais na carssima Sua), ele
pediu que fosse at o quarto com ele, para ver se estava tudo em ordem. Heidi sabia o que a
aguardava, e mesmo assim aceitou a proposta. Fecharam a porta, beijaram-se com violncia
e desejo, ele arrancou suas roupas, e meu Deus! - conhecia o corpo de uma mulher, porque
conhecera o sofrimento ou a frustrao de muitas.
Fizeram amor a tarde inteira, e s quando a noite comeou a chegar foi que o encanto
se dissipou, e ela falou a frase que jamais gostaria de ter pronunciado:
"Preciso voltar, meu marido est me esperando."
Ele acendeu um cigarro, ficaram em silncio por alguns minutos, e nenhum dos dois
disse "adeus". Heidi levantou-se e saiu sem olhar para trs, sabendo que, no importa o que
dissessem, nenhuma palavra ou frase teria sentido.
Nunca mais tornaria a v - lo, mas, no outono de sua desesperana, por algumas horas,
tinha deixado de ser esposa fiel, dona de casa, me amorosa, funcionria exemplar, amiga
constante e voltado a ser simplesmente mulher.
Durante alguns dias o marido comentava que ela tinha mudado, estava mais alegre ou
mais triste - ele no sabia exatamente descrever. Uma semana depois, as coisas tinham
voltado ao normal.
"Que pena que no contei isso para a menina", pensou. "De qualquer maneira, ela no
entenderia nada, ainda vive num mundo onde as pessoas so fiis e as juras de amor so
eternas."
Do dirio de Maria:
No sei o que ele deve ter pensado quando abriu a porta, naquela noite, e me viu com
duas malas.
- No se assuste - comentei logo. - No estou me mudando para c. Vamos jantar.
Ajudou-me, sem nenhum comentrio, a colocar minha bagage m para dentro. Em
seguida, antes de dizer "o que  isso" ou "que alegria voc aparecer"; simplesmente me agarrou e comeou a beijar-me, tocar meu corpo, meus seios, meu sexo, como
se tivesse
esperado por tanto tempo e agora pressentisse que talvez o momento no chegasse nunca.
Tirou meu casaco, meu vestido, deixou- me nua, e foi ali no hall de entrada, sem
qualquer ritual ou preparao, sem mesmo tempo para dizer o que seria bom ou ruim, com
o vento frio entrando por baixo da fresta da porta, que fizemos amo r pela primeira vez. Eu
pensei que talvez fosse melhor dizer que parasse, que procurssemos um lugar mais
confortvel, que tivssemos tempo de explorar o imenso mundo de nossa sensualidade, mas
ao mesmo tempo eu o queria dentro de mim, porque era o homem que eu nunca possura, e
nunca mais iria possuir. Por isso eu podia am- lo com toda a minha energia, ter pelo
menos, por uma noite, aquilo que jamais tivera antes, e que possivelmente nunca teria
depois.
Deitou-me no cho, entrou em mim antes que eu estivesse completamente molhada,
mas a dor no me incomodou - ao contrrio, gostei que fosse assim, porque devia entender
que eu era sua, e no precisava pedir licena. No estava ali para ensinar mais nada, ou para
mostrar como minha sensibilidade era melhor ou mais intensa que a das outras mulheres,
apenas para dizer-lhe que sim, que era bem-vindo, que eu tambm estava esperando por
isso, que me alegrava muito seu total desrespeito s regras que havamos criado entre ns, e
agora exigia que apenas nossos instintos macho e fmea, nos guiassem. Estvamos na
posio mais convencional possvel - eu embaixo, de pernas abertas, e ele em cima,
entrando e saindo, enquanto eu o olhava, sem vontade de fingir, de gemer, de nada - apenas
querendo manter os olhos abertos, para lembrar cada segundo, ver seu rosto se
transformando, suas mos que agarravam meus cabelos, sua boca que me mordia, me
beijava. Nada de preliminares, de carcias, de preparaes, de sofisticaes, apenas ele
dentro de mim, e eu em sua alma.
Entrava e saa, aumentava e diminua o ritmo, parava s vezes para me olhar tambm,
mas no perguntava se eu estava gostando, porque sabi que esta era a nica maneira de
nossas almas se comunicarem naquele momento. O ritmo aumentou, e eu sabi que os onze
minutos estavam chegando ao fim, queria que continuassem para sempre, porque era to
bom - ah, meu Deus, como era bom - ser possuda e no possuir! Tudo de olhos bem
abertos, e notei que quando j no enxergvamos direito, parecamos ir para uma dimenso
onde eu era a grande me, o universo, a mulher amada, a prostituta sagrada dos antigos
rituais que ele havia me explicado com um copo de vinho e uma lareira acesa. Vi seu
orgasmo chegando, e seus braos seguraram os meus com fora. Os movimentos
aumentaram de intensidade, e foi ento que ele gritou - no gemeu, no mordeu os dentes,
mas gritou! Berrou! Urrou como um animal! No fundo da minha cabea passou rpido o
pensamento de que a vizinhana talvez chamasse a polcia, mas isso no tinha importncia,
e eu senti um incenso prazer, porque era assim desde o incio dos tempos, quando o
primeiro homem encontrou a primeira mulher e fizeram amor pela primeira vez: eles
gritaram.
Depois seu corpo desabou sobre mim, e no sei quanto tempo ficamos abraados um
ao outro, eu acariciei seus cabelos como s havia feito na noite em que nos trancamos no
escuro do hotel, vi seu corao disparado ir aos poucos voltando ao normal, suas mos
comearam delicadamente a passear pelos meus braos, e aquilo fez com que todos os
cabelos de meu corpo ficassem arrepiados.
Deve ter pensado em algo prtico - como o peso de seu corpo em cima do meu ;
porque rolou para o lado, segurou minhas mos, e ficamos os dois olhando o teto e o lustre
de trs lmpadas acesas.
- Boa-noite - eu lhe disse. Ele me puxou, e fez com que apoiasse a cabea no seu peito. Ficou me acariciando
por um longo tempo, antes de dizer "boa-noite" tambm.
- A vizinhana deve ter escutado tudo - comentei, sem saber como amos continuar,
porque dizer "eu te amo" naquele momento no fazia muito sentido, ele j sabi, e eu
tambm.
- Est entrando uma corrente de ar frio por baixo da porta - foi sua resposta, quando
poderia ter dito "que maravilha!"
- vamos para a cozinha.
Nos levantamos, e vi que ele nem sequer havia tirado a cala, estava vestido como
quando o encontrei, apenas com o sexo do lado de fora. Coloquei meu casaco sobre o corpo
nu. Fomos para a cozinha, ele preparou um caf, fumou dois cigarros, eu fumei um.
Sentados na mesa, ele dizia "obrigado" com os olhos, eu respondia "tambm quero
agradecer", mas nossas bocas se mantinham fechadas.
Finalmente ele tomou coragem e perguntou pelas malas.
- Estou voltando para o Brasil amanh ao meio-dia.
Uma mulher entende quando um homem  importante para ela. Ser que eles tambm
so capazes deste tipo de compreenso? Ou eu teria que dizer "te amo", "gostaria de
continuar aqui com voc", "pea- me que fique".
- No v - sim, ele havia compreendido que podia me dizer isso.
- vou. Fiz uma promessa.
Porque, se no tivesse feito, talvez acreditasse que aquilo tudo ali era para sempre. E
no era, era parte de um sonho de uma moa do interior de um pas distante, que vai para a
cidade grande (no to grande assim, para falar a verdade), passa por mil dificuldades, mas
encontra o homem que a ama. Ento, este era o final feliz para todos os momentos difceis
que passei, e sempre que eu me lembrasse de minha vida na Europa, terminaria com a
histria de um homem apaixonado por mim, que seria sempre meu, j que eu visitara sua
alma.
Ah, Ralf, voc no sabe o quanto te amo. Penso que talvez nos apaixonemos sempre
no momento em que olhamos o homem de nossos sonhos pela primeira vez, embora a razo
naquele momento diga que estamos errados, e passemos a lutar - sem vontade de vencer-
contra este instinto. At que chega o momento em que nos deixamos vencer pela emoo, e
isso aconteceu naquela noite, quando eu caminhei descala pelo parque, sofrendo dor e frio,
mas entendendo o quanto voc me queria.
Sim, eu te amo muito, como nunca amei outro homem, e justamente por isso vou
embora, porque se ficasse o sonho se transformaria em realidade, vontade de possuir, de
desejar que sua vida seja minha... enfim, de todas estas coisas que terminam transformando
0 amor em escravido. Melhor assim: o sonho. Temos que ser cuidadosos com aquilo que
levamos de um pas - ou da vida.
- voc no teve um orgasmo - disse ele, tentando mudar de assunto, ser cuidadoso,
no forar uma situao. Estava com medo de me perder, e pensava que ainda tinha a noite
inteira para me fazer mudar de opinio.
- No tive orgasmo, mas tive um imenso prazer.
- Mas seria melhor se tivesse um orgasmo.
- Eu podia ter fingido, apenas para deix- lo contente, mas voc no merece. Voc 
um homem, Ralf Hart, em tudo o que esta palavra pode ter de belo e intenso. Soube me
apoiar e me ajudar, aceitou que eu o apoiasse e ajudasse, sem que isso significasse
humilhao. Sim, eu gostaria de ter tido um orgasmo, mas no tive. Entretanto, adorei o
cho frio, o seu corpo quente, a violncia consentida com que entrou em mim. "Hoje eu fui devolver os livros que ainda tinha comigo, e a bibliotecria perguntou
se
eu conversava com meu parceiro a respeito de sexo. Fiquei com vontade de dizer.- Qual
parceiro? Qual tipo de sexo? Mas ela no merecia, foi sempre um anjo comigo.
"Na verdade, tive apenas dois parceiros desde que cheguei em Genve: um que
despertou o pior de mim mesma, porque permiti - e at mesmo implorei. O outro, voc, que
me fez sentir de novo parte do mundo. Eu gostaria de poder ensin-lo onde tocar meu
corpo, qual a intensidade, por quanto tempo, e sei que entenderia isso no como uma
recriminao, mas como uma possibilidade de que nossas almas se comunicassem melhor.
A arte do amor  como a sua pintura, requer tcnica, pacincia, e sobretudo prtica entre o
casal. Requer ousadia,  preciso ir alm daquilo que as pessoas convencionaram chamar de
fazer amor'."
Pronto. A professora tinha voltado, e eu no queria aquilo, mas Ralf soube contornar a
situao. Em vez de aceitar o que eu dizia, acendeu seu terceiro cigarro em menos de meia
hora:
- Em primeiro lugar, voc hoje vai passar a noite aqui.
No era um pedido, era uma ordem.
- Em segundo lugar faremos amor de novo, com menos ansiedade, e mais desejo.
"Finalmente, eu gostaria que voc tambm entendesse melhor os homens."
Entender melhor os homens? Eu passava todas as noites com eles, brancos, negros,
asiticos, judeus, muulmanos, catlicos, budistas. Ralf no sabia disso?
Senti- me mais leve; que bom que a conversa caminhava para uma discusso. Em
determinado momento eu chegara a pensar em pedir perdo a Deus e romper com minha
promessa. Mas ali estava a realidade de volta, para me dizer que no esquecesse de
conservar meu sonho intacto, e no me deixasse cair nas armadilhas do destino.
- Sim, entender melhor os homens - repetiu Ralf, ao ver o meu ar de ironia. - Voc
fala em expressar sua sexualidade feminina, em me ajudar a navegar por seu corpo, a ter
pacincia, tempo. Estou de acordo, mas j lhe ocorreu que ns somos diferentes, pelo
menos em matria de tempo? Por que voc no reclama com Deus?
"Quando nos encontramos, pedi que me ensinasse sobre sexo, porque meu desejo
havia desaparecido. Sabe por qu? Porque depois de certos anos de vida, toda e qualquer
relao sexual minha terminava em tdio ou frustrao, j que eu entendera que era muito
difcil dar s mulheres que amei o mesmo prazer que elas me davam."
No gostei de `s mulheres que amei", mas fingi indiferena, acendendo um cigarro.
- Eu no tinha coragem de pedira me ensine seu corpo. Mas quando a encontrei; vi
sua luz, e a amei imediatamente, pensei que a esta altura da vida l no tivesse nada a
perder se fosse honesto comigo, e com a mulher que queria ter ao meu lado.
Meu cigarro ficou delicioso, e eu gostaria muito que ele me oferecesse um pouco de
vinho, mas no queria deixar o assunto morrer.
- Por que os homens, em vez de fazerem isso que voc fez comigo, descobrir como
me sinto, s ficam pensando em sexo?
- Quem disse que s pensamos em sexo? Ao contrrio: passamos anos de nossa vida
tentando nos fazer acreditar que o sexo  importante para ns. Aprendemos o amor com
prostitutas ou com virgens, contamos nossos casos a todos que queiram escutar, desfilamos
com amantes jovens quando j estamos mais velhos, tudo para mostrar aos outros que sim,
somos aquilo que as mulheres esperavam que fssemos.
"Mas quer saber de uma coisa? No  nada disso. No entendemos nada. Achamos
que sexo e ejaculao so a mesma coisa, e como voc acabou de dizer, no so. No
aprendemos porque no temos coragem de dizer  mulher: ensine- me seu corpo. No aprendemos porque a mulher tampouco tem coragem de dizer: aprenda como sou. Ficamos
no primitivo instinto de sobrevivncia da espcie, e isso  tudo. Por mais absurdo que
parea, sabe o que  mais importante do que o sexo para um homem?"
Eu pensei que talvez fosse dinheiro ou poder, mas no disse nada.
- Esporte. E sabe por qu? Porque um homem entende o corpo de outro homem. Ali,
no esporte, a gente est vendo o dilogo de corpos que se entendem.
- Voc est louco.
- Pode ser. Mas fax sentido. voc j parou para ver o que os homens com que esteve
na cama sentiam?
- Sim, parei: todos estavam inseguros. Sentiam medo.
- Pior que medo. Eram vulnerveis. No entendiam direito o que estavam fazendo,
sabiam apenas o que a comunidade, os amigos, as prprias mulheres diziam que era
importante. "Sexo, sexo, sexo", essa  a base da vida, grita a propaganda, as pessoas, os
filmes, os livros. Ningum sabe do que est falando. Sabem j que o instinto  mais forte
que todos ns - que aquilo tem que ser jeito. Pronto.
Chega. Eu tentara dar lies de sexo para me proteger, ele fazia o mesmo, e por mais
que nossas palavras fossem sbias - j que um sempre queria impressionar 0 outro ; isso era
to estpido, to indigno de nossa relao! Eu o puxe i at mim porque - independentemente
do que ele tinha para dizer, ou do que eu pensasse a respeito de mim mesma - a vida j me
ensinara muita coisa. No incio dos tempos, tudo era amor, era entrega. Mas logo em
seguida, a serpente aparece para Eva e diz: o que voc entregou, voc ir perder. Assiras foi
comigo - fui expulsa do paraso ainda na escola, e desde ento procurei uma maneira de
dizer  serpente que ela estava errada, que viver era mais importante do que guardar para si.
Mas a serpente estava certa, e eu estava errada.
Me ajoelhei, tirei aos poucos suas roupas, e vi que seu sexo estava ali, dormente, sem
reagir. Ele parecia no se incomodar com isso, e eu beijei a parte interior de suas pernas,
comeando dos ps. O sexo comeou a reagir lentamente, e eu o toquei, depois o coloquei
em minha boca, e - sem pressa, sem que ele interpretasse isso como "vamos, prepare-se
para agir!" - beijei-o com o carinho de quem no espera nada, e justamente por isso,
consegui tudo. Vi que ficava excitado, e comeou a tocar o bico de meus seios, girando-os
como naquela noite de total escurido, me deixando com vontade de t- lo de novo entre
minhas pernas, ou em minha boca, ou como desejasse ou quisesse me possuir.
Ele no retirou meu casaco; fez com que eu me inclinasse de bruos sobre a mesa,
com as pernas ainda
apoiadas no cho. Penetrou-me lentamente, desta vez sem ansiedade, sem medo de
me perder - porque no fundo tambm ele j tinha entendido que aquilo era um sonho, e ia
permanecer para sempre como um sonho, jamais como realidade.
Ao mesmo tempo em que sentia seu sexo dentro de mim, sentia tambm sua mo nos
seios, nas ndegas, e tocando- me como s uma mulher sabe fazer. Ento entendi que
ramos feitos um para o outro, porque ele conseguia ser mulher como agora, e eu conseguia
ser homem como quando conversamos ou nos iniciamos mutuamente no encontro das duas
almas perdidas, dos dois fragmentos que faltavam para completar o universo.
 medida que ele me penetrava e me tocava ao mesmo tempo, senti que no estava
fazendo isso apenas a mim, mas a todo o universo. Tnhamos tempo, ternura e
conhecimento um do outro. Sim, tinha sido timo chegar com duas malas, o desejo de
partir, ser imediatamente jogada no cho e penetrada com violncia e medo; mas tambm
era bom saber que a noite no acabaria nunca, e agora ali, na mesa da cozinha, o orgasmo
no era o fim em si, mas o incio deste encontro. Seu sexo ficou imvel dentro de mim, enquanto seus dedos moviam-se rapidamente, e
eu tive o primeiro, depois o segundo, e o terceiro orgasmo seguidos. Tinha vontade de
empurr-lo, a dor do prazer  to grande que machuca, mas agentei firme, aceitei que era
assim, que eu podia agentar mais um orgasmo, ou mais dois, ou mais ...
. e de repente, uma espcie de luz explodiu dentro de mire. No era mais eu mesma,
mas um ser infinitamente superior a tudo que eu conhecia. Quando sua mo me levou ao
quarto orgasmo, entrei em um lugar onde tudo parecia em paz, e no meu quinto orgasmo
conheci Deus. Ento senti que ele recomeava a mexer o seu sexo dentro do meu, embora
sua mo no tivesse parado, e disse "meu Deus", me entreguei a qualquer coisa, o inferno
ou o paraso.
Mas era o paraso. Eu era a terra, as montanhas, os tigres, os rios que corriam at os
lagos, os lagos que se transformavam em mar. Ele se movia cada vez mais rapidamente, e a
dor se misturava com prazer, eu podia dizer "no agento mais", mas no seria justo -
porque a esta altura, eu e ele ramos a mesma pessoa.
Deixei que me penetrasse pelo tempo que fosse necessrio, suas unhas agora estavam
cravadas nas minhas ndegas, e eu ali de bruos, na mesa da cozinha, pensando que no
existia melhor lugar no mundo para fazer amor. De novo o barulho da mesa, a respirao
cada vez mais rpida, as unhas machucando, e o meu sexo batendo com fora no sexo dele,
carne com carne, osso com osso, eu ia de novo para um orgasmo, ele ia tambm, e nada
disso - nada disso era MENTIRA!
- Vamos!
Ele sabia o que estava falando, e eu sabia que era o momento, senti que meu corpo
todo se afrouxava, eu deixava de ser eu mesma - j no escutava, via, provava o gosto de
nada - apenas sentia.
- Vamos!
E eu fui, junto com ele. No foram onze minutos, mas uma eternidade, era como se os
dois sassemos do corpo e caminhssemos, em profunda alegria, compreenso e amizade,
pelos jardins do paraso. Eu era mulher e homem, ele era homem e mulher. No sei quanto
tempo durou, mas tudo parecia estar em silncio, em orao, como se o universo e a vida
deixassem de existir e se transformassem em algo sagrado, sem nome, sem tempo.
Mas logo o tempo voltou, eu escutei seus gritos e gritei com ele, os ps da mesa
batiam com fora no cho, e a nenhum de ns dois ocorreu perguntar ou saber o que o resto
do mundo estava pensando.
E ele saiu de mim sem nenhum aviso, e ria, senti meu sexo se contrair, me virei para
ele e ria tambm, nos abraamos como se fosse a primeira vez que tivssemos feito amor
em nossa vida.
- Abenoe- me - pediu.
Eu o abenoei, sem saber o que estava fazendo. Pedi que fizesse o mesmo, e ele fez,
dizendo "abenoada seja esta mulher, que muito amou". Suas palavras eram lindas,
tornamos a nos abraar e ali ficamos, sem entender como onze minutos podem levar um
homem e uma mulher a tudo isso.
Nenhum dos dois estava cansado. Fomos at a sala, ele colocou um disco, e fez
exatamente o que eu estava esperando: acendeu a lareira e serviu- me vinho.
Em seguida abriu um livro e leu:
"Tempo de nascer, tempo de morrer tempo de plantar, tempo de arrancar a planta
tempo de matar, tempo de curar tempo de destruir, tempo de construir tempo de chorar,
tempo de rir tempo de gemer, tempo de bailar tempo de atirar pedras, tempo de recolher
pedras tempo de abraar, tempo de separar tempo de buscar, tempo de perder tempo de guardar, tempo de jogar fora tempo de rasgar, tempo de costurar tempo de calar,
tempo de
falar tempo de amar, tempo de odiar tempo de guerra, tempo de paz."
Aquilo soava como uma despedida. Mas era a mais linda de todas que eu podia
experimentar em minha vida.
Eu o abracei, ele me abraou, deitamos no tapete ao lado da la reira. A sensao de
plenitude ainda continuava, como se eu sempre tivesse sido uma mulher sbia, feliz,
realizada na vida.
- Como  que voc pode se apaixonar por uma prostituta?
- Na poca, no entendi. Mas hoje, pensando um pouco, acredito que ao saber que seu
corpo jamais seria apenas meu, eu podia me concentrar em conquistar sua alma.
- E o cime?
- No se pode dizer para a primavera: "Tomara que chegue logo e que dure bastante."
Pode-se apenas dizer: "venha, me abenoe com sua esperana, e fique o mximo de tempo
que puder."
Palavras soltas ao vento. Mas eu precisava escutar, e ele precisava dizer. Dormi sem
saber exatamente quando. Sonhei, no com uma situao ou com uma pessoa, mas com um
perfume, que inundava tudo.
Quando Maria abriu os olhos, alguns raios de sol j comeavam a entrar pelas
persianas abertas.
"Fiz duas vezes amor com ele", pensou, olhando para o homem adormecido ao seu
lado. "E, no entanto, parece que sempre estivemos juntos, e que ele sempre conheceu minha
vida, minha alma, meu corpo, minha luz, minha dor."
Levantou-se para ir at a cozinha e fazer um caf. Foi ento que viu as duas malas no
corredor e lembrou-se de tudo: da promessa, da orao na igreja, da sua vida, do sonho que
insiste em transformar-se em realidade e perder seu encanto, do homem perfeito, do amor
em que corpo e alma eram a mesma coisa, e prazer e orgasmo eram coisas diferentes.
Podia ficar; no tinha nada mais a perder na vida, apenas mais uma iluso. Lembrouse
do poema: tempo de chorar, tempo de rir.
Mas havia outra frase: tempo de abraar, tempo de separar. Preparou o caf, fechou a
porta da cozinha, telefonou e chamou um txi. Reuniu sua fora de vontade, que a levara
to longe, a fonte de energia de sua "luz", que lhe dissera a hora exata de partir, que a
protegia, que a faria guardar para sempre a lembrana daquela noite. Vestiu-se, pegou as
malas e saiu, torcendo para que ele acordasse antes e lhe pedisse que ficasse.
Mas ele no acordou. Enquanto esperava o txi, do lado de fora, uma cigana passou,
com um buqu de flores.
- Quer comprar uma?
Maria comprou; era o sinal de que o outono havia chegado, o vero ficava para trs.
Genve j no teria, por muito tempo, as mesas nas caladas e os parques cheios de gente
passeando e banhando-se de sol. No fazia mal; estava indo embora porque essa era a sua
escolha, e no havia o que lamentar.
Chegou ao aeroporto, tomou outro caf, ficou quatro horas esperando o vo para
Paris, sempre pensando que ele iria entrar a qualquer momento, j que, em algum momento
antes de dormir, dissera a hora de sua partida. Assim acontecia nos filmes: no momento
final, quando a mulher est quase entrando no avio, o homem aparece desesperado, a
agarra, d- lhe um beijo, e a traz de volta para o seu mundo, sob o olhar risonho e
complacente dos funcionrios da companhia area. Entra o letreiro "Fim", e todos os
espectadores sabem que, a partir dali, vivero felizes para sempre "Os filmes nunca contam o que acontece depois", dizia a si mesma, tentando se
consolar. Casamento, cozinha, filhos, um sexo cada vez mais inconstante, a descoberta do
primeiro bilhete da amante, decidir fazer um escndalo, escutar promessas de que isso no
se repetir de novo, o segundo bilhete de uma outra amante, outro escndalo e a ameaa de
separar, desta vez o homem no reage com tanta segurana, apenas diz que a ama. O
terceiro bilhete, da terceira amante, e ento escolher o silncio, fingindo que no sabe,
porque pode ser que ele diga que no a ama mais, que  livre para partir.
No, os filmes no contam isso. Acabam antes que o verdadeiro mundo comece.
Melhor no ficar pensando.
Leu uma, duas, trs revistas. Finalmente chamaram seu vo, depois de quase uma
eternidade naquele saguo de aeroporto, e embarcou. Ainda imaginou a famosa cena em
que, assim que aperta os cintos, sente-se a mo no ombro, olha para trs, e ali est ele,
sorrindo.
E nada aconteceu.
Dormiu durante o curto trecho que separava Genve de Paris. No teve tempo de
pensar no que diria em casa, que histria contaria - mas com toda certeza seus pais ficariam
contentes, sabendo que tinham uma filha de volta, uma fazenda, e uma velhice confortvel.
Acordou com o solavanco da aterrissagem. O avio taxiou por muito tempo, a
aeromoa veio dizer que ela precisava trocar de terminal, pois o vo para o Brasil sairia do
terminal F e ela estava no terminal C. Mas que no se preocupasse, no havia atrasos, ainda
tinha muito tempo, e se tivesse alguma dvida o pessoal de terra poderia ajud- la a
encontrar seu caminho.
Enquanto o aparelho se aproximava do local do desembarque, pensou se valia a pena
passar um dia naquela cidade, apenas para tirar umas fotos e contar aos outros que
conhecera Paris. Precisava de tempo para pensar, estar sozinha consigo mesma, esconder
bem fundo as lembranas da noite anterior, de modo que pudesse us- las sempre que
precisasse se sentir viva. Sim, Paris era uma excelente idia; perguntou  aeromoa quando
sairia o prximo vo para o Brasil, se resolvesse no embarcar naquele dia.
A aeromoa pediu seu bilhete, lamentou muito, mas era uma tarifa que no permitia
este tipo de escalas. Maria consolou a si mesma, pensando que ver uma cidade to linda
sozinha iria deix-la deprimida. Estava conseguindo manter o sangue- frio, a fora de
vontade, no ia estragar tudo com uma bela paisagem e as saudades de algum.
Desembarcou, passou pelos controles de polcia; sua bagagem iria diretamente para o
outro avio, no havia com que se preocupar. As portas se abriram, os passageiros saam e
se abraavam com algum que os esperava, a mulher, a me, os filhos. Maria fingiu que
nada daquilo era com ela, ao mesmo tempo que pensava de novo em sua solido; s que
desta vez tinha um segredo, um sonho, no era to amarga, e a vida seria mais fcil.
- Sempre haver Paris.
No era um guia turstico. No era um motorista de txi. Suas pernas tremeram
quando escutou a voz.
- Sempre haver Paris?
-  a frase de um filme que adoro. Gostaria de ver a Torre Eiffel?
Gostaria, sim. Gostaria muito. Ralf tinha um buqu de rosas, e os olhos cheios de luz,
a luz que ela vira no primeiro dia, quando a pintava enquanto o vento frio fazia com que se
sentisse incomodada por estar ali.
- Como voc chegou aqui antes de mim? - perguntou apenas para disfarar a surpresa,
a resposta no tinha o menor interesse, mas precisava de algum tempo para respirar. - Vi voc lendo uma revista. Podia ter chegado perto, mas sou romntico,
incuravelmente romntico, e achei que seria melhor tomar a primeira ponte-area para
Paris, passear um pouco pelo aeroporto, esperar trs horas, consultar um semnmero de
vezes os horrios dos vos, comprar suas flores, dizer a frase que Ricky diz para sua amada
em Casablanca, e imaginar sua cara de surpresa. E ter certeza de que isso  o que voc
queria, que me esperava, que toda a determinao e vontade do mundo no bastam para
impedir que o amor mude as regras do jogo de uma hora para outra. No custa nada ser
romntico como nos filmes, voc no acha?
No sabia se custava ou no, mas o preo agora era o que menos lhe importava -
mesmo sabendo que acabara de conhecer aquele homem, tinham feito amor pela primeira
vez havia poucas horas, fora apresentada aos seus amigos na vspera, sabia que ele j havia
freqentado a boate onde trabalhava, e que fora casado duas vezes. No eram credenciais
impecveis. Por outro lado, ela tinha dinheiro para comprar uma fazenda, a juventude pela
frente, uma grande experincia de vida, uma grande independncia de alma. Mesmo assim,
como sempre o destino escolhia por ela, achou que mais uma vez podia correr o risco.
Beijou-o, sem nenhuma curiosidade de saber o que se passa depois que escrevem
"Fim" nas telas de cinema. Apenas, se algum dia algum decidisse contar sua histria, ia
pedir que comeasse como os contos de fadas, em que se diz:
Era uma vez...

Fim.


NOTA FINAL

Como todas as pessoas do mundo - e neste caso no tenho o menor receio de
generalizar -, demorei at descobrir o sentido sagrado do sexo. Minha juventude coincidiu
com uma poca de extrema liberdade, com descobertas importantes e muitos excessos,
seguida de um perodo conservador, repressivo, preo a ser pago por exageros que
realmente deixaram seqelas um pouco duras.
Na dcada dos excessos (estamos falando dos anos 70), o escritor Irving Wallace
escreveu um livro sobre a censura americana, usando para isso as manobras jurdicas
visando impedir a publicao de um texto sobre sexo: Os sete minutos.
No romance de Wallace o livro, que  motivo da discusso sobre a censura,  apenas
insinuado, e o tema da sexualidade raramente aparece. Fiquei imaginando o que conteria o
livro proibido; quem sabe poderia tentar escrev-lo?
Acontece que, durante o seu romance, Wallace faz muitas referncias ao livro
inexistente, e isso terminou por limitar - e impossibilitar - a tarefa que eu havia imaginado.
Ficou apenas a lembrana do ttulo (acho que Wallace foi muito conservador com relao
ao tempo, e resolvi ampli-lo) e a idia de que era importante abordar a sexualidade de uma
maneira sria - o que, alis, j foi feito por muitos escritores.
Em 1997, logo aps terminar uma conferncia em Mantova (Itlia), encontrei no hotel
onde estava hospedado um manuscrito que haviam deixado na portaria. No leio
manuscritos, mas li aquele - a histria real de uma prostituta brasileira, seus casamentos,
suas dificuldades com a lei, suas aventuras. Em 2000, passando por Zurique, entrei em
contato com a prostituta - cujo nome de guerra  Sonia - e disse que tinha gostado do seu
texto. Recomendei que enviasse  minha editora brasileira, que decidiu no public-lo.
Sonia, que ento tinha fixado residncia na Itlia, pegou um trem e foi me encontrar em
Zurique. Convidou-nos - a mim, um amigo e uma reprter do jornal Blick, que acabara de
me entrevistar - para ir at Langstrasse, a zona de prostituio local. Eu no sabia que Sonia
j havia prevenido suas colegas da nossa visita, e para minha surpresa, terminei dando
vrios autgrafos em livros meus, em diversas lnguas. A esta altura, eu j estava decidido a escrever sobre sexo, mas ainda no tinha nem o
roteiro, nem o personagem principal; pensava em algo muito mais dirigido para a busca
convencional do sagrado, mas aquela visita a Langstrasse me ensinou: para escrever sobre o
lado sagrado, era necessrio entender por que ele tinha sido to profanado.
Conversando com um jornalista da revista L'Ilustre (Sua), contei a histria da
improvisada noite de autgrafos em Langstrasse, e ele publicou uma grande reportagem a
respeito. O resultado foi que, durante uma tarde de autgrafos em Genve, vrias prostitutas
apareceram com seus livros. Uma delas me chamou especial ateno, samos - com minha
agente e amiga Mnica Antunes - para tomar um caf, que se transformou em jantar, que se
transformou em outros encontros nos dias que seguiram. Ali nascia o fio condutor de Onze
minutos.
Quero agradecer a Arma von Planta, minha editora sua, que me ajudou com dados
importantes sobre a situao legal das prostitutas em seu pas. As seguintes mulheres em
Zurique (nomes de guerra): Sonia, que encontrei pela primeira vez em Mantova (quem sabe
algum um dia se interesse pelo seu livro!), Manha, Antenora, Isabella. Em Genve
(tambm nomes de guerra): Amy, Lucia, Andrei, Vanessa, Patrick, Therse, Anna
Christina.
Agradeo tambm a Antonella Zara, que me permitiu usar trechos de seu livro A
cincia da paixo, para ilustrar algumas partes do dirio de Maria.
Finalmente, agradeo a Maria (nome de guerra), hoje residindo em Lausanne, casada
e com duas belas filhas, que em nossos vrios encontros dividiu comigo e com Mnica sua
histria, na qual este livro  baseado.
Paulo Coelho
PAULO COELHO  hoje um fenmeno da cultura de massa reconhecido em todo o
mundo.
Traduzido em 56 idiomas, publicado em 150 pases, o escritor tornou-se referencial
obrigatrio para quem queira entender idias e aspiraes de nosso tempo.
Onde quer que sua obra tenha sido editada, a acolhida dos leitores surpreendeu,
superando todas as possveis expectativas.
Foi assim quando a HarperCollins lanou em 1993 O alquimista nos EUA, com uma
tiragem de 50 mil exemplares, a maior j oferecida para um livro de origem brasileira. Hoje
o livro  considerado um dos maiores sucessos da editora em sua histria recente.
O triunfo excepcional se repete em todos os lugares onde o livro  lanado. Na
Frana, onde  publicado pela Anne Carrre e alcanou o topo da lista de mais vendidos,
por cinco anos consecutivos. Na Itlia, onde sai pela Bompiani e ganhou os prestigiosos
prmios Super Grinzane Cavour e Flaiano, na Alemanha, onde o selo  Diogenes e
permaneceu por 306 semanas na lista de best-sellers da revista Der Spiegel.
A carreira de Paulo Coelho, no entanto, no se resume ao bom desempenho nacional e
internacional de um livro s. O dirio de um mago, Brada, As valkrias, Na margem do rio
Piedra eu sentei e chorei, O monte cinco, Manual do guerreiro da luz, Veronika decide
morrer, O demnio e a srta. Prym so livros que vm provando a solidez do talento de seu
autor e a fidelidade de seus leitores. Uma combinao de rara felicidade a ponto de merecer
um dos mais famosos prmios alemes, o Bambi 2001, concedido a quem "acredita no
destino e nos dons do ser humano, e em sua capacidade de manter acesa a chama
humanista, num mundo de trevas".
Em 28 de outubro de 2002, Paulo Coelho assumiu sua cadeira de imortal na
Academia Brasileira de Letras. A conquista  natural numa trajetria literria incomparvel e o atestado definitivo do potencial modificador de suas palavras, que
podem ser
encontradas, hoje, no s em seus muitos livros, como nas pginas de jornais para os quais
colabora regularmente, entre eles Corriere della Sera (Itlia), EL Semanal (Espanha), Welt
am Sonntag (Alemanha), The China Times Daily (Taiwan).

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